Por Bernardo Guimarães (1872)
Posto que ainda bastante fraco, Elias parecia lesto e disposto como em seus dias de perfeita saúde; uma força interior o reanimava como por encanto. Seu primeiro cuidado foi ir ver, ainda que a certa distância, a casinha em que viera habitar a família do infeliz major. Era uma tosca choupana, a última que se via à orla do caminho que seguia rio acima para o comércio de Mundim. Mas essa choupana aos olhos de Elias tinha mais encantos que um palácio: era o templo que encerrava uma divindade.
Sentado sobre a relva que se estendia pela encosta acima em frente de sua casinha, esteve por largo tempo contemplando- a e examinando- a minuciosamente; mas não viu ninguém. Apenas a fumaça que saía pelo telhado, e algum rumor confuso de vozes atestavam que a choupana era habitada. Depois de estar ali mais de uma hora a contemplar a casa, e embebido em mil pensamentos, ora risonhos e esperançosos, ora amargos e sombrios, a porta se abriu, o Major saiu, e imediatamente a porta se fechou. Envolvido num largo sobretudo, chapéu de pêlo de lebre, carregado sobre os olhos, a cabeça descaída sobre o peito, arrimando-se a uma grossa bengala, lá ia o Major a caminho da povoação.
Ao vê-lo, Elias teve o mais profundo dó e sentiu apertar-lhe o coração. Como estava a certa distância do caminho, o Major passou sem vê-lo.
- Onde irá aquele infeliz pai, pensava Elias; que irá fazer? Irá talvez envidar os últimos esforços para achar algum meio de manter com decência sua pequena família, tão digna de melhor sorte! irá talvez vender alguma jóia que ainda resta a suas filhas, para dar-lhes um pedaço de pão! . . . E a que portas vais bater, infeliz Major! . . . de uns monstros sem consciência e sem entranhas, que folgam com a desdita alheia, como folga o urubu ao ver expirar o animal em que vai cravar o imundo bico faminto de carniça. Esses mesmos, que ainda ontem regozijavam-se em tua casa, comendo e bebendo à tua custa, hoje apenas se dignarão testemunhar-te um pouco de compaixão. Cega- os a gana do dinheiro; piores que os lobos, são capazes de devorarem-se uns aos outros por um punhado de ouro. Major! Major! eles vos arrancarão até a camisa do corpo, e tomai bem cuidado sobre vossas filhas! eles são capazes de roubar-te esse único tesouro de teu coração, esse último consolo de teu infortúnio! . . .
A voz da velha enfermeira o veio despertar daquelas sombrias reflexões.
- Olá, senhor Elias! . . . o que está aí a banzar? . . . fuja desse sol, que está ficando muito quente; venha tomar seu caldo. Então? perguntou ela depois que Elias se aproximou; então, viu os novos vizinhos?
- Vi somente o velho: é muito meu conhecido.
- Falou com ele?
- Não; ele saiu de casa, e passou por mim sem ver-me; coitado! vai tão cabisbaixo! ainda ontem era rico; hoje, minha velha, talvez lhe possamos dar esmolas!
- Forte pena! . . . mas Deus é grande; há de compadecer-se deles. Eu tenho mais dó é das pobres meninas, coitadinhas!
tão mimosas, tão bonitinhas! há de custar-lhes bastante acostumarem-se com a pobreza.
-talvez não; foram criadas na roça, e estão acostumadas com o trabalho. O pai não tinha outro defeito senão o de ser muito fanfarrão e todo enfatuado de riqueza e fidalguia. No mais era um homem de bem, e soube dar excelente educação a suas filhas. Mas nem por isso são menos dignas de lástima.
- E por que não vai fazer-lhe uma visita, e oferecer-lhe o nosso préstimo; coitados! . . . Não digo hoje, mas amanhã ou depois, quando melhorar. . .
- Esse é o meu desejo; mas. . .
-mas o quê? . . . há de ir; são nossos vizinhos, e talvez lhe possamos prestar nalguma coisa.
Elias bem ardia em desejos de ir ver Lúcia. Mas, ofendido há tão pouco tempo pelo Major em seu amor- próprio, sentia certa repugnância em ir visita-lo, e demais receava que ele pensasse que sua visita naquela ocasião tinha por fim humilha-lo e mortifica-lo. Visitar Lúcia na ausência do pai, também sua natural delicadeza não permitia, principalmente naquela condição em que ela se achava; era dever duplamente sagrado para ele respeitar-lhe o recato e a reputação.
Elias passou essa manhã a excogitar um meio de ver Lúcia sem encontrar-se com o Major; mas seu cérebro abrasado e debilitado pela moléstia não lhe sugeriu nenhum. À tarde o acesso febril o prostrou na cama, e forçoso lhe foi renunciar por esse dia ao seu desejo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.