Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Anacleto pegou levemente na mão de Celina, fez com que a moça se erguesse, e entregando-a a Cândido, disse:
– Não, eu quero ficar só com a sra. Irias; e o sr. Cândido, Celina, é um cavalheiro honrado e nobre, que pode passear a sós contigo. Ide!
Celina tocou com a ponta de seus dedinhos o braço que lhe oferecia Cândido, e saíram ambos do caramanchel; ela, como no princípio, muito corada, e ele muito pálido.
Foram os dois mancebos para o caminho do terraço; a multidão pareceu talvez a ambos uma defesa contra sua própria perturbação. Quando eles subiam a escada do extremo direito do terraço, Irias ainda tinha sobre ambos fitos os olhos, e os acompanhava com um sorrir eloqüente; mas ao vê-los chegar ao último degrau, Anacleto estendendo o braço, e apontando para Cândido, disse a Irias:
– Estamos em completa liberdade; e eu posso desvanecer-me de merecer a sua confiança. Diga-me, senhora, quem é aquele mancebo que leva pelo braço minha pupila e neta?...
– O que quer saber, senhor? pergunta-me pela história de sua vida, ou por suas qualidades?...
– Penso ter bem apreciado as últimas; mas ignoro tudo da primeira.
– Também o que eu sei não poderá satisfazer-lhe.
– Diga-me sempre.
Começou Irias a falar, em voz porém tão baixa, que não a pudemos ouvir.
No entanto, Cândido e Celina tinham-se entranhado no coração da multidão. Nas portas dos torreões, sobre os bancos de mármore e azulejos que entremeiam a bela cortina que guarnece em quadro o terraço, sobre o parapeito de grossas grades de ferro, que olham para o mar, subindo enfim pelas quatro escadas, havia sempre multidão. Celina pensava que melhor se esconderia no meio dela; Cândido era escravo da inércia, iria para onde o quisessem levar, e sobretudo respeitava o desejo de uma senhora.
Mas Celina se iludira. Um homem sim, uma mulher não, nunca se esconde na grande concorrência, porque, onde existe uma mulher, principalmente moça e bela, todos os olhos se fitam sobre ela.
Que importa que a mulher traga os olhos baixos? os observadores perguntam e indagam por que ela os não traz levantados; porém se os trouxer bem erguidos, os observadores hão de indagar ainda por que os não traz ela no chão.
Mas quase ao tocar a extremidade esquerda do terraço, quando o par incompreensível tinha atravessado todo aquele extenso quadro sem dar fé das belas jovens, e elegantes mancebos que por ali vagavam, Celina, no momento em que se voltava para repetir o mesmo passeio, viu em um volver de olhos os mesmos dois mancebos, que já uma vez tinha encontrado, e a haviam feito corar, e que ora a observavam de uma das janelas do torreão esquerdo.
Um dos observadores tinha o braço levantado, e mostrava-a com o dedo. Ambos se estavam rindo como de inteligência.
A brisa da tarde trouxe aos ouvidos de Celina as mesmas palavras da outra vez:
– São namorados.
A perturbação da moça redobrou; ela compreendeu que havia alguma coisa de singular neles dois. Lembrou-se desse silêncio obstinado que ambos guardavam, dessa melancolia que os fazia notáveis, e temendo já a multidão, ao chegar à primeira escada do centro que desce ao lado da cascata, ela deixou o braço de Cândido e disse:
– Desçamos, senhor... vamos passear... conversemos... por quem é... conversemos.
Cândido levantou os olhos e viu o rosto de Celina ainda mais embelecido pelo rubor do pejo... uma leve excitação nervosa lhe fazia palpitar com força o coração, e lhe inundava o seio de voluptuosidade. Cândido respondeu tremendo:
– Conversemos; e ficou ainda calado.
– Oh! vamos passear pelas alamedas... leve-me para as menos freqüentadas...
eu aborreço a multidão... mas conversemos!
– Vamos para as alamedas... murmurou Cândido.
Os dois mancebos que observavam desde o princípio Cândido e Celina, perderam-nos de vista ao voltar de uma alameda.
Cândido e Celina passeavam a sós.
Temendo a multidão como a um inimigo, procuravam as ruas solitárias; aí reinava o silêncio; as árvores cruzando seus ramos deixavam apenas passar raios de uma luz duvidosa... sopravam brandos favônios, que vinham travessos entender com as folhas, beijar as flores, e espalhar os perfumes, que das últimas roubavam...
Celina já se havia esquecido dos dois mancebos... e pensava sobre o romance que nessa tarde lhe havia cantado o velho Rodrigues...
Cândido lembrava-se do que ainda há pouco tinha ouvido da velha Irias.
Não conversavam... não se diziam palavra... fechava a boca de ambos esse pudor angélico do primeiro amor; mas o primeiro amor diz tudo no seu eloqüente silêncio, diz mil vezes mais do que em seus longos discursos dizem esses amores velhos, gastos, que já não têm originalidade nem pureza, e que falam muito porque sentem pouco.
O primeiro amor respira virtude e castidade: é a exalação do sentimento puro e santo que Deus soprou em nossa alma... exalado esse, os outros são feios arremedos, que nunca se podem parecer com ele.
O primeiro amor não fala... quase que não olha: suspira e treme; mas nessa linguagem muda diz muito... diz tudo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.