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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Ordinariamente, ao cair da tarde, reuniam-se ali, em torno do chefe maçônico, o Regalado, o professor Aníbal, o Pedro Guimarães e o Chico Ferreira, o alfaiate, sempre distraído, assoviando por entre os dentes, e batendo a compasso sobre a perna esquerda, com a mão espalmada e mole. Três rapazes novos, o Pedrinho Sousa, o Totônio Bernardino e o Manduquinha Barata, gozando umas férias intermináveis, aplaudiam o Fidêncio por feição, por estímulo de parecerem adiantados e ao mesmo tempo por troça, para debicar os padres e caçoar das beatas de lenço branco. O tenente Valadão, o José Antônio Pereira, o vereador João Carlos, o Neves Barriga e o Dr. Natividade não passavam os batentes da porta do Costa e Silva, por via do ateu, como diziam, mas o capitão Manuel Mendes da Fonseca, a pretexto de comprar alguma coisa que de repente lhe faltara na loja, aparecia às vezes com o seu velho paletó de alpaca, o chapéu boliviano, as calças brancas engomadas, duras e largas como crinolina. E depois de regatear muito ao colega um par de sapatos ou dois metros de canículo de cor, tomava parte na palestra, medindo as frases, escolhendo os termos, refletindo devagar, discutindo gravemente os assuntos que o Fidêncio propunha; sacrificando facilmente a Igreja aos ódios da maçonaria, mas, defendendo a autoridade civil, o presidente da província, o ministério, confessando, entretanto, quando o apertavam muito, que o João Alfredo era um criançola, criatura do Camaragibe, e que não estava na altura da situação. O Paranhos, sim, era um talento. O dono da casa ouvia tudo da sua cadeira junto à mesa de pinho, arriscava algumas observações, mas não gostava das ousadias do Chico Fidêncio, porque se gabava de acreditar em milagres e de ser católico, apostólico, romano. Apesar disso, era um bom amigo o Costa e Silva, e não esquecera nunca as recomendações do Filipe do Ver-o-peso, a favor do professor. Por isso, gozava o Fidêncio de completa liberdade na casa do Costa, onde tinha a sua continha aberta, que passava de mês para mês num crescendo perigoso.

Mas agora o Costa e Silva estava ausente. Havia uma semana que seguira para o Ramos, buscando os castanhais. Levara a família toda, a igarité bem carregada de fazendas, de aguardente, fumo, café, corais, palmas e medidas do pé de Nossa Senhora. Outros muitos se haviam retirado, e, nessa tarde, de junho, o auditório do professor se compusera exclusivamente do Pedrinho Sousa e do Manduquinha Barata, porque mesmo o Totônio Bernardino, o mais sério e o mais inteligente dos três, afrontando as iras paternas, partira para o Urubus, doidamente apaixonado pela Milu, a sobrinha do Neves Barriga. Começara aquele namoro, por brincadeira, no baile do casamento do Cazuza, e rapidamente se transformara numa paixão profunda, em que aquelas duas crianças, sem levarem em conta as conveniências de família e a vontade dos pais, arriscavam o futuro, e, em todo o caso, a tranqüilidade do coração. Pobre Totônio! O pai o queria forçar a voltar aos estudos, ambicionando fazê-lo bacharel ou padre, para glória da família, cujas posses admitiam esse luxo; e ele, vadio e namorado, preferia ficar no Amazonas, vagabundeando pelas ruas de Silves, ou descansando à sombra das árvores frondosas do sítio do Urubus, ao lado de sua adorada Emília, num idílio perpétuo. Quem venceria nessa luta de vontades entre pai e filho? O Bernardino Santana era teimoso e rude, estava acostumado a lidar com escravos, mas o Totônio era moço, livre e apaixonado. Quem venceria?

Fazia-lhe falta o Totônio Bernardino. Se ele ao menos estivesse ali! Fidêncio não gostava de falar para tão pouca gente, principalmente não tendo à sua disposição senão os ouvidos do Pedrinho e do Manduquinha, que eram mais sócios e auxiliares do que público. Muito aborrecido, Fidêncio estava com vontade de mandar chamar o Regalado para lhe comunicar uma nova importante, a fim de que a espalhasse pela vila, mas não havia ali quem o fosse procurar.

Felizmente, um homem aproximara-se a passo vagaroso e grave. Era o coletor.

Enfim! Francisco Fidêncio podia desembuchar, podia falar, podia contar o que sabia de novo, apimentando-o com os comentários do costume! O coletor tocara no boliviano, com muita cortesia.

— Boa-tarde, meus senhores. — Boa-tarde.

Vinha pedir que lhe cedessem alguns anzóis para pirarucu. Faltavam-lhe no sortimento, fora um diabo de esquecimento do seu correspondente, porque no pedido estava bem explicado - anzóis para pirarucu. Mas o Elias tinha tanto em que pensar, andava sempre tão atarefado! E como queria partir o mais depressa possível para os castanhais, a fim de aproveitar a licença que lhe viera de Manaus, não tinha tempo de mandar buscar os anzóis ao Pará, e vinha pedir ao colega que lhe cedesse alguns.

— Sempre vai aos castanhais, senhor capitão?

— Vou, senhor professor. Há muito tempo que não deixo o emprego, estou aborrecido e cansado, e a D. Cirila, coitada! quer passar o S. João nas praias. Mas a coletoria nada perde. Fica aí o José Antônio Pereira.

(continua...)

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