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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Vós, mancebos, não sabeis nada disto! houve no entanto um tempo, uma época como outra não haverá nunca mais para esta cidade. Eu era tão moço como vós, e vi e gozei tudo isso; havia paz e ventura para todos, e cada noite era uma noite de festa. Os moços saíam tocando e cantando pelas ruas suas músicas suaves; as famílias reuniam-se em uma só família para gozar prazeres inocentes; dormia-se com as portas abertas, e nunca um malfeitor entrava por elas... Tudo porém acabou, e este mesmo lugar, onde tão belas horas se passavam, já talvez nem delas lembrarse pode, porque enfim tudo está mudado... vossa civilização matou tudo isso!

Ninguém respondeu.

– Vistes, continuou Anacleto depois de curto silêncio, vistes aquela rua que vem direito ao portão deste passeio?... vós hoje chamais – das Marrecas – e nós chamávamos então – das Belas-noites: – compreendeis o que significava este nome?... era a demonstração viva do prazer, da felicidade que fruía a multidão imensa de ambos os sexos, que passava por essa rua para entregar-se a gozos puros aqui. Sobre estas grandes mesas, junto de uma das quais estamos, ceavam famílias a quem os laços de amizade ligavam, e nas quais havia às vezes um mancebo e uma moça que não tarde se ligariam por outros laços mais doces ainda. Oh! quantas vezes debaixo deste caramanchel, ou em um passeio, ali por aquelas ruas sombrias e solitárias, não teve origem um terno sentimento, que foi logo depois fazer a felicidade de duas criaturas!...

Uma leve onda de rubor passou ligeira por sobre as faces de Celina, ao mesmo tempo que Cândido se fez mais pálido ainda.

Irias, até então distraída, começava a observá-los, fitando ora na moça, ora no mancebo seus olhos verdes.

Anacleto prosseguiu:

– Que é feito daqueles nossos dois pavilhões quadrangulares com sua estátua de Apolo coroando o do lado direito, e com a de Mercúrio o do esquerdo?... vossos dois torreões octogonais poderão fazê-los esquecer?... desconfio muito que não; pelo menos eu me hei de lembrar sempre do pavilhão da direita com seu teto de arabescos, palmas e flores sobre fundo branco, todos formados de diversas cores; com suas sobreportas de baixos-relevos de pássaros de nossa terra, feitos à custa de suas próprias penas. Pelo menos eu me hei de lembrar sempre do pavilhão da esquerda com seu teto de arabescos, palmas e flores sobre fundo azul, todos formados, não já de penas, como o outro, mas de lindas conchinhas, com suas sobreportas ornadas de relevos de peixes de nossos mares, feitos à custa de suas próprias peles; tudo isso era belo, era bem acabado, era obra de gênio; mas tudo isto está morto e morto ficará, porque vós não tendes para ressuscitar tantas belezas o homem que nós tínhamos, o nosso –Xavier dos pássaros. – Sim! sim!... tudo está mudado. Mudou mesmo a índole, mudaram os hábitos, e é outro hoje e espírito da população.

– É verdade! disse ainda a velha Irias; mas tendo sempre os olhos fitos ora em Cândido, ora em Celina.

– E nós, que isso sentíamos, que por tudo isso passamos, sofremos agora ao visitar estes lugares, onde tanto gozamos, uma melancolia profunda, uma saudade imensa do nosso passado e ao mesmo tempo uma dor aguda e terrível, quando pensamos que os prazeres, as belas festas, os jardins, e os edifícios têm todos mudado de face, todos caídos, todos enfim morrido, que daquela época nós e poucos mais restamos, e que quando também morrermos só teremos do nosso tempo algumas folhas de árvores seculares, para cair sobre a tumba que nos cobrir.

Ficaram de novo todos quatro em silêncio por algum tempo, e ainda tristemente, até que Anacleto de novo falou.

– Mas vós também estais tristes, e todavia vossa tristeza em nada se pode parecer com a nossa! o que vos acanha, meus filhos?... não podeis chorar o que nós choramos, porque não bebestes na taça de nossos gozos: chorais sobre o presente porventura?... porém, meus filhos, não sentis que o futuro se está sorrindo sempre para a mocidade?...

– Às vezes não, disse o mancebo falando pela primeira vez.

– Ás vezes não?! tornou Anacleto. Sim; ele tem razão: às vezes parece que o homem traz de dentro do ventre materno a sina de sofrer sempre, de sempre chorar, e não rir nunca nem uma só vez na vida! Mas será crivel que o senhor pertença ao número desses homens desgraçados?...

– Pertenço, sr. Anacleto, respondeu Cândido, pertenço a número daqueles que sofrem... e calam.

Anacleto olhou com interesse para o mancebo, e não julgando a propósito encetar uma conversação sobre tal assunto naquele lugar, disse pouco depois:

– Meus filhos, passeai... se amais a multidão, lá está terraço cheio de povo; se preferis o silêncio, tendes as alamedas sombrias... ide...

– E vós, meu avô?... perguntou Celina.

– Eu fico. Tenho muito de que falar à sra. Irias. Somos dois velhos que estamos voltados para o passado; ide vós, pois, que tendes o rosto para o porvir.

– Oh! não, tornou a moça; nós queremos ficar e ouvir-vos... preferimos isso...

(continua...)

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