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#Romances#Literatura Brasileira

Uma Lágrima de Mulher

Por Aluísio Azevedo (1880)

Rosalina parecia já não escutar; torcia-se na cama, a ranger os dentes uns contra os outros, e retorcendo os olhos derivava olhares desencontrados.

— Rosalina! Rosalina!... Que tens!... Meu Deus! Acudam! exclamava Miguel.

— Silêncio! disse ela, tapando-lhe brandamente a boca com os dedos corde-rosa. Não faças bulha e ouve, que é necessário falar. Ainda há pouco me vedaste concluir o que te contava; ouve o resto. Dizia-te eu, que era necessário abraçar qualquer partido, porque o tempo urgia e o dia da entrega se aproximava... Pois bem, meu bom Miguel, não tive ânimo de me resolver a casar com o velho rico e...

— E... disse Miguel trêmulo de impaciência.

— Chegou a véspera do dia maldito!... Amanhã os credores tomam conta de tudo!...

— Não importa!

— Mas é... acrescentou chorando Rosalina, que eu não resisti a tamanha provação! Fui covarde!... confesso! mas eu sou mulher, perdoa!...

— Acaba!...

— Vês este copo? continuou ela, torcendo-se toda e indicando a cabeceira do leito.

— Céus!...

— Ainda há pouco estava cheio de... veneno... eu... E reclinando-se nos braços de Miguel acrescentava, espatifando as palavras: Não tenho, Miguel, de vida... mais que alguns... instantes...

Miguel quis levantar-se para chamar alguém.

— Não chames pessoa alguma!... disse ela agarrando-o com força. Isso só alcançaria fazer-me morrer desacreditada. Foi Deus que te mandou para me ajudares a morrer! Foi um bom anjo que te conduziu! Eu já contava contigo! Oh! não morria sem tu chegares! Como Deus é bom! obedece-o depois... retira-te...

Miguel forcejava contudo por erguer-se, mas desfaleciam-lhe as forças; vertigem doida acometeu-lhe de pronto a cabeça. Quis gritar, a língua apegara-selhe; quis soluçar, o pranto enovelou-se na garganta ofegante, trêmulo, com os olhos injetados de sangue, ria-se nervosamente e chorava ao mesmo tempo; as pernas negavam-lhe o já apoio, cambaleou; tentou ainda uma vez erguer-se, as pernas vergaram-se de todo e ele caiu regaço de Rosalina; queimava o olhar, fumegava o hálito! a sua respiração era um soprar doido de labaredas!

— Não chames por ninguém! disse-lhe ela com dificuldade, e carinhosamente o tomou entre os braços; depois, inclinando frouxamente a cabeça para trás, fechou devagarinho as pálpebras e murmurou sons inarticulados e trêmulos.

— Rosalina! Rosalina! vozeava o moço arrastando a língua entre soluços.

Rosalina pendeu de todo a cabeça para trás, deixou cair sem ação o braço fora do leito; e um suspiro doloroso partiu-lhe dos lábios. Ficou extática.

Miguel tinha a cabeça no colo da desfalecida e permanecia imóvel como ela; lembrando ambos tão unidos, tão mortos e tão pálidos, Pigmalião e a sua amante de mármore.

Assim decorreu uma hora de pedra: fria, pesada e estúpida.

Rosalina, por fim, impacientou-se e sorrateiramente levantando a cabeça e

desembaraçando-se dos abundantes cabelos pretos, disse quase imperceptivelmente:

— Miguel... não partes?...

Miguel não respondeu.

— Não partes? Repetiu Rosalina, levantando um pouco mais a voz.

Ainda o mesmo silêncio.

Então, como a noiva, que vai, entre desejosa e envergonhada, procurar novas carícias do amado, ergueu ela com as mãos diáfanas a cabeça mole que lhe repousara no colo e encarou-a .

Grito de terror e remorso rompeu-lhe inteiriço das entranhas.

Miguel estava morto. Então, uma lágrima cristalina e santa, desprendendose do coração, rolou pura pelas faces da mulher. Chorou pela primeira vez!

Aquela lágrima valia o poema inteiro da sua existência! era o transunto do seu arrependimento! era o perdão dos seus crimes! Chorou! Chorou uma lágrima de mulher, e por isso que vinha de Deus!

Rosalina amou pela primeira vez — aquele cadáver.

Fim

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