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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

__ Tem razão; a musica do Torquato é um verdadeiro triumpho da arte.

__ Talvez que a arte seja o que menos influe na minha predilecção por esta ária.

— Então...

— Arrebata-me o pensamento que alli domina, arrebata-me aquelle amor que faz esquecer a distancia que separa o poeta da princeza: o sentimento transborda alli com a mais sublime pureza. É um amor que não parece da terra, e que é no emtanto o único que eu posso reputar verdadeiro e santo.

Innocencio teve desejos de ajoelhar-se aos pés de Christina e adoral-a como um anjo.

— Oh ! tem havido tantos sacrilegos, ousando emprestar o nome sagrado de amor a sentimentos ás vezes tão baixos !... o interesse tem tantas vezes manchado esse nome bello e puro, envolvendo-se com eíle, que...

— Acabe...

— Senhor.... estou dizendo loucuras...

— Oh! não.... está fazendo ouvir a lição da virtude, da generosidade, do amor do céo !

— Pois bem : tantas vezes tem-se observado aquelle sacrilégio abominável, que pela minha parte eu preferira ser victima delle a parecer suspeita de haver pensado em commettel-o! Oh! eu desejara que o homem a quem eu amasse.... e que tivesse de ser meu esposo, fosse tão pobre, tão completemente pobre que somente me pudesse dar o thesouro do seu coração. Então eu ostentaria o meu amor profundo, desinteressado, virgem, divino pela sua essência, divino ainda pela sua duração sem termo... porque o meu amor, eu o sinto, não poderá acabar nunca!

Com uma commoção violenta, Innocencio agitado, nervoso, tremulo e receioso de atraiçoar-se, correndo com os dedos pelo teclado de piano, executou alguns compassos de uma musica estridente, ao mesmo tempo que Christina, commovida também, mas observandoo cuidadosa e disfarçadamente, vio cahirem-lhe dos olhos duas grossas lagrimas.

— Incommodei-o ? chora?... perguntou ella.

— Não ! não! estas lagrimas que cahírão de meus olhos, são mais doces do que todos os risos da felicidade, Christina.... Christina... o seu amor é como o amor que eu sinto, e o seu... eu o quero para mim... é meu... pertence-me... Ah! diga-me ainda uma vez que me ama...

A moça deixou cahir sua mão esquerda sobre as mãos de Innocencio, e apertando com a outra o coração, murmurou docemente :

— Amo-o !

O chá começou a servir-se naquelle momento.

Às dez horas da noite Geraldo e Innocencio despedirão-se e retirárão-se.

— Então ! aproveitaste bem o teu tempo, não é assim ?... perguntou Geraldo.

— Meu padrinho, respondeu Innocencio, Christinaé um anjo!

— Mas repara que não me asseguras que não seja algum daquelles anjos decahidos que se revoltarão contra Deos e cahírão do céo no inferno.

— Não zombe ; é um anjo de virtude e de amor!

— Qual! é uma moça bonitinha, que tem mais defeitos do que pensas.

— Meu padrinho, peço-lhe que respeite aqúella que deve ser minha esposa.

— Não digo mais palavra sobre ella; creio porém que posso fallar sobre os pais.

— E que tem a dizer a respeito d'el-les ?...

— Pouca causa : digo que se interessão por ti.

— Ah!

— Não houve pergunta que me não fizessem : ficarão sabendo a quanto montou a legitima que

te tocou por morte de teu pai e a herança que te caberá, por morte de tua mãi...

— Meu padrinho !

— Não acharão máo o que eu lhes disse e que foi a pura verdade, mas ficarão menos contentes quando eu os informei de que não podias esperar ser herdeiro de mais parente algum...

— Sempre a mesma idéa!...

— É muito natural; os pais devem pensar no futuro de suas filhas ; e assiste-lhes o direito de ser muito positivos.

— Tem razão.

— E Christina ? que te disse ella?

— Vossa mercê zomba de tudo........

— Não, tomarei este negocio ao serio.

Innocencio contou palavra por palavra tudo quanto se passara entre elle e Christina, e o enthusiasmo com que esta lhe fallára do amor da princeza Eleonora, e do amor desinteressado e santo, unico que ella comprehendia. Ouvindo isso,Geraldo-Risota pareceu fazer um esforço sobre si mesmo, e de repente.começou a assobiar muito desatinadamente uma musica que ninguém seria capaz de dizer o que era.

— Que faz, meu padrinho ? perguntou

Innocencio.

— Assobio, meu afilhado; assobio para não rir

IV.

Foi tão lisonjeiro ou tão animador o acolhimento que Innocencio recebeu dos pais da sua amade, que não deixou mais passar uma única noite sem ir pagar tributos de amor e colher suaves esperanças na chácara feliz onde habitava Christina.

Visitas tão freqüentes poderião oífender certas considerações que sempre se devem respeitar ; mas Innocencio olhava já Christina como sua noiva, e embora ainda não a tivesse pedido formalmente em casamento, já com tanta clareza manifestara as suas intenções a este respeito, a Fagundes e sua esposa, que sem vexame e quasi que com uma presumpção de direito ia todas as noites passar duas ou tres horas ao lado daquella que devia ser em breve a sua companheira de toda vida.

Também de sua parte Fagundes e Carlota recebião sempre com o maior agrado

Innocencio, e Christina nunca se despedia delle que, ao apertar-lhe a mão, não lhe dissesse :

— Até amanhã!

(continua...)

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