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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Dizendo estas palavras, Manoel Gonçalves ganhou a besta de um salto e tomou a correr, a caminho de Goiana. - Que lhe disse eu, compadre? Observou Francisco, que chegara ao lado de fora ainda a tempo de ouvir as últimas palavras do Tunda-Cumbe. Tome suas cautelas. Aquele malvado é traiçoeiro e está avezado a tirar moças solteiras da casa de seus pais.

- Ele poderá tirar alguma das minhas filhas; mas para fazer isso será preciso que primeiro me tenha morto e bem morto. Vou acabar já com esta festa.

Fosse, porém, que os espíritos estavam muito exaltados para atenderem às prudentes considerações do foreiro, fosse que Victorino não quis desagradar àqueles que lhe honravam a casa com sua presença, o samba ferveu até o amanhecer do dia, aos estouros intermitentes do bacamarte de Saturnino, e aos gritos de – Viva S. João – soltados pelos diferentes sambistas, alguns apenas alegres, outros inteiramente entregues ao espírito vertiginoso da cana.

XV

Que razão teve Francisco para, apenas chegado da capital, ir em demanda do filho? Seria acaso para evitar que o rapaz se deixasse envolver em algum distúrbio como aconteceu? Seria para fazê-lo sair da desordem, segundo fez, no caso de já o achar colhido nas malhas dela?

A razão foi outra. Não temia Francisco os perigos do samba. Desde pequeno sentia paixão por este divertimento, de que fora ardente cultor na mocidade. Grande parte dos versos com que Lourenço deliciara os festeiros da casa de Victorino, ele os aprendera de Francisco, insigne cantador e repentista. A fama deste ultimo era tal que muitos dos matutos daquelas vizinhanças andavam espreitando a ocasião de ir Francisco ao Recife para fazerem com ele as suas viagens. É fácil a explicação deste procedimento.

Em sua companhia, as longas noites que tinham de curtir na travessa de muitas léguas de solidões quase inteiramente inabitadas, eram suavizados pelos formosos cantares do matuto. Que soberbos serões não tiveram eles, ao luar, as redes armadas debaixo das arvores, os cavalos pastando peiados em frente a pousada, a viola quebrando com seus sons deleitosos a mudez da noite, e Francisco enchendo o deserto com as inspirações de sua musa soberana e as harmonias de sua voz rica de ternura e de saudade!

Razão muito diferente teve o almocreve para procurar Lourenço.

As noticias da guerra, trazidas por ele da capital, eram de suma gravidade. Ele próprio tinha ouvido em Olinda contar-se muito caso triste. Aí soube o que projetavam os mascates e os nobres. Com seus próprios olhos testemunhou os aprestos para a guerra. Viu de perto a chama imensa que começara a incendiar a província. João da Cunha, lidas as cartas, fez-lhe varias indagações, e com ele os amigos presentes, sobre o quetinha visto e sabia. Combinadas as informações pessoais do morador com as noticias enviadas por Amador da Cunha, por André, e por outros, forçado lhe foi reconhecer que, atirado o facho da revolução aos quatro ventos, dentro em pouco prenderia fogo a vila de Goiana, para onde emissários particulares dos portugueses tinham sido adrede mandados, e na qual contavam eles parciais poderosos de meios e valorosos de animo.

Entre estes apontavam-se Antonio Coelho, sujeito de grandes espíritos; Jeronimo Paes dinheiroso marchante, não menos ardente do que o primeiro; Belchior Ferreira, rábula que, posto fosse filho da terra, bem como o meirinho Romão da Silva que dele recebia diariamente lições incendiarias, destinadas a decidir a gentalha do lugar a tomar o partido dos mercadores, fazia grandes entradas nos espíritos por falar em nome da liberdade do povo; Manoel Gaudencio, alfaiate pernóstico, patranheiro e ambicioso, que aspirava a melhorar de oficio com a descida dos nobres e a subida dos negociantes.

O principio, ou antes os interesses contrários aos que estes sujeitos, e outros de idênticos sentimentos e intuitos, sustentavam eram representados pelos cavalheiros que já apontamos, isto é, pelos senhores-de-engenho e pelas primeiras autoridades, assim civis, como militares da localidade.

Só uma vista curta não verá na guerra dos mascates, antes uma luta travada por dois grandes princípios, do que uma revolta filha de preconceitos ridículos e costumes atrasados. Certo concorreram não pouco para essa luta o costume e o capricho antigo, inflexíveis ambos; mas o seu papel nessa grande representação foi mais secundário do que principal. A parte essencial e verdadeiramente dramática da ação, essa pertencia a dois grandes interesses, assim das sociedades modernas, como das antigas – ao comercio e a agricultura, princípios que, quando acordes em seu desenvolvimento, trazem a properidade e riqueza dos povos, e, quando divergentes, o seu atraso senão o seu aniquilamento.

As cartas de que Francisco foi portador, em substancia rezavam:

Que a guerra, declarada pelos forasteiros contra os pernambucanos e o governo legal, e já em principio de execução, prometia ser de vida e morte, atentos os meios de que dispunham aqueles, e o empenho em que se mostravam de aniquilar estes;

(continua...)

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