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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

É verdade que Aurélia esperava receber a cada instante os socorros que pedira ao avô. Escrevera-lhe logo que a moléstia da mãe agravou-se, e admirava-se de não receber resposta, nem ter notícias da fazenda. 

A razão só depois a soube. De volta à fazenda achou Lourenço Camargo uma caterva de peraltas, que se diziam seus sobrinhos, e com eles as respectivas mulheres, e a récua dos marmanjos e sirigaitas, que formam a ninhada dessa parentela. 

O Camargo não os podia suportar; para ver-se livre deles deixava-se fintar uma vez no ano, mas não consentia se demorassem em sua casa mais do que uma noite, se fazia mau tempo. 

Imagina-se pois como ficou o velho, quando aí achou-os todos de uma vez, com os seus apêndices, e muito a gosto. 

Mas o furor de Camargo não teve limites, quando os intrusos tiveram o desfaçamento de confessar o motivo que ali os reunira. 

Constara-lhes de fonte certa que o velho tinha feito testamento na corte, e segundo as suas conjeturas deixava todos os bens a uma rapariga, filha de certa mulher perdida, antiga amásia de Pedro Camargo. 

À vista disto haviam-se reunido e ali estavam para declarar ao tio que não consentiriam jamais em semelhante espoliação. Se, como esperavam, ele não reparasse o seu erro, para que já traziam o escrivão de paz, preveniam desde logo que anulariam esse testamento pela instituição de pessoa indigna. Neste ponto apoiavam-se no voto de um rábula, de que por cautela se tinham acompanhado. 

O velho Camargo conteve-se durante esta exposição; mas como se contém a torrente que sobe para romper o dique, e a tempestade que condensa até desabar. 

Quando o rábula, aberta a caixa de rapé, fechou a chave dos dois dedos tabaq2uistas para agarrar a pitada que devia destilar-lhe no nariz o monco e a eloqüência, não achou presa. A boceta de tartaruga voara pelos ares a um murro de Camargo, que apanhando uns arreios de mula cargueira, suspensos à varanda, caiu na parentela, e dispersou-a a lambadas de couro e ferro. 

Homens, mulheres e meninos, tudo foi escovado. Ao mesmo tempo o fazendeiro gritava pela negraria, e armando-a de peias e manguais, enxotava de casa a praga que a tinha invadido. Só depois que a deixou na estrada com as trouxas e malas de bagagem, voltou a calma ao velho. 

Mas o corpo robusto, que apesar dos setenta anos, desenvolveu aquele prodigioso esforço físico, não pode resistir à explosão da cólera estupenda que subverteu-lhe a alma. Quando não teve mais em quem descarregar a indignação, esta subiu-lhe ao cérebro e fulminou-o. 

O ataque paralisou-o completamente; a vitalidade de sua organização lutou cerca de dois meses, nesse corpo morto, até que afinal extinguiu-se. Em todo esse tempo não deu acordo de si. As cartas de Aurélia ficaram na gaveta, onde as guardara o administrador. 

Com diferença de dias veio a falecer também D. Emília, deixando Aurélia em completa orfandade. Nesse transe cruel, o Dr. Torquato Ribeiro não abandonou a moça, e foi a rogos dele que D. Firmina Mascarenhas levou a órfã para sua casa. 

À exceção dessa parenta afastada, nenhuma outra pessoa da família apareceu ou mandou à casa de Aurélia durante a enfermidade da mãe, e depois do passamento. O Lemos e sua gente não deram sinal de si. 

 

VIII 

 

Aceitando a companhia de D. Firmina, não era intenção de Aurélia, tornar-se pesada à sua parenta. 

Passados os oito dias de nojo, enviou pelo Dr. Torquato Ribeiro um anúncio ao jornal, oferecendo mediante condições razoáveis seus serviços como professora de colégio, ou mestra em casa de família. Estava porém disposta a descer até o mister mais modesto de costureira, ou mesmo de aia de alguma senhora idosa. Decorreu mais de mês, sem que aparecesse coisa séria. Apenas se apresentaram alguns desses farejadores de aventuras baratas, a 10 centavos por linha. D. Firmina porém percebeu-lhes a manha, e despedindoos da escada, sem consentir que vissem a moça. 

Pensava Aurélia em mandar outro anúncio, quando a procurou um negociante, que andara à cata de sua nova morada. Era o correspondente do falecido Camargo, que vinha comunicar à moça o falecimento do fazendeiro. 

- A senhora tem em seu poder um papel, que o meu amigo lhe deu a guardar, recomendando-me que no caso de acontecer-lhe alguma coisa, lhe avisasse para abri-lo. 

Parece que tinha um pressentimento. 

O papel continha o testamento em que Lourenço de Sousa Camargo reconhecia e legitimava como seu filho a Pedro Camargo, que fora casado com D. Emília Lemos; declarando que à sua neta D. Aurélia Camargo, nascida de um legítimo matrimônio, a instituía sua única e universal herdeira. 

Ao testamento juntara o velho uma relação detalhada de todo o seu possuído, escrita do próprio punho, com várias explicações relativas a alguns pequenos negócios pendentes, e conselhos acerca da futura direção das fazendas. 

Calculava-se o cabedal de Camargo em um milhão de cruzeiros ou cerca. Apenas divulgou-se a notícia de ter Aurélia herdado tamanha riqueza, acudiram-lhe à casa todos os parentes, e à frente deles o Lemos com seu rancho. 

(continua...)

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