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#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Evaristo foi primeiro homem do seu tempo pela grandeza, pela honestidade, pela pureza, e pelos sãos e benéficos efeitos de sua influência política.

Evaristo é legendário.

Essa mesma casa da América e da China ainda nos oferece, embora não historicamente gloriosa, ao menos, porém, lembrança doce, mesmo porque é lembrança de senhores e de doces.

Antes do estabelecimento da confeitaria do Carceller; ocuparam o pavimento superior ou o sobrado daquela casa do atual número 40 três senhoras naturais da província de Minas, duas irmãs e uma sobrinha, que, ou por nome de família, ou da localidade do seu nascimento, eram chamadas Paracatus.

As senhoras Paracatus não deixaram, que me conste, nomeada de belas: se foram bonitas, creio que procederam de modo a não fazê-lo notar, o que não prejudica; antes abona a sua reputação; celebrizaram-se porém pela doce indústria, que souberam explorar.

Do sul ao norte e de leste a oeste da cidade do Rio de Janeiro, as senhoras Paracatus foram por unânime aclamação do povo declaradas e proclamadas primeiras inexcedíveis e incomparáveis doceiras.

As freiras da Ajuda então e ainda até os nossos dias tinham e mantiveram primazia em confecção de empadas e de pastéis; mas em doces secos e de calda foram completamente vencidas pelas senhoras Paracatus.

Os moços daquele tempo, septuagenários e octogenários de hoje, juram pela pureza e honra do seu paladar que as Paracatus ainda não foram igualadas, como doceiras, e a um desses velhos ouvi dizer, quase chorando de saudades:

- Ah! meu amigo! tudo é possível ao progresso do século, ainda mesmo em aperfeiçoamento de doces brasileiros; mas em desmamadas, como as das Paracatus, não! elas morreram sem deixar o segredo das desmamadas.

O certo é que não havia banquete de luxo, banquete de casamento, de batizado, ou de festa aniversária de ricos da cidade em que a sobremesa (o desert) não fosse preparada e fornecida pelas Paracatus.

CAPÍTULO 12

Como se continua a viagem pela Rua do Ouvidor; e depois de se considerarem de passagem os ursos de Mr. Cassemajou e o fronteiro Profeta, deixa-se de falar de uma casa onde reinaram quatro damas, nenhuma das quais era mulher, visita-se o Hotel da Europa, e aí se encontram saudosas lembranças do Clube dos Radicais, e o berço do Clube da Reforma com janelas para a Rua do Ouvidor. Como depois prossegue-se viajando além do encruzamento da Rua da Quitanda, sobre cuja denominação absurda se dizem coisas sepientíssimas, trata-se da casa do Dr. Berquó, o ouvidor, da qual poderia ter saído influência diabólica, se fosse bem fundada certa proposição do Dr. Patroni, que se transcreve: olha-se para a casa do Jornal do Commercio; não se entra porém nela por duas razões, que não são de cabo-de-esquadra; e finalmente contemplase respeitosamente o Grão-Turco, último herdeiro da casa onde floresceram, com sucessiva glória, as lojas famosas dos - Saissel - Wallerstein - e Masset - o antigo, não faltando a esta algumas recordações romanescas.

Viajando agora pelo quarteirão que termina onde a Rua do Ouvidor é cortada pela da Quitanda, confesso-me em penúria de tradições e de notícias curiosas antigas.

Não tenho conhecimento de casas célebres nem de fatos memoráveis do outro tempo. Tudo que há notável é de ontem. Os dois ursos, o antigo e o moderno de Mr. Cassemajou, são nossos contemporâneos, e posto que o primeiro já tenha a idade exigida para ser senador, e o segundo esteja desde alguns anos emancipado, têm sido ambos até hoje da mais perfeita inocência, e o Profeta erguido quase defronte apenas profetiza que os paletós novos que vende hão de em breve tornar-se velhos.

Também não quero ser maldizente, aproveitando a passada, mas moderna celebridade de uma casa que foi riquíssima de episódios febricitantes e de comoções fortíssimas, e onde quatro damas, nenhuma das quais era mulher, inspiraram paixões, que fizeram sair depenados alguns infelizes.

Mas que provaria a história que deixo de referir? Apenas o que todos sabem, isto é, que não são somente as de barato as casas onde muito honradamente se depenam homens como se eles fossem galináceos.

Nada tenho com isso: não entra nas Memórias da Rua do Ouvidor o estudo das moléstias reinantes na cidade do Rio de Janeiro, uma das quais é essa, cujo nome não quero dizer, moléstia feia, corruptora da sociedade, e cujos sintomas mais perigosos para o doente são - os palpites.

Mas devo lembrar ao menos uma casa notável neste quarteirão: seja a primeira do lado esquerdo.

Tem ela três pavimentos, e abre portas e janelas para as ruas do Carmo e do Ouvidor.

Os dois pavimentos superiores são ocupados pelo Hotel da Europa, cuja entrada é pela Rua do Carmo, tendo outra que é de casa imediata e anexa na Rua do Ouvidor.

O Hotel da Europa foi durante anos considerado com razão, e ainda hoje tem presunções, de ser o primeiro ou o melhor hotel da cidade do Rio de Janeiro: atualmente continua a mostrar-se bom; conta porém alguns êmulos, que não merecem menos que ele.

(continua...)

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