Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Vinham os dois últimos adiante, e seguidos pelos velhos. Tão facilmente se lia a serenidade no semblante destes, como a perturbação no dos primeiros.

Estava a moça muito corada, e quase ansiosa; e o moço pelo contrário, muito pálido, e como que abatido. Traziam ambos os olhos no chão, e não se diziam palavra. Eram porém ambos bonitos; a moça principalmente era muito bela.

Vinha ela de vestido de escomilha cor-de-rosa e em corpinho, com os cabelos à napolitana; não trazia nem brincos, nem adereço, nem pulseiras, mas sim lindíssimos braços nus, pois que o vestido era de mangas curtas, e ao mesmo tempo tão comprido, que apenas às vezes se descobria a ponta envernizada de suas pequeninas botinas. Uma fita azul, larga de dois dedos, e enlaçada na cintura, era ao demais o seu único ornato.

O moço vestia sobrecasaca e calças de merinó preto, gravata de mesma cor, e colete de fustão branco lavrado. Tinha fechando-lhe o peito da camisa, um simples botão de ouro pequenino e liso; trazia os cabelos muito curtos, chapéu de castor preto, e botins de couro de bezerro.

A velha estava vestida toda de preto, e tinha na cabeça um chapelinho da mesma cor, mas de palha, com enfeites de fitas roxas.

O ancião enfim, vinha de sobrecasaca de pano cor de rapé, gravata preta, colete e calças brancas, trazia uma grossa corrente de ouro, muito fora da moda, prendendo o relógio, e pendendo de uma fita negra, sua grande luneta de aros de prata. Tinha na cabeça um chapéu de patente, e calçava sapatos ingleses.

Seguiram estas quatro personagens a rua, que em linha reta vai do portão do Passeio terminar-se no largo principal, e defronte do outeiro artificial chamado comumente – Cascata. – De caminho foi o velho cumprimentado como amigo por alguns. Trazia a moça muito no chão os olhos para o ser também. Ninguém todavia deu sinal de conhecer a velha nem o moço.

Os dois velhos conversando um com o outro sem cessar, nada ouviram do que se poderia estar dizendo em derredor deles. Outro tanto não acontecia aos mancebos que, em silêncio caminhando, tinham por conseqüência mais apurada a atenção.

Já por vezes lhes tinha chegado aos ouvidos ora um elogio à beleza da jovem, ora as meias palavras e o ruído das risadinhas de duas moças ao apuridar-se; quando ao passarem por junto de dois mancebos, disse um deles:

– Olha... aí vão dois irmãos ou dois noivos.

– Nem uma nem outra coisa, respondeu-lhe o companheiro.

– Por quê?

– Porque se fossem irmãos conversariam, e se fossem noivos se estariam dizendo finezas.

– Então são namorados.

– É o mais provável.

A perturbação do moço e da moça foi tão visível então, que não pôde escapar

aos olhos de seus observadores.

Depois de alguns passos mais, a moça disse ao seu companheiro com voz quase sumida:

– Conversemos... senhor...

Mas foram indo sempre calados como até então.

Desde porém que aquelas palavras chegaram aos ouvidos da moça, qualquer fraco ruído, o sussurrar de uma conversa a pouca distância travada, tudo, em uma palavra, a assustava; tudo lhe parecia estar repetindo aquele insulto feito à sua inocência:

– São namorados.

Chegaram enfim aquelas quatro personagens ao largo principal, e ladeando-o pela direita, entraram no caramanchel desse lado, e sentaram-se nos bancos de pedra.

Ficaram então todos quatro descansando em silêncio debaixo daquele belo teto de jasmins da Índia, e como se a melancolia dos dois moços se houvesse propagado aos velhos, estiveram estes tristes e suspirando, até que o ancião quebrou inopinado o silêncio, dizendo:

– Então... que quer dizer isto?... vimos passear e divertir-nos, e estamos tristemente olhando uns para os outros?...

– Parece, respondeu a velha, que estes meninos nos pegaram sua tristeza.

– Não, tornou aquele; não mintamos a nós mesmos: queres saber, Celina, por que nossa velha amiga se tornou de súbito melancólica?... quer saber, sr. Cândido, por que me sucedeu o mesmo?...

Os dois mancebos levantaram pela primeira vez os olhos, e os fitaram em Anacleto, como dizendo cada um deles: – quero.

– É que nos estamos lembrando do passado! disse Anacleto.

Irias murmurou tristemente:

– É verdade! é isso mesmo.

– É que vemos ir-se tudo mudando em torno de nós. É que sentimos irem morrendo uma a uma todas as testemunhas de nossos gozos dos belos anos... e aqui mesmo, a não serem essas árvores copadas que resistem ao tempo, e essas duas pirâmides, que não sei por que milagre não se lembraram ainda de lançar por terra, nada, nada mais haveria do que era nosso! tudo teria morrido... tudo estaria mudado, pois que até se matam os nomes...! – É verdade! tornou a velha.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3839404142...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →