Por Lima Barreto (1922)
Era, afinal, uma pequena hesitação no espírito de um homem que tinha tido até ali tão audazes atrevimentos para desrespeitar todas as leis, todos os regulamentos e todas as praxes administrativas.
É bastante dizer que, não contente em residir no próprio edifício do Ministério sem autorização legal, Pancome não trepidou em estabelecer na chácara do mesmo um redondel de touradas, um campo de football, um café-concerto, para obsequiar respectivamente os diplomatas espanhóis, ingleses e suecos.
Como já tive ocasião de dizer, tal ministro só trabalhava para impressionar os estrangeiros, e, apesar de não ter feito obra alguma de alcance social para a Bruzundanga, o povo o adorava porque o julgava admirado pelos países estranhos e seus sábios.
Se alguém se lembrava de censurar esse seu desavergonhado modo e governar, logo os jornalistas habituados a canonizações simoníacas e parlamentares que gostavam do pot-de-vin, gritavam: que tipo mesquinho! Criticar esse patrimônio nacional que é o Visconde de Pancome, por causa de ninharias! Ingrato!
Diante dessa desculpa de patrimônio nacional, toda a gente se calava e o país ia engolindo as afrontas que o seu ministro fazia às suas leis e aos seus regulamentos.
De onde — hão de perguntar — lhe tinha vindo tal prestígio? fácil de explicar. Ele veio, no fim, da tal história das condecorações que já lhes contei — fato que encheu de júbilo todo o povo daquela pátria, porque a República das Planícies que Pancome trabalhava para sempre andar às turras com a Bruzundanga, não as tinha obtido, apesar de disputá-las. Antes disso, porém, ele já tinha um ascendente bem forte, devido a uma grande proeza. Pancome tinha subido ao cume do Tiaya, o modesto Himalaia da corografia da República da Bruzundanga, dois mil e novecentos a três mil metros de altitude. Vou-lhes contar como a cousa foi.
Um dia, estando Pancome nas proximidades dessa montanha, anunciou a todos os quadrantes que ia escalá-la.
Os bruzundanguenses do lugar sorriram diante do projeto daquele homem gordo e pesado. Aquilo (o monte) diziam, era muito alto e ele não teria fôlego para chegar ao cume; havia fatalmente de rolar pelas encostas abaixo, antes de atingir o meio da jornada.
O visconde, porém, não se temorizou, subiu e dizem que foi ao pico da montanha.
A vista de semelhante proeza, os naturais do país, logo que a nova se espalhou, exultaram, pois andavam de há muito necessitados de um herói. Não contentes da notícia da façanha ter corrido toda a nação, telegrafaram para as cinco partes do mundo exaltando a ousadia ainda mais.
E verdade que, antes de Pancome, muitos outros, entre os quais o Kaetano Phulgêncio, um roceiro do local, tinham subido o Tiaya várias vezes, em aventuras de caça, e até esse Phulgêncio serviu-lhe de guia; mas isto não foi lembrado e Pancome passou por ser o primeiro a fazê-lo.
De tal proeza e das consequências que dela advieram, nasceu a fama do visconde, a sua consideração de herói nacional, tanto mais que os clubes alpinos da Europa tomaram nota do ilustre feito e, graças à diplomacia da Bruzundanga, o retrato e a biografia do portentoso varão foram estampados nas revistas especiais de sport.
Durante um mês, os jornais da capital do interessante país que ora nos ocupa, não deixaram um só dia de publicar telegramas do seguinte teor ou parecidos: "La Vie au Grand Air, importante revista francesa, publica o retrato do Visconde de Pancome, o destemido herói do Tiaya, e os seus traços biográficos". Um outro quotidiano dizia: "Army, Navy and Sport, célebre magazine inglês, estampando o retrato do Visconde de Pancome, essa legítima glória do nosso país, afirma que a sua ascensão ao cume do Tiaya é sem precedentes na história do alpinismo"; e assim transcreviam ou noticiavam referências de outras revistas alemãs, italianas, sírias, gregas, tcheques, etc.
Recebendo esse impulso do estrangeiro, os jornais da Bruzundanga, os mais lidos e os mais obscuros, e as revistas de toda a natureza redobraram a sua habitual gritaria em casos tais. Enchiam-se de artigos louvando o herói que fizera a Bruzundanga conhecida na Europa, afirmação essa em que logo o povo do país acreditou piamente; mostraram também com períodos bem caídos, como o fato tinha um alcance excepcional e proclamaram o homem o primeiro de todos os bruzudanguenses.
A seguir-se aos jornais, vieram os poetas louvaminheiros com as suas odes, poemas, sonetos, cantatas, erguendo às nuvens o visconde e a sua extraordinária proeza. Eles sacavam com atilamento sobre o futuro, porquanto, quando Pancome veio a ser ministro, os encheu de propinas e fartos jantares.
É ocasião de notar aqui uma singular feição dos poetas da Bruzundanga.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16833 . Acesso em: 8 maio 2026.