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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

Justificando-se, ela ponderava que, em consciência, o reconhecimento não a obrigava ao extremo passo de consagrar-se para sempre a um homem preso, sob a imputação de um crime grave, envolto em densa atmosfera de suspeita, quando ela tinha outros deveres sagrados que cumprir, velar pela mãe e conservar a própria vida, ameaçada pelo assédio cada vez mais apertada de privações e miséria. Estava pagando a dívida de gratidão com o empenho sincero em libertá-lo. Demais, não se expusera, todos os dias, ao vexame de encontrar o soldado maldito? não repartira com ele o seu pão minguado? não chegava ao extremo sacrifício de afrontar a vergonha de vender os cabelos por causa dele?

Não, a consciência não a acusava,, mas outra vez, mais forte, vibrava dentro de seu peito, em acentos dolorosos, exprobrando-lhe a covardia cruel de só haver abandonado o desditoso moço, quando, entre os dois, surgiu a figura odiada da mulher delatora, amante impudica, que apregoava a própria infâmia, carícias pagas com o produto do crime, e se vangloriava de haver provocado a ruína de um homem de bem. E a sinistra voz, que a vergastava, prosseguia em tom mais brando e carinhoso: Seja ele, embora, culpado; tenha sucumbido à tentação em momento de síncope do senso moral; ame outra menos digna; é um desgraçado, cuja sorte está ligada à tua por laços fatais, inquebrantáveis. O teu lugar seria junto dele, consorte do infortúnio, ajudando-o a carregar, o peso da sua falta, a arrastar a calceta, deprimente... porque o amas... Entretanto, Alexandre é inocente e sofre duplamente, porque lhe infringiste a tua desconfiança. Vai, mulher caprichosa e bárbara, prostrate aos seus pés; unge-lhe as mãos impolutas com o bálsamo das tuas lágrimas, com os teus beijos de virgem, e pede-lhe perdão da tua fraqueza vil. Não lutes, debalde, contra o destino inexorável. Aquelas pobres flores murchas se radicaram no teu duro coração, como o cardo à rocha, e revivem enseivadas com o suor da tua angústia, coloridas com o teu sangue, envenenando-te com o filtro mágico e inebriante, que destila emanações de fragância suavíssima.

Luzia acelerou a marcha para chegar a casa, encontrar pessoas amigas e evitar a sugestão daquela voz íntima e eloqüente, que lhe derrubava todos os meios de defesa, engendrados para resistir ao secreto impulso, preservá-la da sorte de Teresinha, pranteando o homem cruel que a maltratava e relembrando, com saudade, a sua sensualidade, impetuosa e brutal como a dos toiros bravios; para ficar livre de eleger, oportunamente, aquele que deveria completá-la, que lhe abriria as portas do céu às aspirações de moça; ou o homem que ela empolgaria num atrevido lance poderoso, como o dos gaviões arrebatando a presa, conquistando-o vitoriosa.

No seu espírito inculto, essas idéias se chocavam em confusão, aterrando-a; sobre o tumulto, ardido fragor de peleja encarniçada, permanecia, dominando-o, inconfundível como um clangor de clarim, a sedutora, a máscula voz do demônio tentador...

CAPÍTULO XVII

O beco da Gangorra terminava na várzea, que o rio Acaracu inundava nas cheias, em um renque de casas velhas habitadas por michelas e soldados do destacamento. Belota ocupava uma delas, paredes-meias com o quarto de Teresinha, que só ali aparecia, raramente, para mudar de roupa, ou, consoante ela dizia, vigiar os seus teréns, um baú tauxiado de pregos doirados, uma pequena mesa desconjuntada, o pote d'água e alguns objetos de cozinha.

A porta de Belota, quase ao escurecer, Romana, Joana Cangati e Maria Caiçara conversavam acocoradas e cigarreando, muito desenvoltas e palradeiras. Romana, sempre roliça, com os cabelos duros de pomada cheirosa, aljofrada de empolas de suor adiposo, a ponta do nariz curto e arrebitado, e mostrando os dentes pontiagudos, contava casos escandalosos, que as outras contestavam, ou ampliavam e comentavam com insinuações picantes e grosseiras, ou se espraiavam em mexericos triviais sobre a crônica da ralé. Joana Cangati, a mais séria das três, metida a rezas e bruxarias, desde que por uma praga, irrogada pela mãe, ficara com o útero escangalhado de um aborto, obra do demônio, porque a consciência não a acusava de haver feito por onde, dava-se certo recato e modos de mulher séria, muito temente a Deus. Maria Caiçara, bem conformada, galante rapariga, a qualquer graçola de Romana, despejava o riso em gargalhadas estrídulas.

— Então – dizia Romana – o tal Alexandre está cada vez mais embrulhado.

— Não sei – observa a Cangati – Quem havera de dizer?! Eu, meu Deus perdoai-me, não vi ele furtar; por isso não digo nada; mas há coisas que só pintadas pelo cão...

— Qual o quê! – continuou Romana – a Gabrina que o diga. Quando soube que ele estava todo babado pela Luzia-Homem, desembuchou e contou tudo...

— O que ciúme não fizer...

(continua...)

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