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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

Nessa tarde, o jogo fervia lá dentro, e as três mulheres continuavam a grasnar, aguardando as gorjetas dos afortunados, e fazendo de vigias para avisarem aos jogadores a aproximação do sargento Carneviva, que era um duende para os soldados. Em achando banca armada, podiam os viciosos contar com os mais severos castigos, o serviço dobrado com mochila às costas em ordem de marcha e sarilho, quando não eram esfregados com surra de espada de prancha, ou de cipó de raposa.

Crapiúna estava num dos seus piores dias. Perdera já quantia tão avultada, que os parceiros procuravam, surpreendidos, atinar onde arranjara ele tanto dinheiro. Os prejuízos montavam a vinte que haviam passado, suavemente, para os bolsos do Zoião e do Cândido, nos quais Crapiúna encarava desconfiado, atribuindo a batota, em que eram useiros e vezeires, tamanha fortuna.

— O Senhor – disse-lhe Zoião, cravando-lhe, de esguelha, os grandes olhos esbugalhados – parece que está maldando de nós!

— Não estou maldando – resmungou Crapiúna – mas tanta sorte junta é de fazer a gente desconfiar...

— Pois se desconfia – avançou o Vicente, em jeitos arrogantes – o remédio é não jogar mais nós. Veja o seu Belota se queixa...

Cândido, velhaco e pouco expansivo, não falava, exasperando com um sorriso irônico, o soldado infeliz.

— Não me queixo – observou Belota – porque estou com o juízo no jogo. Você, Crapiúna, não tem razão. Estou com um olho no padre e outro na missa, e não admitiria trapaça... principalmente em minha casa.

— Nem nós seríamos capazes de abusar... – acrescentaram, quase ao mesmo tempo, os outros parceiros, com uma vasta exibição de escrúpulo.

— Vocês são capazes de tudo! – tornou Crapiúna, irritado.

— Veja como fala!

— Tenho visto o que fazem com os matutos. Comigo fia mais fino... Se eu perceber qualquer tramóia...

Foi-se azedando a discussão até falarem todos, em tumulto, trocando injúrias e doestos, apesar da intervenção conciliadora de Belota, para evitar um conflito.

Teresinha, que fechara a porta da rua para mudar de roupa, foi atraída pelo rumor e não resistiu à curiosidade de saber donde provinha. Dirigiu-se, cautelosamente, ao pequeno quintal; e, firmando os pés nas fendas dos tijolos carcomidos, guindou-se acima do muro que dava para a casa vizinha. Daí descortinou a tumultuosa cena, a fúria de Crapiúna, as ameaças dirigidos aos parceiros venturosos, às réplicas destes, cheias de malícia irônica, audaciosos, porque, aliados como estavam, não se arreceavam do insolente soldado, nem eram homens que morressem de caretas, mesmo das mais pintadas.

Chegou o momento em que esteve iminente a conflagração. Vicente, sempre calmo, sempre sorridente, considerava, que tanto direito tinha Crapiúna de desconfiar deles quanto estes; entretanto não o faziam, porque não queriam cascavilhar na vida alheia.

— Para saber – atalhou o Cândido – onde você desenterrou botija para ter tanto dinheiro para perder.

— Olhe – acrescentou Zoião – se eu quisesse falar era capaz de o desgraçar...

Crapiúna estremeceu, e levou, de repente, a destra ao cabo da faca, escondida debaixo da farda.

— Pois fale, seu miserável – bradou ele, ganindo de raiva que te hei de obrigar a morder a língua danada.

— Olha Zoião, meu amigo Crapiúna – implorava Belota, entre os dois. – Nós somos todos amigos velhos. Para que este baticum de boca... Daqui a nada ouvem lá fora... Pelo amor de Deus... Seu Candinho, você que é mais moderado tenha mão no Zoião, mais no Vicente...

— Pois então, seu Belota – ajuntou Zoião, com os olhos faiscantes - era o que faltava, um indivíduo...

— Depois digam que sou eu quem está intimando!...

— Que – continuou Zoião – não pode levantar a cabeça diante de homens de mãos limpas, querer ter voz altiva para insultar os outros!... Tenha mão nele, que é soldado como você e deve respeitar a farda...

Crapiúna rosnava, acovardado, como fera acuada, subjugado pela serenidade do adversário. Lívido, de olhar fulvo, ensangüentado, resmoneava surdas ameaças, e Zoião, com inquebrantável energia, continuava:

— Não pense que digo isto por estar em companhia e aqui na casa de

Belota... Sou homem para o senhor em toda a parte, e como quiser. Se tem Pasmado, eu tenho Pajeú, ferro de qualidade que nunca me envergonhou... Se o seu já quebrou o preceito, o meu também não está em jejum...

— Pelo amor de Deus – suplicou o Belota, com lágrimas na voz – Basta!... Basta!... Está acabado por hoje, meus amiguinhos da minh'alma... Vocês parecem crianças...

— Olha, cabra, toma a bênção ao Belota...

Depois desta ameaça, Zoião deixou-se conduzir pelo Cândido, que chofrou esta pilhéria:

— Até mais ver, seu Crapiúna, quando quiser a desforra... Damos lambuje...

Teresinha, espiando ansiosa, por cima do muro, lamentava o desenlace pacífico da contenda.

— Você sempre arma cada rascada, seu Crapiúna – observou Belota, ainda agitado.

— Aquele homem é um precipício – murmurou o soldado – Se não fosse você... Deixe estar que os desaforos não caíram no chão... — O melhor é você não fazer caso...

(continua...)

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