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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

Dão-se nesta terra todas as frutas de espinho que tem Espanha, às quais a formiga não faz nojo, nem a outra coisa, por se não criar na terra como nas outras capitanias; dão-se nestas capitanias uvas, figos, romãs, maçãs e marmelos, em muita quantidade, e os moradores da vila de São Paulo têm já muitas vinhas; e há homens nela que colhem já duas pipas de vinho por ano, e por causa das plantas é muito verde, e para se não avinagrar lhe dão uma fervura no fogo; e também há já nesta terra algumas oliveiras, que dão fruto, e muitas rosas, e os marmelos são tantos que os fazem de conserva, e tanta marmelada que a levam a vender por as outras capitanias. E não há dúvida se não que há nestas capitanias outra fruta melhor que é a prata, o que se não acaba de descobrir, por não ir à terra quem a saiba tirar das minas e fundir.

C A P Í T U L O LXIII

Que trata de quem são os guaianases e de seus costumes.

Já fica dito como os tamoios são fronteiros de outro gentio, que se chamam os guaianases, os quais têm sua demarcação ao longo da costa por Angra dos Reis, e daí até o rio de Cananéia, onde ficam vizinhando com outra casta de gentios, que se chama os carijós. Estes guaianases têm contínuamente guerra com os tamoios, de uma banda, e com os carijós da outra, e matam-se uns aos outros cruelmente; não são os guaianases maliciosos, nem refalsados, antes simples e bem acondicionados, e facílimos de crer em qualquer coisa. É gente de pouco trabalho, muito molar, não usam entre si lavoura, vivem de caça que matam e peixe que tomam nos rios, e das frutas silvestres que o mato dá; são grandes flecheiros e inimigos de carne humana. Não matam aos que cativam, mas aceitam-nos por seus escravos; se encontram com gente branca, não fazem nenhum dano, antes boa companhia, e quem acerta de ter um escravo guaianás não espera dêle nenhum serviço, porque é gente folgazã de natureza e não sabe trabalhar. Não costuma este gentio fazer guerra a seus contrários, fora dos seus limites, nem os vão buscar nas suas vivendas, porque não sabem pelejar entre o mato, senão no campo aonde vivem, e se defendem com seus arcos e flechas dos tamoios, quando lhe vêm fazer guerra, com quem pelejam no campo mui valentemente e às flechadas, as quais sabem empregar tão bem como os seus contrários. Não vive este gentio em aldeias com casas arrumadas, como os tamoios seus vizinhos, mas em covas pelo campo, debaixo do chão, onde têm fogo de noite e de dia e fazem suas camas de rama e peles de alimárias que matam. A linguagem deste gentio é diferente da de seus vizinhos, mas entendem-se com os carijós; são na cor e proporção do corpo como os tamoios, e têm muitas gentilidades, como o mais gentio da costa.

C A P Í T U L O LXIV

Em que se declara a costa do rio de Santo Amaro até a Cananéia.

Atrás fica dito como se divide a capitania de São Vicente da de Santo Amaro pelo esteiro de Santos, e como a vila de Santo Amaro é cabeça desta capitania, da qual o rio da Cananéia são vinte e cinco léguas ou trinta, antes da qual se acaba a capitania de Santo Amaro, e corre-se esta costa de Santo Amaro até a Cananéia nordeste-sudoeste, e toma da quarta do leste-oeste, a qual terra é toda boa para se poder aproveitar, e tem muitos riachos, que se vêm meter no mar, entre os quais é um que está onze léguas, antes que cheguem a Cananéia, a qual faz na boca uma enseada, que tem uma ilha junto ao rio, que se diz a ilha Branca. Este rio da Cananéia está vinte e cinco graus e meio, no qual rio entram navios da costa, e se navega por êle acima algumas léguas, e é muito capaz para se poder povoar, e para se fazer muita conta dele, por ser mui abastado de pescado e marisco, e por ter muita caça, cuja terra é muito fértil, na qual se dão muitos mantimentos dos naturais, e se dará tudo o que lhe plantam, toda a criação de gado que lhe lançarem, por ter grande cômodo para isso. Tem o rio da Cananéia na boca uma abra grande, no meio da qual, bem defronte do rio, tem uma ilha, e nesta abra está grande porto e abrigada para os navios, onde podem estar seguras naus de todo o porte, porque tem fundo para isso.

C A P Í T U L O LXV

Em que se declara a costa da Cananéia até o rio de São Francisco.

Do rio da Cananéia até o cabo do Padrão são cinco léguas, junto do qual está uma ilheta chegada à terra e chama-se este cabo do Padrão, por aqui se assentar um pelos primeiros descobridores desta costa. Do cabo do Padrão ao rio de Santo Antônio são oito léguas, o qual está em vinte graus esforçados e dois terços.

Neste rio entram barcos da costa à vontade. Do rio de Santo Antônio ao Alagado são cinco léguas, e entre um e outra está uma ilheta chegada à terra.

(continua...)

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