Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
— Eu não disse que o queria; apenas perguntei o que pretendias fazer : não te aconselho a que te deixes corromper e te des-moralises, mas também se te visse já enfeitado com uma certa perfídia e desmoralisação elegante, que tanto aproveitão aos grandes e poderosos da terra, não trataria de corrigir-te, porque vejo que é com esses enfeites que melhor se arranja a vida e se passa bem no mundo.
— E meu padrinho pratica também assim ?...
— Eu não, mas eu já não sou desse mundo ; ou mesmo quem sabe se as minhas repetidas gargalhadas não são uma espessa mascara com que escondo o pezar de mil decepções e desenganos ?... Está dito :. eu também represento o meu papel de Democrito.
— Ah!
— Mas ainda ha pouco disseste uma grande asneira perguntando-me se eu queria que te desfigurasses com a mentira : as mentiras do bom tom não desilgurão, esmaltão, e era possivel que te quizesses esmaltar com algumas dessas mentiras aos olhos da família do meu amigo Fagundes.
— Por exemplo...
— Por exemplo, podias querer passar por fidalgo, e em tal caso inventarias dez historias a respeito da sublime procedência de teus avós : para um moço que deseja recommendar-se á sua noiva e aos pais della, isso não era de todo novo nem mal pensado. Actual-mente, a fidalguia vai creando azas e tomando uns ares que fazem medo; o que vale é que os nossos fidalgos arranjão-se ás duzias e apresentão-se tão caricatos que fazem rir. Podias também, e isso era mais importante ainda, querer passar por herdeiro futuro de uma riqueza colossal, dizendo em tal caso que tua mãi possue dez fazendas em vez de uma só : em questão de casamento uma mentira deste gênero esmalta admiravelmente um noivo e impressiona de um modo indizivel os pais da moça.
— E depois?...
— Depois de arranjado o negocio, os illudidos que engulírão a pílula, calão-se porque se se animassem a fallar e protestar...
— Que aconteceria?...
— O mundo rirse-hia delles, e eu, mais que todos, soltaria enormes gargalhadas.
— Pois eu nunca me servirei da mentira nem da perlidia para alcançar o que
desejo.
— Farás bem e farás mal ; alcançarás uma coroa no reino do céo, mas has de levar muita pateada nos reinos da terra.
— Então a virtude já fugio espantada e corrida deste mundo ?...
— Não : ainda se sustenta nelle, resistindo ao triste espectaculo da prepotência, do patronato, da traição, da infidelidade, e do vicio, que muitas vezes campeião triumphantes; ainda resiste e
resistirá sempre, e é por isso que é virtude.
— Ainda bem ! meu padrinho já acredita em alguma cousa!
— Pois eu deixei algum dia de crer na vir tude, na honestidade e na honra ?... O que eu digo é que, sendo poucos os virtuosos, ando sempre a rir e sempre desconfiado, ao ver a multidão de gente que anda a toda hora impondo de virtuosa.
Geraldo e Innocencio chegarão nesse momento ao portão da chácara de Fagundes, e dahi a pouco baterão palmas á porta, e o primeiro exclamou:
_ Licença para um padrinho que traz comsigo o seu afilhado !
É inutil dizer que Geraldo e Innocencio fôrão recebidos com a maior alegria.
— O Sr. Innocencio não precisava de apreentação, disse Fagundes, é já nosso amigo e deve-nos muita estima.
— Mas folgamos bastante por saber que é seu afilhado, accrescentou Carlota, a mãi de Christina.
— E além de afilhado, parente, disse Geraldo.
— Parente chegado?... perguntou com interesse a boa mãi da menina.
— Não ; tenho outros mais próximos, respondeu Geraldo, desatando a rir.
Bem depressa a conversação tornou-se geral, sendo Innocencio objecto de extraordinarios elogios da parte de Fagundes e de Carlota.
Quem menos fallava era Christina.
O rosto desta moça era regular e bonito; attrahia porém a attenção ainda mais por uma certa expressão de suave melancolia do que pela suabelleza; seus olhos principalmente, seus olhos negros ehumidos, erão cheios de um languor que captivava ; sua voz parecia um canto harmonioso, cada um de seus sorrisos um triumpho de amor : a graça morava nos labios de Christina.
Innocencio devorava cora olhos ardentes a sua encantadora amada.
Fagundes e Carlota conversavão cora Geraldo de modo a deixar ao mancebo tempo e occasião de sobra para fallar era liberdade a Christina.
Mas os dous namorados entendião-se ainda mais com os olhos e cora os suspiros do que com a palavra.
— Canta alguma cousa, disse emfim Carlota a Christina.
A moça fez-se rogar um pouco, e acabou por levantar-se, sendo acompanhada por Innocencio ao piano.
— Permitte que eu tenha a honra de acompanhar o seu canto?... perguntou o mancebo.
— Com muito prazer, disse corando e tremendo a moça.
Escolhião a musica... folheavão-se os livros... os dedos côr de rosa de Christina encontravão-se com os de Innocencio, e ao doce contacto ambos sorrirão.
Emfim Christina preferio entre outras a aria de Eleonorado Torquato Tasso, e cantou-a com sentimento e paixão.
Acabado o canto, os dous namorados ficarão conversando junto do piano.
— Gosta muito d’aquella musica, minha senhora ?..-
— O mais que é possivel.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.