Por Lima Barreto (1922)
Todos os vates de lá, em geral, são incapazes de comparação, de critica e impróprios para a menor reflexão mais detida, e, com a sua mentalidade de parvenus aperuados, estão sempre dispostos a bajular os titulares ou os apatacados burgueses, para terem o prazer de ver mais perto as suas mulheres e filhas, pois se persuadiram que são elas feitas de outra substância diferente daquela que forma as cozinheiras e os pequenos burgueses.
Tão tolos são eles que não se lembram que tais marqueses e mais barões da sua terra são de origem tão humilde e tão vexatória em face do critério nobiliárquico que os próprios portadores de tais títulos fidalgos ocultam o mais que podem a sua ascendência. Mas é preciso voltar ao nosso Visconde de Pancome.
A custa de todas essas vociferações, o povo não permitia que ninguém lhe tocasse na reputação e ficou convencido de que o homem era mesmo um demiurgo e consubstanciou a sua admiração ingênua nesta fórmula simples: "é um bruzundanguense conhecido na Europa".
Porque a mania daquele povo é querer à força que o seu país e os seus homens sejam conhecidos no estrangeiro, embora ele não possua uma atividade, de qualquer natureza, nem mesmo um homem notável que possa atrair a curiosidade dos estranhos sobre a região e as suas coisas.
De modo que, qualquer referência a ele ou a um natural dele, se ela é favorável e elogiosa, logo alvorota o povo da Bruzundanga, que fica crente de que em todas as aldeias de países afastados não se fala em outra cousa senão na sua nação.
Quando, porém, se diz lá fora que, na sua população, há milhões de javaneses e mestiços deles (o que é verdade), imediatamente todos se aborrecem, zangam-se, lançando tristemente o labéu de vergonha sobre os seus compatriotas de tal extração.
É uma tolice deles (aí entram também muitos javaneses), pois tanto os de origem javanesa como os de outras raízes raciais têm dado inteligências e atividades que se eqüivalem. Não há este de tal procedência que sobrepuje aquele de outra procedência, nem mesmo na quantidade; os de uma origem não sobrelevam os de outra, isto dura há três séculos e poucos; e, pode-se dizer, que é uma prova perfeitamente experimental, obtida no laboratório da história. Tão bom como tão bom...
Com tal mania, não é de admirar que, de uma hora para outra, Pancome ficasse sendo o ídolo da Bruzundanga; e o governo, para premiá-lo e satisfazer a opinião pública, apressou-se em nomeá-lo embaixador junto ao governo de uma potência européia, e foi (lembro-me agora) quando embaixador, que obteve as condecorações a que aludi em capítulo anterior.
E de tal forma a população do país se convenceu da imensa inteligência, das geniais vistas do visconde, de que ele era admirado no mundo inteiro, e de que, também todos os sábios do Universo respeitavam-no religiosamente, que ao chegar ele da estranja para assumir a pasta do Exterior, toda ela correu em massa para a rua, quase lhe desatrelam, os mais entusiastas, os cavalos do carro, aclamando-o freneticamente pelas ruas em que passou, como se recebesse a cidade Júlio César vitorioso ou descartes, caso a natureza da glória deste se compadecesse com admirações irrefletidas.
Além daquelas medidas que citei em um dos capítulos passados, logo no início do seu ministério, tomou o visconde estas primordiais; usar pape! de linho nos ofícios, estabelecer uma cozinha na sua secretaria e baixar uma portaria, determinando que os seus funcionários engraxassem as botas todos os dias. Na cozinha, porém, é que estava o principal das suas reformas, pois era o seu fraco a mesa farta, atulhada.
Em seguida, convenceu o Mandachuva que o país devia ser conhecido na Europa por meio de uma imensa comissão de propaganda e de anúncios nos jornais, cartazes nas ruas, berreiros de camelots, letreiros luminosos, nas esquinas e em outros lugares públicos.
A sua vontade foi feita; e a curiosa nação, em Paris foi muitas vezes apregoada nos boulevards como o último específico de farmácia ou como uma marca de automóveis. Contam-se até engraçadas anedotas.
Nos anúncios luminosos, então, a sua imaginação foi fértil. Houve um que ficou célebre e assim rezava: "Bruzundanga, País rico — Café, cacau e borracha. Não há pretos".
Não ficou aí. Mostrou a necessidade de uma esquadra poderosa e o Mandachuva encomendou uma custosíssima, para o serviço da qual o país não tinha marinheiros dignos, arsenais, é que pôs de alcatéia a República das Planícies. Tudo isto e mais a transformação da capital, da noite para o dia, fato a que já aludi, endividaram sobremodo o país e, com a vinda de um inepto Mandachuva, para cuja ascensão ele muito concorreu, a Bruzundanga veio a ficar na miséria.
Por essas e outras, foi Pancome proclamado o maior estadista da nação, embora a situação interna, durante o seu longo ministério (quase dez anos), piorasse sempre e cada vez mais, sem que ele apresentasse ou lembrasse medidas para remediar um tal estado de descalabro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16833 . Acesso em: 8 maio 2026.