Por Adolfo Caminha (1895)
— Sim, amigado, um pitorra daquele. É o que dizem, eu não sei.
Bom-Crioulo tomava sentido, cheio de interesse, dominando-se, abafando uma golfada de palavrões, uma onda de cólera, que estava quase a irromper-lhe da boca. Desesperava. Na tépida penumbra da enfermaria o seu olhar tomava uma expressão dolorida e úmida, como o olhar de um náufrago perdido no círculo imenso das águas. Era uma tempestade surda e impenetrável, um desabar de todas as crenças, de todas as ilusões, de todas as forças que mantém o equilíbrio de uma natureza humana em revolta...
— O Sant’Ana, esse desertou, foi-se embora, foi-se embora, ninguém sabe para onde. Também, coitado! apanhava que nem boi ladrão. Era um pobre diabo...
Trocaram ainda algumas palavras. Herculano contou episódios íntimos de bordo, muito loquaz, muito verboso; e como já fosse noite:
— Adeus, Bom-Crioulo, que eu me vou chegando. Estimo que fiques bom, hein! que fiques completamente bom. Eu lá estou, na corveta, para o que quiseres. Boa noite!
— Boa noite, murmurou o negro com uma voz triste e profunda, quase lúgubre.
Acendiam-se as estrelas no céu muito alto e de uma limpidez outonal...
Bom-Crioulo não pensou em dormir, cheio, como estava, de ódio e desespero. Ecoavam-lhe ainda no ouvido, como um dobre fúnebre, aquelas palavras de uma veracidade brutal, e de uma rudez pungente : —“Dizem até que está amigado!”
Amigado, o Aleixo! Amigado, ele que era todo seu, que lhe pertencia como o seu próprio coração: ele, que nunca lhe falara em mulheres, que dantes era tão ingênuo, tão dedicado, tão bom!... Amigar-se, viver com uma mulher, sentir o contacto de outro corpo que não o seu, deixar-se beijar, morder, nas ânsias do gozo, por outra pessoa que não ele, Bom-Crioulo!...
Agora é que tinha um desejo enorme, uma sofreguidão louca de vê-lo, rendido a seus pés, como um animalzinho; agora é que lhe renasciam ímpetos vorazes de novilho solto, incongruências de macho em cio, nostalgias de libertino fogoso... As palavras de Herculano (aquela história do grumete com uma rapariga) tinham-lhe despertado o sangue, fora como uma espécie de urtiga brava arranhando-lhe a pele, excitando-o, enfurecendo-o de desejo. Agora sim, fazia questão! E não era somente questão de possuir o grumete, de gozá-lo como outrora, lá cima, no quartinho da Rua da Misericórdia: — era questão de gozá-lo, maltratando-o, vendo-o sofrer, ouvindo-o gemer... Não, não era somente o gozo comum, a sensação ordinária, o que ele queria depois das palavras de Herculano: era o prazer brutal, doloroso, fora de todas as leis, de todas as normas... E havia de tê-lo, custasse o que custasse!
Decididamente ia realizar o seu plano de fuga essa noite, ia desertar pelo mundo à procura de Aleixo.
Inquieto, sobreexcitado, nervoso, pôs-se a meditar. O grumete aparecia-lhe com uma feição nova, transfigurado pelos excessos do amor, degenerado, sem aquele arzinho bisonho que todos lhe admiravam, o rosto áspero, crivado de espinhas, magro, sem cor, sem sangue nos lábios... Pudera! Um homem não resiste, quanto mais uma criança! Aleixo devia estar muito acabado; via-o nos braços da amante, da tal rapariga — ele novo, ela mocinha, na flor dos vinte anos —, via-o rolar em espasmos luxuriosos, grudado à mulher, sobre uma cama fresca e alva — rolar e cair extenuado, crucificado, morto de fraqueza... Depois a rapariga debruçava-se sobre ele, juntava boca à boca num grande beijo de reconhecimento.
E no dia seguinte, na noite seguinte, a mesma cousa.
Bom-Crioulo desnorteava. Inconscientemente era arrastado para um mundo de idéias vagas que não o permitiam tomar uma solução pronta, definitiva. Só uma idéia conservava-se firme e clara em seu espírito: fugir, fugir quanto antes, não esperar mais nem um segundo, romper os diques de seu isolamento e amanhecer na rua, no meio da cidade, longe do hospital, “desse hospital de merda”!
Seus cálculos não podiam falhar. Deixava uma janela aberta, pretextando calor, arrumava a trouxa...— qual trouxa! nem era preciso trouxa! — e, alta noite, descia por um cabo. As janelas que davam para os Órgãos ficavam sobre um terreno anfractuoso, espécie de ladeira bronca, meio íngreme, despenhando para umas oficinas e estaleiros que havia embaixo, na ilha. Não eram, porém, tão altas que se não pudesse, embora dificilmente, com agilidade, tentar uma escalada. E Bom-Crioulo não seria o primeiro; antes dele, outros haviam desertado por ali. Contava-se de um que rolara a montanha, sendo encontrado quase morto ao pé de uma árvore, o corpo todo cheio de pisaduras, vertendo sangue pelo nariz; veio a morrer da queda, que lhe produzira uma doença grave na espinha.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.