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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

— Meu padrinho é maniaco pelos empenhos!... eu não pedi, nem peço a pessoa alguma que se interesse por mim : offereci-me a sujeitar-me a um exame publico, lembrei homens conceituados que podem responder pela minha probidade, e é o que basta.

— Fallaste ao ministro respectivo ?...

— Procurei-o, e respondêrão-me que elle estava muito occupado, o que é bem natural, porque um ministro tem a seu cargo uma tarefa onerosissima ; deixei pois o meu requerimento documentado na secretaria, e espero socegadamente o resultado.

— Innocencio ! disse Geraldo; uma de duas : ou tu te resolveste a passar a tarde divertindo-te á minha custa, ou és o maior tolo que eu tenho conhecido no mundo. — Porque, meu padrinho?...

— Pois tu já viste nomeações sem patronos e sem empenhos?...

— Oh senhor ! exclamou Innocencio, não fallo agora de mim, que pouco valho: quando porém se apresenta pretendendo um emprego um homem illustrado, honesto e capaz de preenchel-o com proveito do paiz...

— Em regra não arranja nada, é posto de lado, e morre pagão, se não tem padrinho.

— Que blasphemia, meu Deos!...

— Innocencio! conheces o direito constitucional do teu paiz ?...

— Um pouco.

— Quantos são os poderes do Imperio ?...

— Ora, meu padrinho !

— Responde.

— São quatro.

— São cinco.

— Eu respondo com o direito constitucional.

— E eu com o direito consuctudinario. O patronato é o quinto poder do Imperio : ainda não houve ministro que o confessasse em alta voz ; mas também nenhum houve ainda que deixasse de reconhecel-o e dobrar-se a elle.

— Então o Brazil...

— O Brazil está no caso das outras nações : mais miseria, menos miséria, mais ou menos desmoralisação, todas ellas andão assim.

— Portanto...

— Aposto que ficarás sem a commissão.

— Veremos.

— Vamos á esperança do casamento.

— Meu padrinho, não vio aquella familia que chegou hoje comigo em um carro do trem da estrada de ferro?...

__ Ah! trata-se da formosa D. Christina, filha do meu amigo Fagundes... uma bella moça de apparencias sentimentaes, mas fria como uma pedra de gelo, e positiva como um bilhete do banco.

— Meu padrinho ! eu a amo...

— E ella ?

— Corresponde ao meu amor.

— E os pais?

— Não podem deixar de sabel-o.

— Entendo : o nosso amigo, em cuja casa estiveste, deu-lhes noticias tuas e de tua familia, e elles ficarão sabendo que tens uma fortunasinha de cincoenta a. sessenta contos de reis.

— E que vem isso ao caso ?

— Vem muito : vais por ahi melhor do que pelas esperanças de deputação e de emprego.

— Creio que não se refere ao meu dinheiro...

— Refiro-me ; é mesmo justo que um pai deseje para sua filha um marido que tenha com que tratal-a convenientemente : é verdade que o meu amigo Fagundes não é pobre : mas nem por isso calcula menos com um genro que seja rico. Anima-te pois : a tua terceira esperança realisar-se-ha, comtanto que....

— Acabe !

— Ora! comtanto que ainda a tempo não appareça algum outro pretendente que, mercantilmente fallando, represente uma somma mais avultada do que tu podes representar.

— Isto é de mais !

— Não é de mais nem de menos, é exacto. Entretanto approvo a tua idéa de casamento, e amanhã á noite iremos tomar chá á chacara do Fagundes; quero apresentar-te como meu afilhado.

— Aceito, meu padrinho.

— E não tens mais que confiar-me ?

— Nada mais.

Ouvindo isso, Geraldo-Risota começou a soltar tantas e tão continuadas risadas que esteve o ponto de cahir do banco onde se achava sentado. Innocencio susteve-o, e pedio-lhe que se lembrasse da promessa que fizera.

— Deixa-me rir ! deixa-me ! não sabes quanto me custou estar sério por tanto tempo ; mas disseste cousas que hão de fazer-me rir durante um anno.

III.

No dia seguinte, das seis para as sete horas da tarde, Geraldo e Innocencio dirigirão-se á chácara de Fagundes.

Era curta a distancia que tinhão de vencer, mas ainda assim o padrinho e o afilhado aprveitarão o tempo conversando.

— Innocencio, disse Geraldo, preciso que meprevinas do papel que pretendes representar para com a familia de Fagundes.

— Que papel pretendo representar ! essa é boa, meu padrinho ; eu quero e hei de sempre apparecer e mostrar-me tal qual sou : dir-se-hia que vossa mercê suppõe que se trata de representar alguma comedia!

— Rapaz, o mundo é um theatro immenso onde os homens, quer em relação á politica quer em relação ás suas profissões, ás sociedades que frequentão, e até á propria religião, são comicos mais ou menos habilidosos. Todos representão, e muitos ou quasi todos o fazem até mascarados.

— E com que fim ?

— Com o fim de ver quem mais engana os outros e mais se aproveita da credulidade alheia.

— E meu padrinho queria então que eu também por minha vez voltasse as costas á verdade, esquecendo o dever da lealdade e da franqueza, e me desfigurasse com a mentira?...

(continua...)

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