Por Adolfo Caminha (1895)
O negro não teve dúvida; ergueu-se (era uma hora da madrugada), foi à casinha, para não dar a perceber, amarrou na cintura uma navalha de marinheiro que o acompanhava sempre, vestiu, por baixo da roupa branca de doente, a camisa de gola, e voltou cauteloso, perscrutando o silêncio e a escuridão. Depois, foi tudo rápido: deu volta ao cabo na janela, um cabo grosso trançado, e —... que os pariu! — saltou fora. Uma escuridão medonha na baía e um silêncio de arrepiar cabelo. Era a hora do sono forte, do sono pesado. As sentinelas bradavam, de instante a instante, o seu prolongado — alerta! que o eco repetia no mar e em terra. Nenhuma outra voz, nenhum outro sinal de vida. A cidade iluminada, estrelada de luzes microscópicas, era como vasta necrópole na lúgubre inquietação da noite.
Bom-Crioulo sentia um friozinho brando, um leve bafejo matinal arrepiar-lhe a nuca. Dirigiu-se tateando, tateando, rente com o paredão do hospital, sem olhar pra trás, sem ver nada. Tinha examinado bem o terreno antes de se aventurar; por esse modo, caminhando naquele rumo, ia direito a uma descida pouco escabrosa. Embaixo ficava o dique. era preciso muita cautela, muito jeito para não precipitar-se. Foi indo, foi indo, ora agachado, ora em pé, segurando aqui, segurando acolá, às apalpadelas, e pôde enfim —que os pariu! — chegar ao cais, à beira d’água, sem o mais leve arranhão. Dava meia hora na Candelária — uma pancada sonora e cheia, que reboou longe, soturnamente, acordando os ecos. — “Faltava atravessar o canal, pensou Bom-Crioulo, medindo com o olhar a extensão líquida que separava o arsenal da ilha. Paciência, um pouquinho de paciência. Devagar...” Encolheu-se todo por trás de um guindaste, reflexionando. — Ia dali rente para o sobrado: queria ver como estava aquilo; queria fazer uma surpresa ao senhor Aleixo. E a portuguesa? Já não se lembrava dela!... É verdade, a portuguesa?...
Um relâmpago, uma dúvida passou rápida em seu espírito, deslumbrando-o: — Qual! Não era possível!... Que tolice!...
O friozinho aumentava. O relógio da Candelária, sonoro e profundo, badalou duas horas. Bom-Crioulo ergueu a vista para o céu: — as estrelas palpitavam; a vialáctea resplandecia, branca e tortuosa, na infinita serenidade da noite. Defronte, no arsenal, erguia-se o perfil de uma grande chaminé sombria. A água marulhava no cais monotonamente, em seu eterno fluxo e refluxo. — Alerta! bradavam as sentinelas a cada instante, na ilha, no arsenal, na Alfândega, nos trapiches. Em toda parte o mesmo silêncio, a mesma quietação, a mesma clama profunda.
A noite parecia não acabar, não ter fim: era como uma eternidade. Arrastado pela maré, um objeto ia flutuando águas abaixo, vagarosamente. — Algum trapo velho, pensou o negro, talvez mesmo, quem sabe? algum “corpo”...
E nada de clarear, nada de amanhecer; já se ia impacientando! Que diabo fazia ele que não tomava uma resolução? Era para isso que tinha fugido, pra estar ali de boca aberta, caindo de sono? Mas não havia remédio, senão esperar, não havia outro jeito. Ir a nado? Qual! E as sentinelas?... Paciência, paciência...
Duas horas no relógio da Candelária. Apenas uma voz bradou, longínqua e desolada, sem eco: — Alerta!
Bom-Crioulo recostou a cabeça no guindaste, bêbedo de sono, um peso nas pálpebras, uma indisposição no corpo; e, não obstante as “coceiras”, que aí vinhamlhe subindo nas pernas, como um formigueiro, adormeceu ao rumorzinho da água no cais.
Quando ergueu a vista, momentos depois, era quase dia. Começava o tumulto de escaleres e catraieiros para os lados da Alfândega. Ouvia-se o barulho de remos e o arquejar de uma lancha deitando vapor fora. Os Órgãos, indistintos ainda na meia sombra do alvorecer, iam pouco a pouco evidenciando sua bela configuração de harmônium colossal. Uma ou outra luzinha pálida no anfiteatro da cidade. Tinha-se apagado a iluminação. No mosteiro de S. Bento um sino fanhoso vibrava matinas desde as três horas, insistentemente, num alvoroço de igrejinha d’aldeia que acordas proclamando os triunfos da cristandade. A bordo, nos navios de guerra, cornetas preludiavam o hino do amanhecer. Do outro lado da baía, em Niterói, uma névoa fina, transparente, como a evaporação de um grande lago, fraldejava as montanhas, ocultando a paisagem de um extremo a outro. E lá fora da Barra, para além do Pão d’Açúcar, um listrão cor de rosa, pouco apouco ia-se tornando mais vivo, mais fulgurante no céu lívido...
Bom-Crioulo circunvagou o olhar, muito admirado, muito surpreendido, como se estivesse num lugar estranho, e a primeira palavra que lhe veio à boca foi uma obscenidade: — “... que os pariu! Ia-se desgraçando!... Mãos à obra! Felizmente ainda não era dia claro...”
Nenhum bote, nenhuma embarcação, ali perto, no canal, O movimento era todo na vizinhança da Alfândega, no cais dos Mineiros. Passavam escaleres de guerra: Bom-Crioulo escondia-se para não ser visto. — Diabo! diabo! Tudo por causa de um grumetezinho!...
De repente, ouviu barulho n’água — aproximou-se: era um bote de ganho.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.