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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

O casarão do governo, acaçapado e informe, com o seu aspecto branco e tradicional de velho edifício português, do tempo do Sr. D. João VI, com a sua fila de janelas, alinhadas à maneira de hospital, espiando para a praça do General Tibúrcio, parecia dormir um sono bom de sesta, batido pelo sol, na mudez solene de um monumento arqueológico. Tinha dado meio-dia na Sé; ainda vibrava no espaço iluminado e azul a última nota das cornetas.

Àquela hora o estudante acabara de almoçar com o presidente, e, pernas cruzadas, reclinado numa cadeira de balanço, deliciava-se a fumar tranqüilo o seu havana, mais o José Pereira, na larga sala de recepção do palácio. De repente:

— A Matraca a 40 réis! O namoro do Trilho de Ferro! O Estudante e a Normalista! Grande Escândalo!

Um menino passava gritando a todo o pulmão numa voz fina de adolescente, as notícias da folha domingueira.

Zuza, com o rosto afogueado pelo Bordeaux que tomara ao almoço, estremeceu na cadeira.

— Hein?

O vendedor de jornais repetia a lengalenga lá fora, na praça. Então o estudante fulo de raiva, sacudindo fora o resto do charuto, levantou-se e foi direito à janela.

— Psiu! Psiu! Ó menino da Matraca!

— Eu?

— Sim, você mesmo!

Enquanto se esfrega um olho os dois encontraram-se embaixo, na porta do palácio.

— Que está você a gritar, seu patife? perguntou Zuza segurando o vendedor pelas orelhas.

— Nada, seu doutô; é o Namoro do Trilho.

— Você ainda repete, seu grandíssimo corno!

E, depois de encher o pequeno de petelecos, o futuro bacharel tomou-lhe todos os exemplares da Matraca rasgando-os imediatamente.

O outro abriu a goela a chorar encostando-se à parede, com a cabeça entre os braços.

— E puxe! continuou o Zuza implacável, com o seu olhar de míope. Vá, vá, vá, e diga ao dono desta imundície que eu ainda lhe quebro a cara a bengaladas, hein! Vá, vá, vá...

O pequeno não teve outro jeito senão ir-se arrastando pela parede, muito triste, resmungando, protestando nunca mais vender a Matraca, enquanto o Zuza explicava o caso ao José Pereira e ao presidente, que o receberam com uma explosão de risos.

O caso não era para rir, dizia ele formalizado, limpando os óculos com a ponta do lenço de seda. O caso não era para rir, que diabo! Ainda havia de quebrar a cara do redator da Matraca. Aquilo excedia as raias do decoro e do respeito que se deve ter à sociedade. Que essa! Não era nenhum filho da mãe que estivesse a servir de judas a Deus e ao mundo. Era assim que resolvia questões de dignidade pessoal — à bengala!

— Mas vem cá, ó Zuza, disse amigavelmente o fidalgo paulista; tu perdes o tempo e o latim com semelhante gente...

— Eu já o aconselhei, interrompeu José Pereira. O desprezo é a arma dos fortes.

— Qual desprezo, homem! O desprezo é a arma dos covardes. Eu cá resolvo as coisas positivamente a bengaladas.

— Quantas já deste no redator da Matraca? perguntou José Pereira para confundir o Zuza.

— Não dei nenhuma ainda, mas pretendo, antes de me ir embora, quebrar-lhe os queixos, sabe você?

O presidente para não provocar mais a bílis do Zuza perguntou, a propósito de jornais que se ocupavam da vida alheia, se tinham lido o Pedro II, e a conversa descambou para o terreno árido da política local.

— Que diz o papelucho? perguntou o fidalgo de dentro dos seus grandes colarinhos lustrosos.

— A mesma coisa de todos os dias, respondeu José Pereira com um gesto de desprezo. Que você é um péssimo presidente, que você gosta de tomar champanha e, finalmente, que você “vai encaminhando as coisas públicas para um abismo”.

— Ora, suportem-se umas coisas destas! saltou o Zuza. Eis aí: é ou não para se dar o cavaco?

— Mas, Zuza, eu vou respondendo a cada artigo com a demissão de dez funcionários amigos da oposição.

Queres ver uma coisa?... Que dia é hoje?...

— Domingo...

— Pois bem, vou mandar lavrar a demissão de alguns empregados públicos que se dizem miúdos, com a data de hoje. Eis aí está como se resolvem questões desta ordem. Insultam-me, não é assim? injuriam-me, acham que sou mau, que não tenho juízo, que sou indiferente à sorte do Ceará... Pois bem, hoje mesmo muita gente vai pagar pelos diretores do tal partido. Nada mais simples, não achas?

Ante a resolução pronta e decisiva do presidente o Zuza ficou perplexo. Decididamente era um grande homem aquele!

— Mas olha que vais reduzir à miséria muitas famílias...

O presidente teve um sorriso de suprema indiferença àquelas palavras do estudante e dirigiu-se para a secretaria com o passo firme de quem caminha para uma ação nobre com o seu belo porte de diplomata.

Zuza pretextou uma forte enxaqueca e abalou, a pensar no vendedor da

Matraca. Tinha feito mal em esbofetear o rapazinho, porque afinal de contas o pequeno estava inocente, nada tinha que ver com os desaforos publicados. Era um simples vendedor, coitado.

Enfiou pela rua da Assembléia macambúzio, com um ar indolente, chapéu derreado para trás, riscando o chão com a bengala, muito distraído.

“— Que diabo! A gente sempre faz asneiras...”

(continua...)

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