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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Todo este dialogo, posto que faiscante e eriçado de perigos, não foi pressentido por nenhum dos circunstantes, a não ser por Francisco. Este mesmo o não teria testemunhado se não fora a circunstância especial que diremos. Ao chegar, talvez por fugir de ser convidado a cantar, se colocara por traz de umas esteiras, que tinham sido postas de pé em um dos cantos do casebre. Foi daí que tudo viu e ouviu sem ser visto, oculto pela concorrência.

Lourenço, se bem o disse, melhor fez. Logo que se lhe ofereceu ocasião, caiu no meio da roda. Fez o seu sapateado, deu meia dúzia de castanholas, atirou uma embigada na rapariga que lhe ficava mais perto, e foi colocar-se ao pé do violeiro, fronteiro à Bernardina, que ainda estava deliciando os sambistas com suas graciosas vozes.

Quando Bernardina conheceu que Lourenço tinha ido colocar-se ali para alternar com ela as cantigas, empalideceu, mas sorriu. O desafio lhe era agradável, posto que fosse mais forte do que ela o seu contendor. De seu natural vaidosa e leviana, nunca recusou demonstrações de apreço a Lourenço, embora tivesse o coração quase todo ocupado pela imagem de Saturnino.

Lourenço cantou este verso:

Boca de cravo da Índia,

Dentes de marfim dourado,

Quando meus olhos te viram,

Meu corpo fez um pecado.

Bernardina respondeu com est’outro:

Você vai prá sua terra,

Bem pudera me levar;

Prá saber que eu quero ir

Não carece perguntar.

Lourenço retorquiu:

Dei um nó na fita verde,

Dei-lhe a fita de presente;

Você fala, e não repara

Que estamos diante de gente.

Eis a resposta da rapariga:

Amores, quando te fores,

Antes de ir tira-me a vida,

Que eu não tenho coração

De ver a tua partida.

O desafio foi neste ponto interrompido por um rumor inesperado, idêntico ao que produz o arranco de onça por entre a folhagem. Não uma onça, mas o Tunda-Cumbe tinha atravessado de um salto, causa do rumor, a primeira ordem de pessoas que formavam o circulo, e achava-se ao pé de Lourenço, com a catana levantada contra o rapaz. Mas ainda bem não erguia o braço armado, quando um homem, saído, como ele, violentamente dentre os circunstantes, se interpunha entre o agressor e o agredido, tendo na mão fora da bainha a faca que trazia ao cós. O homem não era outro senão Francisco.

Cessaram imediatamente as vozes dos cantores e instrumentos, e todas as vistas e atenções concentraram-se no ponto do conflito.

- - Que ação é esta, seu Tunda-Cumbe? perguntou Francisco a Manoel Gonçalves. O que vosmecê fizer a meu filho, terá feito a mim mesmo. O que eu quero é que me digam o motivo deste barulho, disse Victorino apresentando-se.

É que este menino ainda não achou quem lhe desse o ensino de que precisa, respondeu Manoel Gonçalves.

- O que eu quero saber é o motivo do barulho, repetiu Victorino.

- Você o saberá quando for tempo. Palavra de Manoel Gonçalves Tunda-Cumbe.

Lourenço, que até então guardara silêncio, rugiu a meia voz:

Eu se não me for embora daqui, faço as todinhas e acabo ainda com muito sol. O sangue está a ferver-me.

Entretanto, o Tunda-Cumbe metera a catana na bainha, e Francisco tinha feito o mesmo com a faca.

Victorino virou-se para este ultimo, enquanto aquele se afastava dando a um e a outro a razão do seu procedimento; e a meia voz perguntou:

- Viu você o principio da briga, compadre? Se viu, conte-me a historia como foi.

Para dizer a verdade, eu não sei bem a causa da contenda. Mas parece-me que a Bernardina anda no meio. Tenha paciência, compadre, e perdoe o que lhe vou dizer. É preciso acabar com estes sambas em sua casa. Quem tem filhas, não abre as suas portas assim a Deus e ao mundo.

- Eu não convidei o Tunda-Cumbe para o meu divertimento. Se ele entrou aqui foi confiado em ser nosso freguês de peixe.

- Pois abra os olhos, que ele disse que a Bernardina é tainha que ainda há de cair no seu caçuá. E adeus, adeus.

Vamos, Lourenço.

- Pois ele disse isto, meu compadre? Ele não conhece Victorino.

Quando Francisco chegou com o filho à porta do casebre, achou aí da banda de fora o Victorino, o Tunda-Cumbe e um pardo de Goiana que tinha o oficio de sapateiro. A este último dizia o Tunda-Cumbe as seguintes palavras:

- Diga a seu Antonio Coelho que fico entendido do recado, que me mandou por você e daqui a pouco lá estarei. O pardo, por nome Lauriano, saiu, e o Victorino dirigiu-se nestes termos a Manoel Gonçalves:

Seu Tunda-Cumbe , eu quero dizer-lhe os meus sentimentos. A Bernardina é solteira, mas já tem noivo. Por isso escusa andar vosmecê a fazer desordens na casa alheia por causa dela.

- Eu bem sei donde partem estas historias e por saber donde elas partem é que as suas palavras me entram por um ouvido e me saem pelo outro. Se a Bernardina tiver de ser minha, não há de ser nem você nem seus parceiros que tenham forças para o impedir. Não seja tolo, Victorino.

(continua...)

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