Por Franklin Távora (1876)
Tinha ele, porém, ouvido antes, de cima da pitombeira, o diálogo do Cabeleira com o Teodósio, e sido causa do ruído que espantara o cavalo deste último. Tinha visto aquele encaminhar-se à engenhoca, o que o fizera acreditar que entre os malfeitores, que tinham de tornar, e efetivamente tornaram à mata, se achava o famigerado bandido, alma do couto, terror dos povos. Não lhe parecendo, por isso, necessário vigiar o terrível salteador, que ele considerava seguro com os outros na armadilha que lhes havia armado, consagrou-se todo a evitar que lhe escapasse o Teodósio. E como queria ter grande parte na glória que resultasse da extinção dos célebres assassinos, voltou sobre seus passos à estrada, e encaminhou-se ao povoado.
Valentim era bravo como uma onça, e tinha deste animal a agilidade e a destreza no mais alto grau. Confiava, não só nestes dotes naturais, mas também na sua espada de ponta direita que muitas vitórias já lhe havia proporcionado. Ele jogava com insigne habilidade esta arma.
Pouco adiante ouviu vozes. Apressou os passos, e encontrou-se face a face com o Teodósio, que, nada sabendo do que havia, demandava o couto.
Com ímpeto de fera botou-se a ele, não para vencê-lo mas para matá-lo.
— O seu gracejo é pesado, camarada — disse o Teodósio, recuando ante a brutal investida.
— Valentim não graceja. Rende-te, cabra Teodósio; ou então reza o ato de contrição, que esta é a tua derradeira.
— Se eu trouxesse a minha espada, não lhe enjeitada o bote. E se quer saber para quanto presta o cabra Teodósio, embainhe o seu ferro, e vamos decidir da sorte pela faca.
— Não estou para tuas parolas, cabra safado. Se não te entregas já nas mãos do Valentim, que nunca escolheu armas para provar que é homem, tiro-te o couro antes do amanhecer.
Teodósio, vendo aquela decisão ante a qual poucos ânimos, talvez unicamente o do Cabeleira, deixariam de curvar-se; e conquanto nos recursos do seu gênio astucioso que nunca o havia desamparado ainda nos maiores apertos, respondeu com voz melíflua:
— Não me mate, meu amo; o Teodósio rende-se.
No momento em que assim falava, o Valentim descarregou-lhe tamanha pranchada na cara, que ele caiu redondamente no chão.
Quando voltou a si, tinha nos pulsos enrodilhada uma corda de couro cru, em cuja ponta segurava o cabra.
— Levanta-te, que quero olhar para a tua cara — disse-lhe Valentim fustigando o prisioneiro com a ponta da espada. — Onde está a tua fama, cabra Teodósio ?
Este não respondeu.
Súbita tristeza invadira-lhe o espírito ordinariamente expansivo como o de uma criança.
Tinha ouvido tiros na mata, e conhecido que a situação era mortal.
CAPÍTULO XII
Ao amanhecer a região litoral da província desde Alagoas até Paraíba estava separada do sertão por cordão sanitário formado pelas milícias volantes dos diferentes distritos rurais.
Todas as matas compreendidas na zona que fica entre a costa e o sertão foram batidas ao mesmo tempo.
Os piquetes que penetram nas de Serinhaém, Água Preta, Muribeca, Merueira, S. Lourenço, Catucá, Iguaraçu, Goiana, Pau d'Alho, Limoeiro, recolheram-se mais tarde às respectivas sedes, depois de terem realizado importantes capturas.
Assassinos de profissão e de fama, que, protegidos pelas trevas da noite e pelas sombras das selvas virgens, tinham horrorizado durante muitos anos as povoações pacíficas, apareceram à luz do dia, trazendo nos pulsos cordas e algemas que bem denotavam que a justiça dos homens, reflexo ainda que pálido da justiça de Deus, cedo ou tarde restaura os seus foros e faz-se respeitar como uma fatalidade reparadora.
O capitão-mor de Santo Antão, justamente vangloriado por ver no seio de sua força o Joaquim e o Teodósio, cuja fama ofuscava a de todos os criminosos, com exceção somente do Cabeleira, seguiu imediatamente, à frente dela, para o Recife a apresentar-se ao governador.
No caminho de Afogados reuniu-se ela com a força que, tendo aguardado nesse lugar aquele dia, designado para a geral batida das matas, se movera pela manhã em direitura às que lhe ficavam nos limites ocidentais. As duas forças chegaram ao Recife formando uma só expedição que foi recebida pelos habitantes com inequívocas demonstrações de consideração e reconhecimento pelo relevante serviço que haviam feito.
Tantos eram os crimes cometidos pelo Cabeleira, e estes crimes haviam sido revestidos, na sua maior parte, de circunstâncias tão odiosas, que, quando se divulgou que o afamado bandido tinha escapado às malhas da rede da justiça, mostras de justo pesar vieram substituir-se nos semblantes de todos à expressão do regozijo recente que havia manifestado a população.
Com raras exceções, não se contava família, desde o Recife até o alto sertão, a quem a pela, a faca ou o bacamarte do terrível matador não houvesse roubado uma existência querida.
Por isso, era ele o alvo em que todos haviam posto a mira, e perdê-lo montava perder a diligência, ao parecer da maioria.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.