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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

  Na manhã em que estamos, saíra o capanga de seu esconderijo resolvido a lançar mão do meio que reservara para a última extremidade. Afastando-se das ruínas para evitar um encontro com Berta, chegara a um sombrio raleiro do mato, onde retouçava o bacorinho ruivo. 

  Enxotado por Jão, o animalzinho desapareceu, e antes de meia hora estava de volta precedendo o trote miúdo o Chico Tinguá. 

  Pensou lá consigo o vendeiro, apesar do chamado, que o mais urgente era avisar o capanga do que tramavam contra ele; e pois foi logo contando o quanto ouvira pouco antes. 

  Riu-se o Bugre. 

- Deixa-os! 

- Mas o arengueiro do Pinta meteu-se de súcia com eles, redargüiu Chico; e não é de bom que o demônio me anda a cheirar cá pelo rancho a uns tempos. Agora mesmo quando vim, lá me ficou espiando! 

  Jão Fera encolheu os ombros com um ar desdenhoso. 

- Escuta, Chico, isto é negócio sério. Hás de ir agora mesmo à fazenda do tal Aguiar. Diz-lhe que ele perde seu tempo em estar oferecendo contos de réis a quem me agarrar. Se quiser, que te entregue cinqüenta mil réis, e sou capaz de ir lá à fazenda uma tarde que ele marcar depois de São João. Dou minha palavra. 

  Olhou-o Chico espantado e quis objetar. 

- Vai ou não? Atalhou Jão com o tom decisivo. 

  O vendeiro abaixou a cabeça e partiu. Vendo-o desaparecer, dirigiu-se o capanga para a casa de nhá Tudinha, e já a pedaço oculto entre a ramada, estava de longe observando Berta, quando Miguel se retirou despeitado, deixando só a colaça. Nessa ocasião animou-se ele a transpor a orla da mata; a menina o viu e adivinhando que lhe queria falar, foi a seu encontro. 

  O olhar de Berta era uma interrogação instante e cheia de inquietação. Não se encontrara com o capanga, desde que este fugira de volta da Ave-Maria, sem fazer-lhe a promessa que ela exigia. 

- Agora posso desempenhar minha palavra, e não me importarei mais com o Galvão; disse o capanga cabisbaixo e humilde. 

  Estremeceu Berta, pensando no perigo que até aquele instante correra o pai de Linda. 

- Obrigada, Jão! Disse Berta com efusão sincera. 

  Nem lhe ocorreu, fosse o que ela agradecia, dádiva de um assassino, que lhe cedia uma existência como um artigo de seu bárbaro tráfico. 

- Mecê está contente? Perguntou animando-se o capanga. 

- Muito, muito, Jão! 

- Então... me deixe... 

 A voz do capanga balbuciou, e por fim gelou-se nos lábios trêmulos e lívidos. 

- O que é? insistiu Berta. Fale, não tenha susto. Quer que eu faça alguma coisa por você? 

- Sim! 

- Pois diga. 

  Com um violento esforço arrancou o capanga estas palavras trôpegas: 

- Beijar o bentinho. 

  Sorriu-se Berta, e com um gesto gracioso tirou do seio o relicário pendente com a cruz do cordão de ouro, e, erguendo-se na pontinha dos pés, o deu a beijar, preso como estava ao pescoço. 

  Jão Fera roçou os lábios pela relíquia, e, sem força para erguer a cabeça bamba, com o corpo balordo e o passo trôpego, cambaleando como um ébrio, afastou-se da menina, sem ânimo de por os olhos no semblante dela. 

- Está embriagado! pensou Berta com indignação que se pintou em sua fisionomia. 

  Mas já a caridade vibrava as cordas mais suaves de sua alma, e o primeiro assomo de severidade se afogava nos eflúvios de uma compaixão inexaurível. 

- Coitado! murmurou. 

  A blateração do Brás a surpreendeu nesse instante. Voltava com a roupa em frangalhos, a cara arranhada de espinhos, as mão escoriadas, os cabelos emaranhados de gravetos, e todo ele coberto de pó ou lama. Trouxera presa uma cotia, que fora caçar para Berta, em troca da outra. 

  Quando a ia entregar à menina, vendo a repulsão que se desenhava no lindo semblante, e adivinhando a causa, o idiota soltou a sua bestial interjeição, apontando para o vulto de Jão Fera. 

- Hanh! hanh!... 

Tinha o idiota a atitude e o gesto do mastim que interroga o olhar do senhor, e com um latido surdo pede-lhe que o estume contar o inimigo. 

 

XXX 

Trama 

 

  Era véspera de São João. 

  Na fazenda das Palmas, desde muito cedo que se faziam os aprestos para a festa daquela noite de folguedos. Já o pátio estava enramado de coqueiros; e no centro erguiase uma pilha de lenha para a fogueira fatídica. 

  Nhá Tudinha se instalara na cozinha. Cercada de uma multidão de caçarolas, frigideiras, gamelas, alguidares e latas, a repolhuda comadre repimpava-se no cepo do pilão, para distribuir suas ordens pelas raparigas; mas não se podia ter que não saltasse logo do seu pedestal e acudisse aqui e ali, em toda a parte, com uma azáfama crescente, o que fazia dizer a crioula Rosa, em aparte ao Faustino: 

  - Gentes! Esta mulherzinha tem bicho-carpinteiro. 

 D. Ermelinda abdicara naquele dia em nhá Tudinha o governo da cozinha e despensa para ocupar-se exclusivamente com a recepção dos hóspedes que eram esperados à tarde. 

(continua...)

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