Por Inglês de Sousa (1891)
O lorpa do sacrista não se continha, chegava a falar alto, censurando a quem quer que fosse, sem rebuço, mas não de frente, valha a verdade, sempre pelas costas. Falava pelas esquinas, à porta das lojas, no açougue e na padaria. Acompanhava os viajantes até o porto, até vê-los embarcados na canoa, e quando a canoa partia, o Macário voltava-se, dizendo em voz alta para os que ficavam:
— Vão, mas é para as profundas!
Pois, apesar disso, Francisco Fidêncio vencera. Aconselhara que preferissem a pândega lucrativa dos castanhais aos sermões de padre Antônio de Morais, e a sua voz, revestida do antigo prestígio, fora geralmente ouvida, e aquela tarde, na loja do Costa e Silva, constatando essa vitória quase completa, a que a partida do coletor viria em breve dar a última demão, Francisco Fidêncio achava que o triunfo fora além do que esperava, e que ferindo em cheio o adversário, não safra ileso do combate.
Bastava relancear os olhos pela sala quase vazia, para convencer-se de que a vitória custava sacrifícios. E, por isso, mais do que pela cerveja do Bernardino Santana, o seu fígado se ingurgitara de novo, reagindo contra as doses homeopáticas do sapientíssimo Regalado...
A loja do Costa e Silva era uma sala de tamanho regular, com três portas para a rua, e uma para o interior da casa. Tinha alta armação envidraçada, dividida em dois raios, um destinado às fazendas e outro aos objetos de armarinho, à sapataria, à louça e às quinquilharias. Logo à entrada da casa ficavam um comprido banco de pau, que o uso polira, e algumas cadeiras de palhinha destinadas aos principais freqüentadores do estabelecimento. O. grande balcão de cedro envernizado ia duma extremidade à outra, separando o vendedor do público, e pondo uma barreira alta entre o acesso livre da sala e a região cobiçada onde os panos americanos e as chitas pirarucus viviam em cordial confusão com as servilhas de marroquim vermelho e as garrafinhas de óleo de rícino, finas e azuis, ostentando, em rótulos dum colorido suave, os bagos de mamona branca sotopostos a um dístico inglês em letras pretas. Sobre o balcão algumas peças de algodão grosseiro, uma caixa com anzóis e um embrulho de cera virgem, a par do côvado, da vara de medir, atestavam a freqüência dos tapuios dos sítios, que a vantagem da proximidade atraía à loja do Costa e Silva. Na sala contígua, devassada pela porta sempre aberta, viam-se os barris de vinho, as caixas de cerveja e as pipas de aguardente, que formavam outro ramo de negócio do dono da casa, mas esse a grosso, para vender a cerveja às caixas, a aguardente e o vinho aos garrafões a gente de certa ordem, não aos tapuios, a menos que não pedissem as quantidades marcadas e pagassem mais do que os brancos. Era um meio que o Costa e Silva, moralizado e crente, inventara para combater a embriaguez do povo. Por trás do balcão, unida a ele, estava a mesa de pinho encerado em que o dono da casa fazia as contas e os trocos, e escrevia a correspondência, enquanto o caixeiro, um portuguesinho rechonchudo e claro, de olhos e cabelos pretos de azeviche, em mangas de camisa, aviava à freguesia, com uns modos calmos e prudentes que desmentia a petulância do olhar de vivo demônio. À guisa de tabuleta, sobre a parede exterior, privada de cal e de óleo, duas figuras, pintadas entre os vãos das portas, ostentavam as pretensões da primeira loja de Silves. Era um homem e uma senhora da altura de um metro, ele de calças justas, cor-de-rosa, terminando em pés enormes, tinha o ar dum peralvilho de aldeia, com grossa bengala na mão; ela trajava vestido vermelho armado sobre crinolina, e com uma sombrinha azul-ferrete abrigava do sol o monstruoso coque do penteado; por cima de ambos, um grande letreiro em tinha preta, já a meio apagado, anunciava - Modas e novidades de Paris, Joaquim da Costa e Silva.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.