Por José de Alencar (1857)
Ver aquela alma selvagem, livre como as aves que planavam no ar ou como os rios que corriam na várzea; aquela natureza forte e vigorosa que fazia prodígios de força e coragem; aquela vontade indomável como a torrente que se precipita do alto da serra; prostrar-se a seus pés submissa, vencida, escrava!...
Era preciso que não fosse mulher para não sentir o orgulho de dominar essa organização e brincar com a força obrigando-a a curvar-se diante do seu olhar.
As mulheres têm isso de particular; reconhecendo-se fracas, a sua maior ambição é reinar pelo imã dessa mesma fraqueza, sobre tudo o que é forte, grande e superior a elas: não amam a inteligência, a coragem, o gênio, o poder, senão para vencê-los e subjugá-los.
Entretanto a mulher deixa-se bastantes vezes dominar; mas e sempre pelo homem que, não lhe excitando a admiração, não irrita a sua vaidade e não provoca por conseguinte essa luta da fraqueza contra a força.
Cecília era uma menina ingênua e inocente, que nem sequer tinha consciência do seu poder, e do encanto de sua casta beleza; mas era filha de Eva, e não podia se eximir de um quase nada de vaidade.
— A senhora não quer que Peri parta, disse ela com um arzinho de rainha, e fazendo um gesto com a cabeça.
O índio compreendeu perfeitamente o gesto.
— Peri fica.
— Vede, Cecília, replicou D. Antônio rindo: ele te obedece!
Cecília sorriu.
— Minha filha te agradece o sacrifício, Peri, continuou o fidalgo; mas nem ela nem eu queremos que abandones a tua tribo.
— A senhora mandou, respondeu o índio.
— Ela queria ver se tu lhe obedecias: conheceu a tua dedicação, está satisfeita; consente que partas.
— Não!
— Mas os teus irmãos, tua mãe, tua vida livre?
— Peri é escravo da senhora.
— Mas Peri é um guerreiro e um chefe.
— A nação Goitacá tem cem guerreiros fortes como Peri; mil arcos ligeiros como o vôo do gavião.
— Assim, decididamente queres ficar?
— Sim; e como tu não queres dar a Peri a tua hospitalidade, uma árvore da floresta lhe servirá de abrigo.
— Tu me ofendes, Peri! exclamou o fidalgo; a minha casa está aberta para todos, e sobretudo para ti que és amigo e salvaste minha filha.
— Não, Peri não te ofende; mas sabe que tem a pele cor de terra.
— E o coração de ouro.
Enquanto D. Antônio continuava a insistir com o índio para que partisse, ouviu-se um canto monótono que saia da floresta.
Peri aplicou o ouvido; descendo à esplanada correu na direção donde partia a voz, que cantava com a cadência triste e melancólica particular aos índios, a seguinte endecha na língua dos Guaranis:
“A estrela brilhou; partimos com a tarde. A brisa soprou; nos leva nas asas.
“A guerra nos trouxe; vencemos. A guerra acabou; voltamos.
“Na guerra os guerreiros combatem; há sangue. Na paz as mulheres trabalham; há vinho.
“A estrela brilhou; é hora de partir. A brisa soprou; é tempo de andar.”
A pessoa que modulava esta canção selvagem era uma índia já idosa; encostada a uma árvore da floresta ela vira por entre a folhagem a cena que passava na esplanada.
Chegando-se a ela, Peri ficou triste e vexado.
— Mãe!... exclamou ele.
— Vem! disse a índia seguindo pela mata.
— Não!
— Nós partimos.
— Peri fica.
A índia fitou em seu filho um olhar de profunda admiração.
— Teus irmãos partem!
O selvagem não respondeu.
— Tua mãe parte!
O mesmo silêncio.
— Teu campo te espera!
— Peri fica, mãe! disse ele com a voz comovida.
— Por quê?
— A senhora mandou.
A pobre mãe recebeu esta palavra como uma sentença irrevogável; sabia do império que exercia sobre a alma de Peri a imagem de Nossa Senhora, que ele tinha visto no meio de um combate e havia personificado em Cecília.
Sentiu que ia perder o filho, orgulho de sua velhice, como Ararê tinha sido o orgulho de sua mocidade. Uma lágrima deslizou pela sua face cor de cobre.
— Mãe, toma o arco de Peri; enterra junto dos ossos de seu pai: e queima a cabana de Ararê.
— Não; se algum dia Peri voltar, achará a cabana de seu pai, e sua mãe para amá-lo: tudo vai ficar triste até que a lua das flores leve o filho de Ararê ao campo onde nasceu. Peri abanou a cabeça com tristeza:
— Peri não voltará!
Sua mãe fez um gesto de espanto e desespero.
— O fruto que cai da árvore, não torna mais a ela; a folha que se despega do ramo, murcha, seca e morre; o vento a leva. Peri é a folha; tu és a árvore, mãe. Peri não voltará ao teu seio.
— A virgem branca salvou tua mãe; devia deixá-la morrer, para não lhe roubar seu filho. Uma mãe sem seu filho é uma terra sem água; queima e mata tudo que se chega a ela.
Estas palavras foram acompanhadas de um olhar de ameaça, em que se revelava a ferocidade do tigre que defende os seus cachorrinhos.
— Mãe, não ofende a senhora; Peri morreria, e na última hora não se lembraria de ti. Os dois ficaram algum tempo em silêncio.
— Tua mãe fica! disse a índia com um acento de resolução.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.