Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Uma Lágrima de Mulher

Por Aluísio Azevedo (1880)

— Uma viagem te restabelecerá totalmente, disse Miguel inquieto.

— Ah! suspirou Rosalina. Uma viagem!... É porque não sabes, meu bom amigo, que, com a morte de meu pai, ficamos na extrema miséria, que ele, coitado! passou uma vida de opulência, superior ao que possuía, e morreu de tal modo endividado, que não nos será fácil a nós salvar honradamente seu nome, e a mim continuar a viver sem a difamante proteção de algum estranho! Bem fiz por salvar a situação, e confesso que me supunha mais forte e generosa, de que realmente sou!

E Rosalina começou a tossir, oprimindo o peito com as mãos.

— E eu, continuou a suposta doente, com a voz cada vez mais trêmula, fazia-me forte, aceitando a proposta salvadora e tremenda de um velho rico e doente, que se propunha resgatar o nome de meu pai, casando comigo. Era um futuro triste, porém, honesto. Cedi, Miguel, cheia de esperança e resignação, porém depois de medir bem o sacrifício não tive ânimo para arrostá-lo. Urgia contudo tomar uma deliberação qualquer; o tempo passava e o dia do leilão da casa e dos móveis não tarda a anunciar-se. O momento fatal chegou!... Amanhã tenho de entregar tudo, tudo! e serei...

— Então! interrompeu Miguel, em cujo olhar acabava de nascer o contentamento e a esperança, havias te esquecido de mim? Ingrata! Não te quis ao menos parecer que a tua riqueza era um obstáculo sério à minha ventura! Oh! como sou feliz em ver-te novamente pobre! Iremos juntos para Lipari, onde serás minha esposa, e então seremos felizes, muito felizes! Quanto é bom ser pobre! Olha! disse ele chegando-se carinhosamente para ela e sorrindo, com os modos satisfeitos, de quem se preza de saber arranjar bem as coisas. Vendido tudo por cá, todas estas grandezas e todo este luxo, em pouco poderá ficar a dívida; por esse tempo já estarás em Lipari, caso contigo e serei legalmente o único devedor do que não se puder pagar com o resultado da venda; e daí, com o meu trabalho e principalmente com a minha vontade, crê, conseguiremos ir pouco a pouco resgatando o nome de teu pai. Oh! como seremos felizes!... Mas como te houveste tão injusta em não te lembrares de mim!... Em Lipari, levantaremos novamente uma casa, sob as oliveiras que te viram nascer, minha Rosalina, e sozinhos, ao som das brisas que te embalaram em pequenina, e do mar que te ama ainda, e dos cantos dos passarinhos que voltarão ao nosso teto hospitaleiro, viveremos em companhia da boa Ângela, que te estremece como mãe. Sabes mais!... Castor ainda vive!... disse o moço satisfeitíssimo, batendo palmas, ainda vive! achei-o na noite o incêndio e conservo-o comigo; é um bom e generoso companheiro! Oh! ele também virá porque, não sabes? foi ele que primeiro descobriu pelo faro que tu moravas aqui. Coitado! como te cobrirá de festas quando te vir! Oh! mas é preciso que te decidas a partir! Vamos! não é assim? Dize!... Estás pobre?... Tanto melhor! Ninguém se lembrará de te perseguir!... Partamos, meu amor!

E Miguel, satisfeito como uma criança, beijava as mãos, os pés, o cabelo e a fronte de Rosalina. Parecia louco

Ela observava-o com um sorriso de afetada desesperança, que mascarava enorme surpresa; parecia-lhe aquilo um sonho; nunca esperava tanto amor de Miguel; sentia-se conscientemente arrependida de se ter fingido pobre, antes falasse com franqueza, porque a situação perigava progressivamente.

— Diabo! dizia consigo. Ele adora-me apesar de tudo! Que volta darei a esta cena tão difícil e ridícula?

E assim pensando, fingia fartar-se em contemplar silenciosa o amado, enquanto meditava astuciosamente outro meio mais seguro de fugir-lhe; porém, fundo e estranho ressentimento principiava a minguar-lhe o ânimo, em presença daquela vontade de ferro, daquela firmeza de afeto, daquele amor indelével que tudo cometia indiferente, contanto que o deixassem existir pela mulher, que o próprio coração escolheu para ídolo.

Neste estado e maquinando ainda uma engenhosa saída, fitou Rosalina os olhos abrasados e felizes de Miguel, e, apartando deles os próprios, passeava-os, aparentemente enfraquecidos, pelo quarto, à procura da idéia; quando o acaso deparou-lhe o copo de orchata, sobre o velador à cabeceira do leito.

— Ah! fez ela.

— Que tens!... acudiu Miguel.

— Nada, meu amigo, sinto-me mal!...

— Tudo isso, volveu Miguel, beijando-lhe as mãos, desaparecerá com a nossa futura felicidade! Reanima-te e ordena o que queres que te faça! Aqui tens um escravo! vamos, meu amor... fala! como se eu fosse teu pai, minha filhinha!...

— Já não tenho vontade nem desejos... meu bom amigo, respondeu ela, retorcendo os olhos, porque não posso contar com a existência...

— Rosalina!... disse Miguel; não te deixes levar por essas idéias tão más!... Confia em mim e espera de Deus! Não desanimes, que tens muita vida e a nossa ilha tem muitas flores que te esperam... Havemos de correr juntos pela primavera os caminhos sombreados e ervecidos; subiremos de mãos dadas as encostas dos montes e os píncaros dos rochedos; havemos de...

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3738394041Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →