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#Romances#Literatura Brasileira

Helena

Por Machado de Assis (1876)

Esta observação filosófica do coronel-major não teve nenhum efeito. Melchior, que a reprovara interiormente, fez mudar a conversa, informando-se da família de Camargo. Estácio deu todas as notícias que podiam interessar; depois, falou de alguns incidentes da viagem; enfim, retirou-se por alguns minutos.

Mendonça acompanhou o amigo, alcançando-o ainda na escada. Subiram juntos e juntos entraram no quarto.

Agora que estamos sós, perguntou Mendonça, houve por lá alguma coisa?

Nada.

Tanto melhor!

Um escravo entrou no quarto, a fim de servir a Estácio; Mendonça, ansioso por lhe falar de Helena, contentou-se com trocar algumas vagas indicações.

Recebeste a minha carta? disse ele.

Recebi.

Não esperavas por ela, aposto..

Não.

Como eu não esperava escrevê-la. Estás aborrecido?

Estou cansado.

Naturalmente, assentiu Mendonça, abrindo um livro que achou sobre a mesa e tornando-o a fechar.

O silêncio prolongou-se alguns minutos, durante os quais Mendonça tornou a abrir o livro, examinou uma espingarda de caça, preparou um cigarro e fumou. O escravo ajudava o senhor a mudar de roupa. Estácio continuava mortalmente calado; Mendonça falou algumas vezes, sobre coisas indiferentes, e o tempo não correu, andou com a lentidão que lhe é natural, quando trata com impacientes. Logo que Estácio se deu por pronto, e o escravo saiu, Mendonça voltou diretamente ao assunto que o preocupava.

Estava ansioso por ver-te, disse ele. Não nos é possível falar agora; não temos tempo. Mas quero dar-te um abraço, ao menos, um abraço de agradecimento pela felicidade...

Parece que só esperavas a minha ausência?

Creio que não. Já antes de seguires, começava a sentir alguma coisa nova, que vim a descobrir ser paixão violenta.

Helena ama-te?

Com igual amor, não creio; mas aceita-me; tem-me algum afeto.

Tratarei de consultá-la.

Mendonça não pôde continuar, porque Estácio descia a escada ao dar-lhe a última resposta. Mendonça desceu também. Na sala estavam ainda as mesmas pessoas. Perto de uma janela conversava Helena com o padre. O chá foi logo servido e a conversa tornou-se geral, ainda que sem grande animação. Melchior falou menos que todos.

Nem por isso foi o primeiro que saiu; foi o último. Na chácara, dirigindo-se ao portão, ergueu os olhos ao firmamento, não para ver a lua e as estrelas, senão para subir a região mais alta. O que disse ninguém o soube, mas o anjo das rogativas humanas porventura colheu em seu regaço os pensamentos do ancião, e os levou aos pés do eterno e casto amor.

CAPÍTULO XVIII

Helena, disse Estácio no dia seguinte, logo que pôde falar a sós à irmã, — sabes por que vim mais depressa? Foi por tua causa. O Mendonça escreveu-me dizendo haver alcançado de ti uma promessa de casamento.

É verdade.

É verdade?

Até ao ponto em que a minha vontade tem um limite, que é a sua. Por mim só nada posso decidir; mas não creio que você se oponha de nenhum modo. Não é certo que deseja a minha felicidade?

Estavam sentados em um banco de pau, defronte ao grande tanque. Estácio ficou algum tempo a olhar para a água.

Não entendo, disse ele enfim.

Por quê?

Mais de uma vez me confessaste não sei que paixão violenta, paixão que parecia conter a tua vida toda. Que, sem embargo de um amor único e forte, uma mulher despose um homem que não é o preferido de seu coração, é caso não vulgar e muita vez justificável. Mas que este casamento seja para ela felicidade, confesso que não o poderei entender nunca.

Recusa então o seu consentimento?

Não recuso; desejo compreender.

Nada mais simples, retorquiu a moça.

Ah!

Falei-lhe de um amor forte, é certo, não extinto naquele tempo, mas totalmente sem esperança. Que moça não tem dessas fantasias, uma vez ao menos? A fantasia passou. Ou eu não devo casar nunca, ou posso desposar um homem digno, que me ame. Não casar foi algum tempo o meu desejo; não o é hoje, desde que você, titia e o Padre Melchior ambicionam ver- me casada e feliz. Para obter a felicidade, além do casamento, escolhi pessoa que me parece capaz de dar a paz doméstica e os melhores afetos de seu coração.

De maneira que te sacrificas a um desejo nosso?

Quando fosse sacrifício, fá-lo-ia de boa cara; mas não é.

Não se trata de um sacrifício repugnante e odioso; entretanto, cumpre examinar o que perdes. Dizes que a fantasia passou; não creio, Helena, não creio que ela passasse. Tu amas decerto; amas violentamente alguém; amas sem esperança nem futuro; isto é, levas para casa de teu marido um coração que te não pertence, um sentimento intruso e inimigo...

Helena quis interrompê-lo.

Ouve, continuou Estácio. Esse sentimento, se vier a extinguir-se e se for substituído pela afeição que criares a teu marido, não te fará desventurosa; mas supõe que não morre esse amor, qual será a tua situação?

Tudo isso é um castelo no ar, disse Helena sorrindo; eu amei, não amo; ou amo somente a meu futuro marido.

(continua...)

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