Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Helena

Por Machado de Assis (1876)

Quando Mendonça chegou à casa nessa noite, ia mais que nunca cheio de comoção e nadando em plena glória. A cidade, apenas aí entrou, pareceu-lhe transformada por uma vara mágica; viu-a povoada de seres fantásticos e rutilantes, que iam e vinham do Céu à Terra e da Terra ao Céu. A cor deste era única entre todas as da palheta do divino cenógrafo. As estrelas, mais vivas que nunca, pareciam saudá-lo de cima com ventarolas elétricas, ou fazerem-lhe figas de inveja e despeito. Asas invisíveis lhe roçavam os cabelos, e umas vozes sem boca lhe falavam ao coração. Os pés como que não pousavam no solo; ia extático e sem consciência de si. Era aquele o galhofeiro de há pouco? O amor fizera esse milagre mais.

Um dos teatros estava aberto; comprou um bilhete e entrou. Não era desejo de divertir-se ou interessar-se pelo drama, que aliás expirava de parceria com o protagonista; era necessidade de ver gente, de apalpar a realidade das coisas, tão quimérico se lhe afigurava tudo o que se passara desde manhã.

Um espectador, o filho do coronel-major, viu-o a alguma distância e foi sentar-se ao pé dele.

O senhor que tem melhor vista, disse o acadêmico, desengane-me; aquela moça que ali está, naquele camarote, não é a andorinha viajante?

A andorinha viajante? repetiu Mendonça, olhando para ele; que quer dizer esse

nome?

É a alcunha da irmã de Estácio. Será ela que está ali, com uma senhora idosa?

Mas por que lhe chamam assim?

Eu sei! Naturalmente porque sai à rua todos os dias. Na verdade, é um passear! Mal

amanhece, lá vai trepada no cavalinho, com o pajem atrás...

Quem lhe pôs essa alcunha?

As alcunhas são como as mofinas: não têm autor.

Caíra o pano; Mendonça despediu-se ali mesmo e saiu. Na rua repetiu mentalmente as palavras do jovem acadêmico. Ao cabo de alguns minutos, sorriu; compreendera que, apenas suspeitada a sua felicidade, já a inveja lhe deitava na taça uma gota de veneno. Ergueu os ombros, resoluto a suportar tranqüilo essa lívida companheira do êxito.

Guiou para casa, onde entrou pouco depois. Helena volvera a ocupá-lo exclusivamente. Só, na alcova de solteiro, inventariou os acontecimentos daquele dia e achou- se morgado da fortuna. Como precisava conversar com alguém, escreveu uma longa carta a Estácio, narrando-lhe toda a história do seu coração, as esperanças e a pronta realização delas.

A alma derramou-se no papel impetuosa e exuberante. O estilo era irregular, a frase incorreta; mas havia ali a eloqüência e a sinceridade da paixão. Quando fechou a carta, anteviu o prazer que ia dar ao amigo, logo que ela lhe chegasse às mãos, levando a notícia de que os vínculos atados na aula iam apertar-se na família.

“Vem quanto antes, dizia ele ao terminar a missiva; tenho ânsia de abraçar-te e ouvir de ti mesmo o consentimento que me fará o mais feliz dos homens!”

Quando essa carta chegou a Cantagalo, Estácio voltava de uma pequena excursão que fizera com o pai de Eugênia. Conheceu a letra do sobrescrito; abriu negligentemente a carta; leu-a com assombro. A impressão foi tão visível que Camargo lhe perguntou de que se tratava.

Recebo uma notícia que me obriga a partir amanhã, disse ele.

Negócio grave?

Grave.

Ainda assim, nesta ocasião..

Que tem? D. Clara pode ainda resistir à morte alguns dias; e, posto que a minha ausência não prejudique nada do fato a que aludo, contudo é mister que me informe e providencie.

Algum negócio relativo ao inventário? aventurou Camargo, que nada conhecia mais grave que o dinheiro.

Justamente, respondeu maquinalmente Estácio.

Camargo consolou a filha do desgosto que lhe causava a partida do noivo; falou-lhe a linguagem da razão; disse que havia assuntos práticos, a que os sentimentos tinham de ceder o passo alguma vez. No dia seguinte de manhã, partiu Estácio na direção da Corte, não sem prometer que voltaria, se a moléstia ou qualquer outro motivo obrigasse a família a demorar- se em Cantagalo.

Ninguém esperava por ele em Andaraí. Entrando na chácara, — era de noite, — viu Estácio que a sala que ficava no ângulo esquerdo da frente da casa, estava alumiada e tinha gente. A sala ficava ao rés-do-chão e as janelas estavam abertas. Parou a pouca distância, e pôde distinguir o coronel-major e o Dr. Matos jogando o gamão; a mulher do advogado falava a D. Úrsula e Melchior, em um dos lados; do outro estava assentada Helena, tendo Mendonça diante de si.

Estácio deu volta aos fundos da chácara, e entrou pela varanda. Os escravos que o viram chegar, deram sinal da novidade, com vozes de alegria, que, aliás, não chegaram até pessoas da sala. Estas só souberam do recém-chegado quando ele assomou à porta. A satisfação de o ver foi geral e sincera em todos. Estácio distribuiu abraços e apertos de mão. Melchior, que se deixara ficar de lado, foi o último com quem falou.

O Dr. Camargo veio? perguntou D. Úrsula ao sobrinho, logo depois que este cumprimentara a todos.

Não, respondeu Estácio, a doente não pode escapar, mas ainda a deixei com vida.

Imagino a impaciência dos herdeiros.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3839404142...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →