Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Pois uma dessas interessantes batalhas, em que damas são lidadores, e armas os encantos delas, se dava com vigor em casa de Venâncio.
Conceba-se agora uma espaçosa sala em que se deve dançar, uma outra mais curta onde se joga, um gabinete onde se há de tocar, uma escada gostosamente iluminada, pela qual sobem as senhoras para a toillete, uma sala que deverá ser a de jantar, e que ora nela se servem refrescos, e, enfim, ao lado dela um agradável terrado, cujos parapeitos estão cobertos de lindos vasos de flores, dos quais se pode gozar o aroma, sentado em bancos crivados de conchinhas brancas; e ter-se-á feito uma justa idéia da casa de Venâncio.
Conceba-se mais do belo ruído, toda a sublime desordem do começo de um sarau; as senhoras que chegam, os beijos que estalam lábio a lábio entre as camaradas que se encontram; o murmúrio das que criticam; os planos que se forjam nas rodas de moços; as quadrilhas que se engajam; as lisonjas que se dizem; as desculpas que se oferecem; e, sobretudo, os parabéns que recebe a Sr.ª D. Tomásia, e ter-se-á feito também justa idéia do que aí se passava pouco antes de começar o sarau.
Nesse tão forte ostentar de agrados e louçainhas, e entre as que mais se extremavam, viase a madrinha da filha de Tomásia, D. Lucrécia, jovem viúva de vinte anos, orgulhosa de suas faces cor-de-rosa, de seu rosto fresco e belo, do interesse que lhe dava seu estado de viuvez tão prematuro, e que, cônscia de tais atrativos, ainda mais se deixava adormecer, sem cuidados do futuro, no seio da segurança e da felicidade que lhe prometiam seus avultados teres.
Tomásia não cabia em si de contente: havia umas poucas de razões, porque se julgava venturosa. Antes de tudo ela conhecia que jamais enganara com mais habilidade a si própria: com efeito, nunca tingira melhor seus cabelos brancos, nem até então lhe havia M.me Gudin cortado com mais feliz mão um vestido de seda; depois, Tomásia não deixava de ser mãe; via com orgulho sua querida filha, que, como toda a moça que tendo dezesseis anos não é feia e mostra-se espertinha, brilhava aos olhos da sociedade. Sem dúvida, Rosa fazia-se acompanhar em seus menores movimentos de boas duas dúzias de olhos masculinos, como conquistador, que em triunfo arrasta após si vencidos algemados, tão galantinha, tão faceira e (digamos em francês para mais agradar) tão coquette, que estava.
Finalmente, Tomásia se dava alegremente parabéns pelo gosto e brilhantismo de sua festa; fosse como fosse, Venâncio arranjou-se o melhor que pôde; o dinheiro havia aparecido, e Brásmimoso, que tinha dedo para negócios tais, forjara e estava executando um plano de sarau tão bem concebido, determinado, e posto em prática, que nada deixava a desejar.
A casa já se achava cheia de convidados, e a todos os momentos vinham chegando novos. Entre os jovens mais elegantes, primava Otávio. Tomásia o tinha recebido com a maior afabilidade, e Rosa com engraçado sorrir, posto que ambas já não contavam com ele: Félix as tinha precedentemente desanimado com a relação da amorosa inteligência, que se dava entre ele e D. Lucrécia; e também Otávio, que tanto olhara para Rosa no teatro, que a fora esperar à saída, e que até tomara nota da rua onde ela morava, nem uma só vez viera passar por defronte das janelas da moça, e nem mais se lembrara de seu lindo rosto moreno.
À vista de semelhante procedimento, Rosa tinha riscado o nome de Otávio da lista dos seus adoradores, e o olhava quase com indiferença, quase que com os mesmos olhos com que observava a multidão de moços que vinham entrando e espalhando-se pelas salas.
Às oito horas e um quarto da noite, pouco mais ou menos ouviu-se na sala um sussurro geral... os homens precipitaram-se para ver uma pessoa que entrava, as senhoras moveram-se todas... umas sorriram-se, outras estenderam os pescoços... foi, enfim, um movimento de curiosidade geralmente demonstrado por toda a assembléia.
Era Honorina que entrava.
A curiosidade, que tinha sido igual tanto nos homens como nas senhoras, nascia, porém, de um desejo absolutamente contrário; as senhoras desejavam dizer — é falso, e os homens — é verdade.
Não é uma ficção de romance. Uma moça, que dizem ser formosa e que chega a qualquer cidade, é pedida e desejada pelos olhos de todos; todos a querem ver, e no coração de todos se prepara um sentimento para ela, que antes da primeira vista apenas interrogativo. No coração das moças se pergunta: “será uma rival perigosa”?... No coração dos moços se diz ao contrário: “será um encanto poderoso”?...
E, pois, Honorina estava nesse caso. Fora, é certo, nascida e educada na corte, mas longe dos olhos da multidão, abrigada à sombra do amor, e escondida debaixo do véu dos prejuízos de uma família, que, arraigada a graves usanças, se espantava e corava diante da civilização galanteadora da furta-cor França. Enfim, conquistada pelo gosto da época, ela entrava pela primeira vez em uma dessas salas de prazer ardente, onde parece que se quer com olhos de fogo devorar a beleza, que chega.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.