Por Aluísio Azevedo (1897)
Então, o senhor é muito rico?...
— Um pouco, disse Gabriel, abaixando os olhos. Quanto possui?...
— Diz Gaspar que uns mil contos de réis...
— Mil contos!... repetiu Ambrosina, e transformou logo a fisionomia com um sorriso, que ela não tinha até aí dispensado a Gabriel.
Este não deu por ele, e balbuciou:
— Sou rico por acaso, sem a menor glória... herdei o que possuo de minha mãe, que já por sua vez herdara de meu pai...
— Mas, nada disso explica o que há de comum entre o senhor e o coronel, e o que o levou a pagar as dívidas de um velho idiota...
— Perdão, minha senhora, tomo a liberdade de prevenila de que em minha presença não consinto ofenderem o coronel. Ele é pai de meu padrasto; é por bem dizer, meu avô; sem contar que lhe devo mil obrigações herdadas de minha mãe. Foi o coronel quem a esta recolheu da miséria, e quem a educou...
— O senhor, por conseguinte, pagou uma dívida de gratidão?...
Não paguei coisa alguma, minha senhora; os serviços que devo ao coronel não se podem pagar, são inestimáveis...
— O Médico Misterioso é então viúvo de sua mãe...
— Sim minha senhora; e, nem só é meu padrasto, como também é o meu único amigo, o meu confidente, o meu guia, o meu mestre!
— Que entusiasmo! E ele sabe do nosso primeiro encontro?...
— Perfeitamente. Conteilhe tudo na mesma noite, mas sem declarar que se tratava da filha do comendador Moscoso, porque ignorava semelhante circunstância...
— E o que disse ele?
— Ligou pouca importância às minhas palavras, e afiançoume que tudo passaria dentro de uma semana.
E passou?
— Não. Cresceu!
— Mesmo depois de saber quem é meu pai?...
— Sim, minha senhora; mesmo depois disso...
— Entretanto não seria mau esperar até ao fim da semana...
— Para quê? para convencerme de que sou o mais desgraçado dos homens?
— Ou a mais impaciente das crianças....
— Vê! V. Exa. zomba de mim, enquanto eu...
— Vai dizer que sofre, e é exato; mas não por minha causa, sim pelos seus vinte anos, que estão purgando o idealismo absorvido durante todo o seu período acadêmico de S. Paulo.
— Pensará então que eu...
— Não me ama?... Valhame Deus! não disse tal! Sei, ao contrário, que o senhor me adora; me adora com fogo, com entusiasmo, com paixão, com poesia! e é justamente por isso, é porque o seu amor é forte demais, que desconfio dele. O senhor não possui em si o combustível necessário para alimentar semelhante chama durante uma existência inteira... O seu coração não é nenhuma mina inesgotável de carvão de pedra!
— Criminase então por amála demais?...
— Certamente! O homem, qualquer que ele seja só pode dar de si uma certa e determinada dose de amor; nada mais pode dar por melhor que o deseje, porque mais não tem. A grande ciência da felicidade conjugal consiste em fazer com que essa dose chegue para a vida inteira. Ora, o senhor quer darme toda ela de uma só vez, e eu não a quero receber por essa forma. O que não quer dizer que não aceite; aceitoo, mas em pequenas prestações. Recebendo tudo de uma vez temo fazer como os perdulários — esbanjar a fortuna e ter depois de mendigar. Para que havemos de consumir em poucos dias aquilo que nos chega para sempre?... Além de que, meu caro, o abuso traz sempre consigo a saciedade, e o tédio, o enjôo; e eu, no fim de contas...
— Aborreciase de mim...
— Não digo isso, mas aborreciame de ser amada. E esta é a pior desgraça que pode suceder a uma mulher.
— Mas então só me resta o recurso de fingir, indiferença, e amála em segredo, amála com todo o ardor da minha paixão!
— Isso ainda seria pior: além da prodigalidade, haveria o completo desperdício. Seria como se alguém para não passar por pródigo, vivesse na miséria, mas fosse às escondidas atirando fora a sua riqueza. Não! não! nesse caso seria melhor sorvêla de um trago, e dar depois um tiro nós ouvidos.
— Por que se faz tão inocente e má?... Não vê que não pode haver termo de comparação entre o amor e o dinheiro? entre o coração e uma bolsa?... O dinheiro medese, contase, e o amor é indivisível. Como se pode conceber um registro para o coração?... O dinheiro tirase do bolso quando se precisa e quanto se deseja; e o amor não! o amor sai por si, derramase, corre, como o sangue de uma ferida!
— Ora! também não se pode parar o curso do tempo, nem lhe transpor as leis, e, no entanto, há quem o esperdice, e há quem o aproveite admiravelmente...
— Não! o tempo não existe; a idéia dele é toda relativa; ao passo que o amor não tem relações, nem admite leis. É um fato real; existe! existe, que o sinto palpitar aqui dentro, não como um miserável relógio que nos mede vida gota a gota, mas louca e desnorteadamente, como neste instante! Eu te amo Ambrosina!
E Gabriel seguroulhe as mãos com ansiedade:
— Não me repilas! exclamou; não esmague com essa indiferença e frio! Desprezame, se quiseres, porém não me apunhales desta forma! Oh! mas por que deixaste, meu amor, que eu te tomasse as mãos? por que consentiste que eu me aproximasse tanto de ti?...
— Porque ainda não voltei a mim do seu atrevimento e da sua grosseria!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.