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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Por quê? O senhor é moço, deve divertir-se.

— A senhora vai?

— Sim, vou.

— Nesse caso irei também.

E Amâncio ligou tão expressiva entonação àquelas palavras, que Hortênsia abaixou os olhos, já impaciente, sem mais vontade de conversar.

— Seria possível, pensava ela – que aquele estudante lhe quisesse fazer a corte?... Não! não seria capaz disso, e, se fosse, ela saberia desenganá-lo! Ah! com certeza que o desenganava!

Campos subiu daí a um instante, e Amâncio, depois de combinar com ele que voltaria à noite para irem juntos à casa do Melo, entregou as suas malas a um carregador e saiu.

Sentia-se alegre; a nova atitude de Hortênsia dava-lhe um vago antegosto de prazeres; previa com delícia os bons momentos que o esperavam.

— E agora é que vou deixar a casa!...pensava ele já na rua. — Que tolo fui! Abandonar a empresa, justamente quando me sorri a primeira esperança! “Mas pedaço de asno, argumentava com seus botões — não calculaste logo que aquela mulher mais dia menos dia, havia de escorregar? Porque diabo então não esperaste um pouco?...”Ora! mas que caiporismo o meu! Sair nesta ocasião! Perder uma conquista tão boa! Agora também que remédio lhe ei de dar? O que está feito, está feito! A este momento minhas malas talvez já tenham chegado à casa do Coqueiro! E com este nome assaltaram-lhe logo o espírito as imagens de Lúcia e Amelinha.

Bem me dizia o Simões, pensou ele. — Bem me dizia o Simões: “Quando te começarem as aventuras, hás de ver o que vai por esta sociedade!”

E Amâncio, que não conseguia reter na cabeça as palavras dos seus professores, Amâncio, que era incapaz de guardar na memória um fato, um algarismo, uma fórmula científica, conservava, entretanto, com toda a inteireza aquela frase banal, pronunciada por um pândego em um almoço de hotel, depois de meia dúzia de garrafas de vinho.

— O Simões tinha toda a razão... principiavam as aventuras! Diabo era aquela asneira de abandonar tão intempestivamente a casa do Campos! Fora uma triste idéias, que dúvida! Mas, ele também não podias adivinhar quais seriam as intenções de Hortênsia!... O melhor por conseguinte era não se apoquentar - o que lhe estivesse destinado havia de chegar-lhe às mãos!...

E já nem pensava nisso quando subiu as escadas da casa de pensão.

Sorrisos amáveis de Amelinha e Mme.Brizard o receberam desde a entrada.

Coqueiro estava na rua.

Veio a conversa do baile dessa noite. Amâncio, pela primeira vez, ia conhecer uma sala da Corte. As duas senhoras profetizavam que ele voltaria cativo por alguma carioca.

— Duvido! Respondeu o estudante, a rir.

— É! Disse a francesa — vocês do Norte são todos uns santinhos! Eu já os conheço! Nunca vi gente tão assanhada.

Amelinha abaixou os olhos, depois de lançar à outra um gesto repreensivo. Mme. Brizard não fez caso e acrescentou:

— Os demônios não podem ver um rabo-de-saia!

— Loló! Censurou Amelinha em voz baixa.

— Também não é tanto assim!...contradisse o provinciano.

Mme. Brizard citou logo os exemplos de casa, até ali entre todos os seus hóspedes, só os nortistas davam sorte em questão de amor. — Um deles, um tal Benfica Duarte, chegara a raptar com escândalo uma crioula, e crioula feia!

Amelinha, bem contra a vontade, soltou uma risada, que lhe desfez por instantes o ar inocente da fisionomia; mas recuperou-o logo, e lembrou à cunhada “que não deviam estar ali a roubar o tempo a seu Amâncio. Ele tinha que cuidar das malas que já o esperavam no quarto!”

— Nós podemos ajudá-lo nesse trabalho, acudiu a velha. — Certas coisas só ficam bem feitas por mão de mulher!

O estudante aceitou oferecimento, e os três seguiram para o gabinete, sempre a rir e a conversar.

— Amelinha, enquanto Amâncio estrava no quarto, observou, em voz baixa a Mme. Brizard, que não achava conveniente que esta arriscasse em sua presença pilhérias como as de ainda há pouco. — O rapaz, por muito ingênuo que fosse, podia desconfiar com aquilo e persuadir-se de que ela, Amelinha, não daria uma noiva bastante séria e digna dele! Que, às vezes, por estas e outras indiscrições, desmanchavam-se casamentos!

— Como te enganas! Respondeu a velha — já compreendi bem esse sujeito: a sua corda sensível são as mulheres! Gosta que lhe falem nisso! Tu, do que precisas, é opor-lhe dificuldades, sem que o desenganes por uma vez; nega, mas promete, que obterás a vitória. Quando ele te pedir um beijo, dá-lhe um sorriso; e, quando quiser muito mais, dá-lhe então o beijo, contando que te mostres logo arrependida, envergonhada, chorosa, inconsolável, disposta a não lhe ceder mais nada, e disposta a nunca lhe pertenceres, a nunca lhe perdoares aquele atrevimento. E, se ele insistir, repele-o, insulta-o, jura que o desprezas e fá-lo acreditar que amas a outro. — É dessa forma que o hás de agarrar, percebes? Lá quando às minhas chalaças de ainda há pouco, descansa que por aí não irá o gato às filhoses.

Nesse momento, o rapaz acabava de abrir as malas. As duas senhoras apareceram no quarto.

(continua...)

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