Por Aluísio Azevedo (1881)
— Não diga asneiras!... atalhou a velha, empurrando a neta para fora. Vai-te! e reza à Virgem Santíssima para que te proteja e te dê juízo!
Ana Rosa fechou-se, no seu quarto, rezou muito, não quis tomar chá, e soluçou até às quatro horas da manhã.
No dia seguinte, Manuel, depois de entender-se com o compadre, preveniu a Raimundo que se preparasse para ir ao Rosário.
— Estou às suas ordens, mas o senhor tinha dito que iríamos no mês de agosto.
— É certo! porem o tempo está seco e para a semana temos lua cheia.
Podemos ir no sábado Convém-lhe?
— Como quiser. estou pronto.
E, daí a pouco, Raimundo foi ao quarto verificar se os seus pertences de viagens, a borracha de aguardente, as botas de montar, as esporas e o chicote, achavam-se em bom estado de servir. Estranhou encontrar tudo isso mexido e remexido de muito fresco, como se alguém houvera se servido daqueles objetos Já não era o primeiro reparo que fazia desse gênero. por outras vezes quis parecer que alguém curioso de mau gosto se divertia a remexer-lhe os papéis e a roupa “Talvez bisbilhotice do moleque!”
Mas, no dia seguinte, por ocasião de deitar-se achou sobre o travesseiro um atracador de tartaruga preso a um laço de veludo preto. Reconheceu logo estes objetos; pertenciam a Ana Rosa. “Mas, como diabo vieram eles imoralmente parar ali, na sua cama?... Havia nisso, com certeza, um mistério ridículo, que convinha por a limpo!...” Lembrou-se então de ter ficado uma vez muito intrigado por descobrir, na escova e no pente de seu uso, fios compridos de cabelo, cabelo de mulher, sem dúvida, e mulher branca.
Já maçado, resolveu passar busca minuciosa em todo o quarto e encontrou os seguintes corpos de delito: dois ganchos de pentear, um jasmim seco, um botão de vestido e três pétalas de rosa. “Ora. estes objetos lhe pertenciam tanto quanto o pentinho de tartaruga e o laço de veludo.. Quem fazia a limpeza e arrumava o quarto era o Benedito; este também não usava laços nem ganchos na cabeça... Logo, como havia pensado, alguém se divertia em vir, na sua ausência, revistar o que era dele, e esse alguém só poderia ser Ana Rosa!... Mas, que diabo vinha ela fazer ali?... Como adivinhar o fim daquelas visitas extravagantes?... Seria simples curiosidade ou andaria naquilo a base de alguma intriga maranhense, tramada contra o morador do quarto, ou talvez, quem sabe? contra a pobre menina?... Fosse o que fosse, em todo o caso, era urgente pôr cobro a semelhante patacoada!”
Desde esse dia, Raimundo prestou atenção a todos os objetos que deixava no quarto; marcou o ponto em que ficava o álbum, o despertador um livro, o estojo de barba ou qualquer coisa, que o moleque não precisasse tirar do lugar para fazer a limpeza. E com estas experiências, cada vez mais se convencia das visitas misteriosas; os corpos de delito reproduziam-se escandalosamente; uma vez encontrou toda riscada a unha a cara da dançarina, cuja fotografia ele, com tanto cuidado, escondera de sua prima, porque nas costas do cartão, havia a seguinte dedicatória: A mon brésillen bien-aimé, Raymond.
Que dúvida! Todas as suspeitas recaiam sobre a bela filha do dono da casa! A graça, porem. é que Raimundo, apesar de não agradar à sua índole de homem sério e franco tudo que cheirasse a subterfúgio e ilegalidade, sentia no entanto certo gosto vaidoso em preocupar tanto a imaginação de uma mulher bonita; lisonjeava-lhe aquele interesse, aquela espécie de revelação tímida e discreta; gostou de perceber que seu retrato era de todos os objetos, o mais violado, e, como bom policia chegou a descobrir-lhe manchas de saliva que significavam becos. Mas ou fosse levado pela curiosidade ou fosse na desconfiança de ser tudo aquilo obra de algum patife, ou fosse, enfim, porque o fato repugnasse ao seu caráter honesto verdade é que deliberou aproveitar a primeira oportunidade para acabar com aquela mistificação.
Poucos dias depois, saindo de casa e demorando-se defronte da porta a conversar com alguém, viu da rua fecharem cuidadosamente as rótulas do seu quarto. Não hesitou - subiu pé ante pé, atravessou a varanda deserta, e foi direito ao seu aposento.
CAPÍTULO VI
Ana Rosa, com efeito, de algum tempo a essa parte, fazia visitas ao quarto de Raimundo, durante a ausência morador.
Entrava disfarçadamente, fechava as rótulas da janela, e como sabia que o morador não aparecia àquela hora, começava a bulir nos livros, a remexer nas gavetas abertas, a experimentar as fechadas a ler os cartões de visita e todos os pedacinhos de papel escrito. que lhe caiam nas mãos. Sempre que encontrava um lenço já servido no chão ou atirado sobre a cômoda apoderava-se dele e cheirava-o sofregamente, como fazia também com os chapéus de cabeça e com a travesseirinha da cama.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.