Por Manuel Antônio de Almeida (1852)
Com as negaças e mistérios que tinha guardado até então, José Manuel não fizera mais do que ganhar tempo para imaginar a mentira que havia de pregar: a comadre contava com isso.
Ele começou:
— Saibam vm.cês que fui um destes dias chamado a palácio...
— Ui! exclamou a comadre.
— Aí está o resultado, disse D. Maria; mas não se pagam na outra vida, é mesmo nesta.
— Resultado de quê? perguntou José Manuel surpreendido.
— De nada; continue.
José Manuel enfiou então tomando por tema aquelas primeiras palavras que lhe tinham vindo à boca, uma mentira muito sensabor, que nós poupamos aos leitores. Não foram porém satisfeitas as vistas da comadre, que queria desviar a conversa do furto da moça.
Terminada a história, José Manuel começou a instar com D. Maria para que lhe desse explicação das palavras duvidosas que há pouco havia dito a seu respeito.
A comadre, assim que viu o negócio neste pé, foi tratando de retirar-se, depois de trocar com D. Maria um olhar que queria dizer: não me comprometa.
D. Maria a princípio quis sustentar o segredo; afinal não se pôde conter, e soltou contra José Manuel uma grande alicantina, dizendo que toda a cidade estava cheia do horroroso escândalo que ele acabava de cometer roubando uma filha-família.
O homem foi às nuvens, e jurou e tresjurou que estava inocente em tudo aquilo. Nada porém lhe valeu. D. Maria foi inflexível.
Protestou de novo que se ela fosse parenta da moça o Sr. José Manuel se havia de ver em calças pardas com o negócio; e terminou por dar-lhe a entender que ele era um homem muito perigoso para ser admitido em uma casa de família.
José Manuel saiu completamente corrido e cismando em quem poderia ter sido o autor de semelhante intriga.
Quanto a D. Maria, ficou muito satisfeita, pois tendo no seu caráter um grande fundo de honestidade, julgava ter feito uma boa ação rompendo com José Manuel, que ficara com efeito, como o calculara a comadre, perdendo muito no seu conceito.
CAPÍTULO XXVII
O MESTRE-DE-REZA
Tudo que ultimamente se passara em casa de D. Maria havia posto a andar à roda a cabeça de José Manuel; conheceu que tinha ali inimigo, fosse quem fosse, pois que aquilo não passava certamente de intriga que lhe tinham armado. Restava-lhe porém saber quem seria esse inimigo; e por mais que desse voltas ao miolo não atinava com ele. Pelo gênero da intriga conheceu que a causa do que lhe faziam era seguramente a sua pretensão a respeito de Luisinha, que sem dúvida tinha sido percebida; começou a suspeitar que tinha de haver-se com um rival. Na roda que freqüentava a casa de D. Maria ninguém via que lhe parecesse poder estar nesse caso: passou-lhe muitas vezes pela lembrança o moço Leonardo; porém achava-o incapaz de se meter nessas coisas.
Assim são os velhacos!! Quantas vezes estão tocando o inimigo com as mãos, e não o vêem, e não o sentem!
Partisse porém donde partisse o golpe que o ferira, o caso é que fora dado certeiro, e a duas mãos.
D. Maria, extremosa em suas afeições, como em seus ódios, consentiria com imensa dificuldade na reabilitação de José Manuel; entretanto ele não esfriou por isso, e pôs mãos à obra. Por uma singularidade, assim como Leonardo tinha achado na comadre uma protetora à sua causa, também José Manuel achou um procurador para a sua.
Vamos já dizer aos leitores quem era o procurador de José Manuel.
Havia no tempo em que se passam estas cenas instituições muito curiosas no Rio de Janeiro; algumas eram notáveis por seu fim, outras por seus meios. Entre essas uma havia de que ainda em nossa infância tivemos ocasião de ver alguns destroços, era a instituição dos mestres-de-reza.
O mestre-de-reza era tão acatado e venerado naquele tempo como o próprio mestre de escola; além do respeito ordinariamente tributado aos preceptores, dava-se uma circunstância muito notável, e vem a ser que os mestres-de-reza eram sempre velhos e cegos. Não eram em grande número, por isso mesmo viviam portanto em grande atividade, e ganhavam sofrivelmente. Andavam pelas casas a ensinar a rezar aos filhos, crias e escravos de ambos os sexos.
O mestre-de-reza não tinha traje especial: vestia-se como todos, e só o que o distinguia era ver-se-lhe constantemente fora de um dos bolsos o cabo de uma tremenda palmatória, de que andava armado, compêndio único por onde ensinava a seus discípulos.
Assim que entravam para a lição reunia em um semicírculo diante de si todos os discípulos; puxava do bolso a tremenda férula, colocava-a no chão, encostada à cadeira onde se achava sentado, e começava o trabalho.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16987 . Acesso em: 8 mar. 2026.