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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

Aleixo com outro homem! Esta idéia fazia-o enlouquecer de ciúme, torturava-o como um sofrimento agudo, como uma chaga viva e dolorosa.

Que felicidade, que alívio, que suprema ventura, quando pela manhã, já dia claro, o sol, tépido e loução, entrava cheio de mistério pela enfermaria dentro, e recomeçava em todo o hospital a bela vida!...

Foi justamente numa dessas noites e obsessão e desespero que Bom-Crioulo galgou a muralha do estabelecimento e abalou vertiginoso para a Rua da Misericórdia, cego, às tontas, como quem vai precipitar-se num abismo.

Era um sábado feriado. Entre os marinheiros que tinham ido ao hospital visitar os amigos, Bom-Crioulo reconhecera o Pinga da corveta, seu companheiro de viagem outrora — o Pinga, o Herculano, que fora surpreendido a praticar uma ação feia e deprimente do caráter humano, junto à amurada, na proa, certa noite...

— Ó Herculano, vem cá!

— Oh! Bom-Crioulo!

— Então, que é feito de ti? perguntou o negro, interessado, conduzindo o outro pelo braço. Onde é que estás agora?

Herculano estava mudado, já não era o mesmo Pinga retraído e esquivo, com olheiras, falando pausadamente. Estava outro, admiravelmente outro, O Herculano — gordo, rosado, o olhar vivo e brilhante, sem melancolia, nem sombra alguma de tristeza. Perdera a antiga palidez que lhe dava um arzinho pulha de cousa à-toa, falava desempenado, alto, e ria, como uma criança, por ninharias. — “Onde estava agora? Na corveta, sempre na corveta.”

— Ainda? fez Bom-Crioulo admirado, ocultando a satisfação que lhe fazia a resposta. Ainda estás na corveta, homem de Deus?

— Por que não? Aquilo é que é navio. Depois que saiu do dique, nem parece a mesma. Faz gosto vê-la. Toda pintadinha, toda nova, que é ver uma tetéia.

— Mas, como é que se muda assim, rapaz? Tu, que eras tão pobre de sangue, estás me parecendo bonito, homem!

— Qual o quê! sorriu Herculano. Já estive mais gordo...

Ia reparando em Bom-Crioulo. Como estava acabado o negro! Viam-se-lhe os ossos da cara; tinha uma grande cicatriz, uma espécie de ruga funda no pescoço...

— Estás doente? perguntou.

— Ando com umas coceiras, umas feridas no corpo... Diz que é sarna.

— Ah!... Porque estás magro, meu velho, estás na espinha. Que diabo!

E depois de uma pausa.

— Eu vim ver o Anacleto, que está com uma carregação... Não sabias que tinha baixado também, que andavas por aqui. Fazia-te longe...

— É verdade, há quase um mês nesta desgraça, me acabando!

Chegaram à enfermaria. Os doentes olhavam-nos, palrando, em grupos, nos corredores, nas dependências do hospital. Alguns convalescentes jogavam a peteca num largo donde se avistava o mar.

Ia para as seis da tarde. Os navios de guerra, imóveis e embandeirados, tinham um aspecto festivo. Ouviam-se toques de corneta ao longe e sons de música em terra, na cidade. Barcas de Niterói cruzavam-se no meio da baía calma. Por toda a parte, no mar e em terra, um frêmito de alegria universal e domingueira, uma estranha alacridade perdendo-se ao longe, nas primeiras névoas do crepúsculo. Já se não via o disco de ouro do sol; a claridade ia pouco a pouco tornando-se difusa, esmaecida, langue, como uma manhã de brumas. O perfil das embarcações, o contorno das montanhas, torres e chaminés — tudo mergulhava na noite que descia palpitante de mistérios...

Ao Herculano pouco se lhe dava que anoitecesse, porque estava de folga; daí, do hospital, iria para terra num bote de ganho. Mas era preciso não demorar muito, sob pena de fechar-se o portão do estabelecimento, e ele amanhecer naquele “cemitério de vivos”...

Bom-Crioulo tranqüilizou-o: — Ainda era cedo,. Que pressa, que vexame!

E muito jeitoso, muito amável:

— Senta um pouco. Nada de cerimônias: isto aqui é meu, é teu, é do Governo. Podemos conversar à vontade.

Herculano correu o olhar pela enfermaria, pelo chão, pelo teto, pelas camas alinhadas. De resto, não era má vida... Boas camas, bom passadio, liberdade...

— É porque ainda não passaste uma noite aqui dentro, meu velho. Um inferno é o que isto é. Só mesmo para quem não pode agüentar-se. Boa cama temos nós a bordo.

— Pode-se fumar? perguntou o outro.

— É proibido, mas fuma lá teu cigarro.

Tinham se sentado na cama do negro, muito encardida. — “Era só um instantinho”, avisou o grumete.

E Bom-Crioulo puxou conversa:

— Dá-me notícias daquela gente, ó Herculano. Como vai o Aleixo, como vai o guardião Agostinho, como vão todos?...

— Bem. O guardião Agostinho sempre malvado, aquele cabra — malvado e “implicante”. Eu, felizmente, não lhe tenho caído nas unhas; felizmente! O Aleixo, aqui pra nós, anda muito metido com os oficiais. Vive na praça d’armas, é quem dá corda no relógio, é quem arruma os camarotes, quem faz tudo. Está um pelintra, filho, um grande pelintra: é o nenenzinho de bordo. Sai quando quer, entra quando quer...

Bom-Crioulo pigarreou.

— Eu, por mim, não troco palavra com ele, continuou Herculano. Estamos de mal, por uma asneira, por uma tolice... Outro dia quase nos pegamos. Dizem até que está amigado, em terra, com uma rapariga.

— Amigado!?...

(continua...)

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