Por Domingos Olímpio (1903)
— E fez muito bem, sra Joaninha. Você, comparando mal, quer bem a um homem, tem confiança nele, nas suas promessas, se ele não lhe corresponde e atraiçoa, não tem mais obrigação de guardar fidelidade. Não é?... Não faltava mais que estar empatando a rapariga com outra de olho e já de casamento tratado. Iam embora juntos e, muito que bem: a Gabrina que ficasse com os beijos com que mamou ou com cara de besta...
— Pois eu – atalhou a Caiçara – só quero quem me quer. Entojou de mim?... Melhor!... Homens não faltam.
— É porque você, mulher, nunca teve paixão de fazer a gente perder noites de sono...
— Paixão é bobagem, sra Joana...
— Então você não sabe que a Gabrina queria bem ao Alexandre, calada, sem dar demonstração. Andava atrás dele bebendo ares; ficava horas esquecidas na porta do armazém da Comissão, olhando pra ele com olhos melados de piedade que parecia quererem engolir vivo o moço?...
— Histórias...
— É o que lhe digo, por esta luz. Deus dê muitos anos de vida a quem ela pediu uma oração forte, a do "Santo Amâncio te amanse", para amolgar coração de homem ingrato.
— E aquela bestalhona acredita na virtude dessas bruxarias?
— Bruxarias?!... Bata na boca, Romana, para não ser castigada. Com santo não se faz mangação.
E a Cangati entrou a contar casos assombrosos, que não conseguiram dominar o cepticismo de Romana.
— Mas – ponderou Caiçara – se ela estava mesmo caída pelo Alexandre, como é que foi contar a história do dinheiro e dos cortes de vestido dados por ele, e agora anda toda derrengada com o Crapiúna?
— Tudo por pique. Ciúme faz reinação do demônio, e torna uma pessoa boa malvada como uma cascavel. Depois ela e Crapiúna se entendem; sofrem do mesmo mal; andam os dois com o juízo entornado: ela pelo Alexandre, ele pela Luzía-Homem. Não sei como isso acabará. Talvez nalguma desgraça...
— Qual desgraça, qual nada. É uma coisa que se vê todos os dias. Desenganados, cada um vai para a sua banda cuidar em outra coisa... Amor desencontrado.
— É porque você não conhece o Crapiúna, nem a Gabrina. Ele é o que se sabe, capaz de tudo, até de mandar gente desta para melhor; ela, uma bichinha teimosa como uma mosca, e ruinzinha que faz dó. Não se me dava de jurar que ela inventou aquela história para desgraçar Alexandre... Ronha não lhe falta.
— O quê?!...
— Cala-te boca... Não está mais aqui quem falou... Façam de conta que não ouviram nada.
— Você que diz isso, sra Joana, é porque sabe alguma coisa.
— Não sei nada. É uma cisma que tenho.
— Ela não tinha astúcia para inventar uma história tão bem contada, tão cheia de circunstâncias. Se não foi do furto, quem lhe deu dinheiro para comprar um par de brincos de ouro?
— Sei lá! Não quero esmiuçar a vida dela, nem a de ninguém; mas vocês não a conhecem, repito: é capaz de dizer que Deus não é Deus e não há ninguém mais manhosa debaixo daquela sonsidão de menina!
— O quê, sra Joana; você parece que inticou com a rapariga!
— É muito arrebitada e mal-ensinada; mas eu até gosto dela...
— Olhem quem está ali – exclamou Maria Caiçara, apontando para
Teresinha, que abria a porta do quarto.
— Bons olhos a vejam – disse a Cangati, com modos amáveis. – Por isso é que a tarde está tão bonita!...
— Boas tardes – respondeu Teresinha, secamente.
— Por onde tem andado, que mal pergunto?
— Por aí mesmo... – tornou Teresinha, entrando para evitar bisbilhotices, e dar trela às três vadias, muito do seu conhecimento como catanas, que nada poupavam.
Belota mantinha tavolagem, freqüentada por parceiragem de ínfima condição e mal-afamada, Zé Zoião, Cândido da Bertolina, exímios artistas da vermelhinha, operosos contribuintes da estatística criminal e heróis de todos os distúrbios que agitavam a paz da cidade. Eles se encarregavam de atrair as vítimas: comboieiros e matutos ingênuos; e, depois, como viciosos de raça, repartiam, ao jogo, as quotas das extorsões.
Crapiúna era freqüentador assíduo, principalmente quando se jogava o monte, partida de sua predileção.
Os outros parceiros não se davam bem com ele, por ser muito rezinguento. Por qualquer pretexto, armava barulho e, muita vez, estivera a pique de fazer água suja, inconveniente aos créditos da casa.
Desde que tomara a peito quebrar o encanto de Luzia-Homem, andava-lhe a sorte arrevesada. Perseguia-o um caiporismo incessante, que o tornava ainda mais irritadiço e trêfego, principalmente quando Belota, chasqueando, insinuava que ele estava contra o sentido do rifão, sendo infeliz no jogo e no amor, e atribuía as perdas consideráveis, que ele sofria, ao fato de andar com o juízo passeando, em vez de fixá-lo nas cartas ensebadas e sujas do baralho, recurvado em forma de telha pela pressão do partir, repetindo-lhe a cada pexotada, que jogador não guarda cabras.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.