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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

Lúcia atravessou o aposento com o passo hirto, e saiu. Entrou alguns minutos depois. O calor voltara à epiderme, que abrasava agora; o corpo tinha, não a doce flexibilidade que lhe era natural, porém uma elasticidade nervosa e convulsa, que o enrolava como a cauda de uma serpente na agonia. Em vez do seu hálito sempre perfumado, a boca exalava o bafo ardente de uma chama interior e o fumo alcoólico de espírito fortíssimo. 

 

— O que bebeste tu, Lúcia? perguntei-lhe inquieto. 

 

— Sofro do estômago, bebi um gole de kirsch, respondeu com a voz trôpega. 

 

— Que extravagância! 

 

Ela cortou-me a palavra com um beijo de fogo; escaldou-me da lava que corria-lhe do corpo; mas de repente repeliu-me bruscamente escondendo o rosto nas mãos: 

 

— Não posso! É mais forte do que eu! 

 

Soluçava como uma criança; riu depois como uma louca. 

 

Conheci então a verdade; Lúcia estava embriagada. 

 

A sua saída repentina fora um ato de desespero para vencer o gélido espasmo que a marmorizava. Tinha quase esvaziado uma garrafa de kirsch. Acreditei enfim na sinceridade da repugnância de Lúcia; renunciei de uma vez ao meu desejo. Sentia profunda compaixão por essa mulher. O seu pranto me enterneceu; chorei com ela. 

 

O abalo moral foi-lhe dissipando a embriaguez, até que adormeceu profundamente sobre o meu peito. 

 

Quando acordou, Lúcia percorreu algum tempo com os olhos o aposento, como se coligisse os vestígios esparsos de recordações esvanecidas pelo sono, até que a idéia do que se havia passado desenhou-se lúcida no seu espírito. Então volveu para mim o olhar humilde juntando as mãos com uma expressão suplicante. 

 

— Logo mais terei forças! balbuciou ela. Era a primeira vez depois de tanto tempo; e não pensei que me faltasse o ânimo. 

 

— Não, Lúcia; nunca mais! 

 

O seu rosto anuviou-se: 

 

— Então vai abandonar-me de novo?  

 

— Supunha que isso não passava de uma excentricidade; o meu orgulho se revoltava. Mas há pouco o suplício horrível por que passaste me comoveu a ponto que chorei contigo. 

 

— Chorou?... E por mim! 

 

— Conheci que havia uma dor profunda e intensa no que me parecia ridículo capricho! Hei de me lembrar sempre que te vi quase morta nos meus braços! Um desejo de hoje em diante seria uma idéia assassina! Não posso, não o devo ter! És sagrada para mim; sagrada pelo martírio que te causei; sagrada pelas lágrimas que derramamos juntos. A tua beleza já não tem influência sobre os meus sentidos. Posso te ver agora impunemente. 

 

Lúcia me escutava com enlevo, bebendo uma a uma as minhas palavras e o meu olhar, como se foram um elixir poderoso que a regenerasse. Apenas me calei, desprendeu-se docemente de meu seio, e caiu de joelhos. Ergueu-se depois grave e recolhida para dizer-me: 

 

— Deus me abençoou! 

 

Houve um grande silêncio, em que Lúcia, imóvel e recolhida, continuava absorta no seu êxtase religioso, e eu contemplava-a mudo sem me animar a interrompê-la. 

 

— Agora deves ter confiança em mim, Lúcia; explica-me a razão dessa singularidade. 

 

— Eu mesma não sei! respondeu com ingênua simplicidade. 

 

— Ainda receias?... 

 

— Não! Alguma coisa me diz que eu vibro no seu coração uma corda, embora seja a da compaixão e da piedade. Posso abrir-lhe minha alma e deixar que penetre nela. Veja se compreende: eu não posso. 

 

— Mas devias sentir alguma coisa? 

 

— Sentia a morte que me invadia o corpo, enquanto eu vivia dentro dele sofrendo torturas horríveis. Se eu tivesse ainda minha mãe expirante diante de meus olhos, amaldiçoando-me no seu último soluço; se por algum crime infame me açoitassem nua pelas ruas, cuspindo-me às faces no meio das vaias do povo, creio que não sentiria o que sinto nesses momentos. Por que razão? 

 

— Entretanto houve um tempo em que, se não me engano, tu eras feliz como eu do prazer que me davas. 

 

— É verdade! Esse tempo foi uma eternidade de delícias para mim; desejava até, louca que eu era!... desejava que fosse possível morrermos assim um no outro... uma só vida extinguindo-se num só corpo! Mas passou!... Devia passar. 

 

— Por quê? 

 

— Não sei!... Quando me lembro... 

 

Tornou-se lívida; a voz encobriu-se: 

  

— Quando me lembro, que um filho pode gerar das minhas entranhas, tenho horror de mim mesma! 

 

— Não digas isso, Lúcia! Que mulher não deseja gozar desse sublime sentimento da maternidade! 

 

— Oh! Um filho, se Deus mo desse, seria o perdão da minha culpa! Mas sinto que ele não poderia viver no meu seio! Eu o mataria, eu, depois de o ter concebido! 

 

Não compreendia esse fenômeno; ainda hoje não o posso explicar senão por alguma das misteriosas afinidades do corpo com o espírito que o habita. 

 

— Mas que importa? continuou Lúcia. Aquelas delícias passadas não valem a felicidade que eu sinto agora quando o vejo, quando lhe falo. Se eu pudesse viver toda a minha vida assim, sentada nos seus joelhos, olhando-o, não pediria a Deus nada mais! 

 

(continua...)

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