Por Lima Barreto (1922)
Tirassem-no das coisas fantasmagóricas e berrantes que feriam a vaidade pueril do povo, fazendo este supor que a Bruzundanga era respeitada na Europa; tirassem-no daí que ninguém era capaz de sacar-lhe da cachola uma idéia de governo, um alvitre de verdadeiro estadista.
Basta dizer, para se avaliar a triste situação interna da extravagante nação de que lhes dou notícias, que, nos arredores da capital, se morria à míngua, à fome, as terras estavam abandonadas e invadidas pelas depredadoras saúvas, a população roceira não tinha direitos nem justiça e vivia à mercê de cúpidos e ferozes senhores de latifúndios, cuja sabedoria agronômica era igual à dos seus capatazes ou feitores. Mas o povo, graças aos poetas e jornalistas simoníacos, não queria capacitar-se de que Pancome era simplesmente decorativo e continuou a admirá-lo como um semideus.
E ele fazia o que queria e se agora estava atrapalhado com a nomeação de um amanuense, não era porque fosse do seu natural respeitar as leis.
Há um pequeno e passageiro temor da natureza daquele que sentem os heróis quando vão entrar em combate.
Já nomeara pouco mais de meia dúzia por meio de concurso mas não estava satisfeito com essas nomeações.
E verdade que os que nomeara, trajavam regularmente, engraxavam as botas e não tinham nunca o colarinho sujo. Eram já grandes qualidades, porque de tal forma viera a encontrar o pessoal da secretaria, esbodegado, relaxado, vestindo roupas baratas, morando nos subúrbios, que foi necessário toda a sua energia para que ele modificasse tão maus hábitos.
As verbas do ministério pagaram a quase todos, desde o servente até um chefe de secção, ternos bem talhados, camisas finas, botinas de bom cabedal, etc. Assim, conseguira dar um ar de Foreign Office ou de Quai d'Orsay à modesta Secretaria de Estrangeiros do modesto país da Bruzundanga.
A sua atrapalhação estava na tal história do concurso, pois até ali, devido a tão tola formalidade, não conseguira ter nos cargos de amanuenses moços bonitos e demais, para fazer concursos, sempre apareciam uns rebarbativos candidatos de raça javanesa, com os quais ele embirrava solenemente.
Da última vez, até, quase que um atrevido javanês puro consegue o primeiro lugar, tal era o brilho de suas provas; Pancome, porém, arranjou as cousas tão lealmente diplomáticas que o rapaz perdeu a última prova.
Não queria que a cousa se repetisse e estudava o modo de, evitando o concurso, encontrar um candidato bonito, bem bonito, não sendo em nada javanês, que pudesse oferecer aos olhares do ministro da Coréia ou do Afganistão um belo exemplar da beleza masculina da Bruzundanga.
Todos os candidatos que se haviam apresentado não preenchiam essa exigência do seu alto critério governamental.
Alguns eram mesmo feios, outros tinham toques de javanês, e nenhum a beleza radiante que ele queria ver nos amanuenses.
Essas suas sábias medidas, para recrutamento do seu pessoal, levaram para a sua secretaria moços bonitos e excelentes mediocridades, que ainda procuravam demonstrar a sua principal qualidade intelectual, publicando borracheiras idiotas ou compilações rendosas e pesadas ao Tesouro; entretanto, em certo e determinado sentido, foram profícuas, como teve ocasião de verificar o sucessor de Pancome.
Este, por ocasião de uma festa de sustância, encontrou nos amanuenses e oficiais da escola do visconde, soberbos estofadores, magníficos tapeceiros, exímios ornamentadores de salas; e, de tal forma um dado arrumou retratos nas paredes de seu salão, que o Ministro da Inglaterra ofereceu-lhe um bem remunerado lugar na domesticidade do castelo de Windsor.
O obstáculo do concurso fazia o visconde pensar a toda a hora e instante na vaga de amanuense, e ele já se resolvera a removê-lo por completo, sem dar nenhuma satisfação a quem quer que fosse, quando, ao despachar o expediente daquele dia, lhe veio ter às mãos um requerimento com fotografias apensas.
Em geral, os ministros não lêem o que despacham; limitam-se a rubricar o despacho do secretário ou oficial de gabinete. Pancome não fazia exceção na regra, mas aquele papel, com fotografias, despertou-lhe a atenção. Leu-o. Tratava-se do bacharel Sune Wolfe, que requeria ser provido no lugar vago de amanuense; e, para que avaliar pudesse o senhor Ministro da sua beleza física, juntava aqueles dos retratos, um de perfil e outro de frente.
A secretaria tinha exigido selos de juntada em tais documentos e o despacho do secretário era nesse sentido. O visconde, como sempre, pouco disposto a obedecer às leis, não se incomodou; e, cheio de admiração pela boniteza do requerente riscou o despacho e escreveu com a sua letra um outro, determinando que o candidato comparecesse à sua presença.
No dia seguinte o rapaz foi ter com o ministro, que ficou embasbacado diante do lindo candidato.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16833 . Acesso em: 8 maio 2026.