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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

—Uma rede de retrós, que os contem.

—No meu peito?

—Um amor-perfeito.

—Nas minhas orelhas?...

—Nada; não traz brincos.

—É estupendo!

—Assim o penso.

—Por que não conserva fixada a sua luneta?

—Porque além de três minutos de fixidade eu veria mais do que devo e quero ver.

—O mal?

—Não; o bem.

—Ora! experimente em mim.

—De modo nenhum: o mágico me aconselhou que o não fizesse. —Eu lho peço. —Deus me livre de obedecer-lhe, Anica.

—Empresta-me a sua luneta por cinco minutos?

—Sem dúvida.

Passei a luneta à prima Anica, que apenas fixou-a, exclamou, retirando-a:

—Ah!... nada posso ver... e que peso sobre os olhos... que fogo . . . —É efeito da magia...

—Quando eu digo que há mágicos de Deus, e mágicos do diabo não querem me acreditar!... observou a tia Domingas.

—Ora pois, mano Simplício, disse meu irmão; conserve cuidadoso a sua boa luneta...

—Olhe-me com ela! tornou a prima Anica.

Fiz-lhe a vontade, olhei-a por dois minutos.

—Como me acha?

—Lindos cabelos, e rosto a que um sinalzinho azul na face esquerda dá tal encanto...

Anica interrompeu-me desatando a rir; mas com evidente satisfação da sua vaidade de moça.

Eu estava como assombrado.

Que mudança de idéias e de prevenções, e de apreciações relativamente à luneta mágica!

Quem pudera dizer aos meus parentes que a minha nova luneta não era como a outra, e que em vez da visão do mal, continha o poder da visão do bem?

Como isto aconteceu não sei; mas aconteceu.

Evidentemente eu não tinha perseguição, nem perigos a recear.

O armênio salvara-me.

O armênio é verdadeiro mágico.

II

Acabado o almoço, e depois de abraçado e ardentemente felicitado pelos meus três parentes, de quem ainda continuava a desconfiar muito, voltei ao meu quarto com a alma repleta de consolação, de alegria, e de entusiasmo.

Creio que entrei no meu quarto, saltando jubiloso, como um candidato da oposição que se vê eleito deputado depois de uma dissolução da câmara temporária, ou como um mancebo namorado que após resistências cruéis da família da amada, recebe a decisão ditosa, que lhe dá as glórias de noivo.

Beijei mil vezes a minha luneta mágica e mil vezes jurei que seria acautelado e prudente, que me contentaria com a visão das aparências e que nunca iria além de três minutos procurar a visão do bem.

Entretanto a visão do bem era uma coisa que não podia fazer mal! . . .

Esta idéia já havia entrado por mais de uma vez no meu espírito: ver o bem! eu tinha sofrido tanto, vendo em tudo, em todos, e por toda parte o mal, que ver o bem poderia ser uma agradável compensação, uma profunda consolação para mim...

Mas eu jurara a mim mesmo obedecer fielmente aos conselhos do armênio, e portanto venci, esmaguei o meu desejo de ver o bem.

Hei de, protesto que hei de contentar-me com a visão das aparências: é duro, é triste o privar-me da visão do bem; não a quero porém; juro que não me exporei a essa visão que o armênio reputa inconveniente.

A visão do bem deve ser deliciosa! mas não a quero; não sou criança louca; sou homem de juízo, e de força de vontade: não quero, não terei a visão do bem.

III

Lembrou-me o meu amigo Reis.

O Reis! tenho pena dele.

A incredulidade do meu amigo Reis é mais do que pertinácia no erro, é um atentado contra os direitos do publico que por ela se vê privado de instrumentos óticos temperados pela magia do armênio, e que podem vulgarizar maravilhas.

O meu amigo Reis é incrédulo; eu porém não sou egoísta, não quero para mim só os milagres que o armênio é capaz de realizar.

Conscienciosamente entendo que em proveito de todos devo atraiçoar o meu amigo Reis, publicando o que sei e o que obtive do armênio, e o que o armênio é capaz de dar, enriquecendo, sublimizando, tornando mágicas as oficinas, que alimentam o armazém do Reis.

Que me cumpre fazer? É claro: vou redigir uma noticia do que obtive e consegui das oficinas do Reis, vou denunciar a existência do armênio, e a sua extraordinária habilidade em magia, vou obrigar, forçar o meu amigo Reis a satisfazer aos seus fregueses, tornando público o que o armênio se declara pronto a realizar em matéria de instrumentos óticos encantados ou mágicos. É um serviço que devo prestar ao meu país e ao mundo.

Entusiasmado fixei a luneta, tomei a pena e comecei logo a escrever:

NOTÍCIA IMPORTANTE

"O abaixo-assinado, possuidor de uma nova e não menos admirável luneta magica que, por grande favor obteve do Sr. J. M. dos Reis, em cujas oficinas na casa de instrumentos físicos etc., a Rua do Hospício n.º 71 trabalha um armênio que é profundamente amestrado em magia, julga do seu dever publicar um segredo que não convém ser por mais tempo guardado.

'O Sr. J. M. dos Reis, teimando em não acreditar na magia, nega-se a aproveitar-se dos oferecimentos do armênio prejudicando assim os seus interesses e os do público.

(continua...)

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