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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

Nesse andar chegaram a Botafogo. Evaristo lia, repoltreado na espreguiçadeira, um panfleto abolicionista que trouxera da rua. Ao som da campainha, fechou o volume e correu ao balaústre da escada.

Primeiro entraram as duas senhoras; Furtado vinha atrás falando ao criado:

se não esquecera de dar alpiste ao canário? se alguém o procurara?... O bacharel, com o livro na mão, rompeu de cima:

— Embarcou, o homem?

— Oh!... já vieste?

— Há mais de uma hora. Então, como se foram?

— Perfeitamente bem.

— O homem sempre embarcou?

—- Por que não havia de embarcar?

— Está salva a pátria! — exclamou Evaristo, interrompendo o secretário — Deus o leve, que de monarcas não precisa o Brasil.

— Evaristo! — ralhou Adelaide, encaminhando-se para o segundo andar.

— Boa tarde, Sr. Evaristo! — cumprimentou D. Branca.

— Boa tarde, excelentíssima! Estimo que se tenha divertido... — Ao contrário...

As duas famílias recolheram-se aos seus aposentos.

O bacharel estava de bom humor àquela hora e tanto bastou para que Adelaide exultasse. Abraçaram-se no alto da escada, ela muito meiga, com a face incendida de calor, as luvas amarrotadas, ele todo em roupa branca, o cabelo penteado, em chinelos de couro.

— Então?

— Então é que vi o homem.

— Viste-o?

— Vi... Não te conto nada... quase chorei...

— O que, minha mulher!

— Quase chorei, sim. Tive pena do velho, coitado!...

— Oh, coitadinha, quase chorou!... Faltou o quase, não é assim? E... faltou o quase... E depois? Não houve quem te socorresse com uma mamadeira?

— Aí vem o Evaristo!

— Sim... uma mulher que chora por causa do imperador!...

— ... Mostra que tem coração...

— Mostra que não tem juízo!

— Mas eu não te disse que chorei...

— Faltou o quase...

Houve um rápido silêncio, enquanto Evaristo acendia um cigarro. As janelas estavam abertas, como de ordinário. Lá longe os morros e o cemitério.

— Então, viste o homem!

Adelaide despia-se defronte do toucador. O leito de casal, o mesmo que Furtado comprara no dia da instalação do bacharel, saltava aos olhos, enchendo quase todo o aposento. Ouvia-se o tique-taque de um relógio invisível. Cheirava a perfumarias, como se estivesse num armazém de modas.

— Ah!... sabes quem foi ao embarque?

— ?

— O Dr. Condicional...

— O Valdevino Manhães?

— O Valdevino Manhães...

— História, Adelaide!

— Palavra! O Sr. Furtado viu-o numa roda de homens.

— É possível?—- exclamou Evaristo com um ar incrédulo, fitando a esposa. — Não juro, porque não vi, mas o Sr. Furtado...

— O Furtado viu?

— Disse-nos ele...

— Ora, eis aí o que são republicanos no Brasil! Por isso é que os monarquistas riem de nós, por isso é que ninguém toma a sério a República!

Adelaide continuava a se despir tranqüilamente, numa exibição de ombros e de braços, repuxando o colete, as saias, até ficar em camisa diante do marido que lhe não estranhava a ingênua familiaridade. Ninguém, senão ele, podia vê-la naqueles trajos simples, quase primitivos, que a outro homem seriam escandalosos. Ninguém, porque o sobrado era alto e as janelas davam exatamente para o deserto panorama das montanhas e para a longínqua tristeza de um cemitério. Demais era tão grande o calor, tão abafada a atmosfera naquele dia, que impossível se tornava a uma pessoa que chega da rua fechar-se num quarto.

Oh, como lhe arrepiava a pele o contacto dos ombros, nus e dos braços nus com o estreito ambiente, onde sempre corriam as primeiras brisas da tarde! Uma idéia pousou-lhe no cérebro, traiçoeira como uma mosca: se Furtado a visse em camisa de renda, o colo descoberto, os pés nus no tapete?... Se, em vez do bacharel, aquele homem que ali se achava diante dela fosse o secretário?... Oh, não... nem era bom pensar... Ele, que ousava dar-lhe um beijo na mão...

— Realmente! — suspirou Evaristo.

Adelaide olhou-o, já esquecida de Valdevino Manhães.

— Que é?...

— O Condicional, filha, o Condicional renunciando às suas idéias políticas! Um homem que vociferava contra o imperador e a monarquia!

E Evaristo, indignado, pôs-se a andar de um lado para o outro da sala, com o panfleto abolicionista na mão. Ultimamente encasquetara-se-lhe, como uma idéia fixa, o programa republicano: abolir a escravidão e declarar a república brasileira, o governo do povo pelo povo... Um dos membros do partido já o convidara para sócio e ele se comprometera a tomar parte ativa nas reuniões do clube. Daí a sua indignação contra o Valdevino que também apregoava entusiasmo pelas idéias liberais de Saldanha Marinho e de Quintino Bocaiúva. Não lhe saía da cabeça o poeta da Ode à Monarquia! Como é que um homem tão depressa abjura das suas crenças? Como é que se explicava essa pouca-vergonha de um escritor público? Sentou-se, afinal, e continuou a interrompida leitura do panfleto. Daí a pouquinho vieram avisar que a sopa estava na mesa.

CAPÍTULO VII

(continua...)

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