Por José de Alencar (1872)
Como era natural, essa beleza, tão reputada nos salões, supôs-se o objeto de uma admiração ardente, e talvez mesmo já envolta em sentimento mais terno. Qualquer dúvida desapareceu no espírito da moça, apenas notou a expressão de desgosto que se derramava na fisionomia franca de Ricardo, ao surpreender um requebro ou ademane namorado de Fábio.
Desde então procurou o olhar de Ricardo e encontrando-o tentava retê-lo com um lânguido volver do seu. Uma vez demorando-se muito tempo em aspirar o perfume das violetas com os olhos fitos no mancebo, deixou depois cair a mão que segurava o ramo, e este escorregou ao chão.
O chapelinho de sol, faceiramente inclinado, ocultou esta mímica às acesas vistas de Fábio; e um relancear rápido e vivo indicou a Ricardo a queda do ramo de violetas.
O primeiro assomo do advogado foi ditado pela cortesia; as rédeas colhidas de pronto sofrearam a marcha do animal. Mas logo após retraindo, mostrou-se de todo alheio ao incidente; nem suspeitou sombra de provocação, onde só via mero acaso.
D. Guilhermina porém parara de repente procurando em si um objeto que lhe faltasse.
- O que é? perguntou Fábio solícito. Perdeu alguma coisa?
A resposta demorou-se um instante à espera que Ricardo se voltasse; mas este afastava-se.
- Meu ramo!
- Caiu sem dúvida; vou procurá-lo.
Fábio retrocedeu à cata do ramo; mas já o Benício o tinha apanhado, e para não machucá-lo, o trazia a pé, puxando a mula.
- Faz favor! Disse Fábio.
- Nada, meu senhor; quero entregá-lo à dona.
D. Guilhermina que esperava parada, o recebeu, mui contrariada.
- Pode seguir, Sr. Benício, disse Fábio que desejava aproveitar a ocasião de ficar só com a moça.
- Não se incomode! Talvez D. Guilhermina tenha outra vez necessidade de meus serviços.
A mulher do conselheiro percebendo a impaciência de Fábio e receando que ele tivesse algum desaguisado com o pachorrento Sr. Benício, pôs o cavalo a meio galope.
- Viva!! disse o moço contentíssimo por livrar-se do sujeito.
Mas o homem, soltando o chouto à mula, aí estava rente com eles e os acompanhou até apanharem os outros. A Guida não escapara a provocação de D. Guilhermina, e vendo Ricardo render-se no primeiro assomo, sorriu. Era a ocasião de subtrair-se à vigilância contínua que o dono do “Galgo” exercia sobre ela.
- Bravo, D. Guidinah!...
- Nem a rainha do ar.
Estas exclamações do Bastos e Guimarães festejavam as escaramuças com que a moça se divertia à beira do profundo despenhadeiro.
Voltando-se, viu Ricardo as curvetas do “Galgo”, e adiantou-se:
- Confesso-lhe que estou arrependido da troca! Pensei que a senhora não fosse tão...
- Tão estabanada!... Pode dizer!... acudiu a moça.
- Queria dizer imprudente, apenas.
- Muito obrigada! retorquiu com um sorriso de gentil motejo. Tenho eu culpa das estrepolias de seu cavalo?
- Mas eu preveni-a do quanto ele é árdego! Não suporta certas birrazinhas que a senhora costuma fazer a “Edgard”! É um caipira, como eu.
- Está o senhor também querendo fazer o “Galgo” pior o que é! Não o acho tão feroz como o pinta o dono!
- Em todo o caso eu lhe peço, não o irrite!... disse Ricardo alisando a anca do animal para acalmá-lo.
- Eu estou bem quietinha, vê! disse a moça com as mãos cruzadas sobre o gancho do selim. Ainda quer mais?
acrescentou atirando a Ricardo um sorriso cheio de malícia.
- Por que não chega mais para o meio? Vai muito na beira do barranco!
- Ah! Também faz mal? Pode cair a ribanceira? Não é? Mas lá; se a montanha vier abaixo? Ricardo não respondeu.
- Que diz?
- Zombe a seu gosto!... Divirta-se à minha custa, contanto que deixe o “Galgo” sossegado, tornou Ricardo gracejando.
- Está bom, não quero que tenha queixa de mim.
E inclinando as rédeas, fez o “Galgo”, já apaziguado, tomar o meio da estrada.
- Está satisfeito?
- Se continuar assim...
- O senhor está prevenido contra mim. Quem sabe se não me fizeram alguma intriga? Pois engana-se, tenho um gênio de água morna.
- Não supunha, acudiu Ricardo; mas depois do que tenho visto esta manhã, posso jurar!
- Não é verdade?... Estamos quase no fim do passeio e ainda não dei um galope!
- O galope não é das piores coisas.
- Ah!... Então o galope não faz mal?
- Conforme; num cavalo manso, o galope é agradável e não tem o menor risco; mas em um animal arisco, como o “Galgo”, não convém a uma senhora.
- É perigoso? perguntou Guida com um modo cândido.
- Pode tornar-se.
- Deveras!
- Se não acredita...
- Ao contrário, acudiu Guida.
- Uma tarde destas e neste mesmo caminho esteve a atirar-se com Fábio pela montanha abaixo.
- E como escapou?
- Esbarrando contra os bois de um carro que por felicidade estava atravessado na estrada.
- Ahh!... O tal senhor “Galgo” faz dessas estrepolias!... repetia Guida afagando o pescoço do animal com a mãozinha enluvada.
De repente um sibilo cortou os ares; e o “Galgo” se arremessou no espaço como m turbilhão, no meio do qual mal se distinguia o torvelim da saia de Guida, agitada pela corrida impetuosa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.