Por Aluísio Azevedo (1881)
E o cônego apresentou as suas razões, fez bons argumentos, estabeleceu premissas, tirou conclusões, citou máximas latinas, e declarou que aquela hospedagem do cabrocha, no seio da família, nunca fora do seu gosto; e que, para se tratar do casamento de Ana Rosa, a primeira coisa a fazer era afastá-lo da casa.
Mas o negociante, que colocava os seus interesses pecuniários acima de tudo, abanou as orelhas às palavras do compadre, e descreveu a atitude respeitosa e desinteressada de Raimundo ao lado de Ana Rosa; falou no empenho com que o sobrinho quis mudar-se; no seu honor pela província; no seu entusiasmo pela Corte; e lembrou que fora ele próprio até, coitado! quem provocara aquela conferência dos três. Terminou dizendo que, por esse lado, nada temia. Além de que, depositava bastante confiança no bom senso de sua filha. “Não! por ai podiam estar descansados! Não havia perigo a recear!”
— Veremos... veremos... Enquanto não assistir ao casamento deste aqui com a minha afilhada, estou no que disse!... Cui fidas vide!
E o cônego assoou-se com estrondo.
Nessa mesma noite, Manuel, aproveitando a ausência do hóspede, levou a filha ao quarto de Maria Bárbara.. A velha embalava-se na rede, “bebendo” o seu fumo de corda no cachimbo e fitando um velho oratório de pau-santo. Ana Rosa, intrigada com a situação, encostou-se a uma cômoda, e o pai, depois de discorrer sobre várias coisas indiferentes, disse que, no dia seguinte, viriam as amostras da casa do Vilarinho, para a noiva escolher as fazendas do seu enxoval!
— Quem vai casar?... perguntou a menina, num alvoroço.
— Faze-te desentendida, minha sonsa!... Ora qual de nós aqui tem mais cara de noivo — eu ou tua avó?...
E Manuel fez uma festinha no queixo da filha.
— Casar! eu? mas com quem, papai?
E Ana Rosa sorriu, porque calculou que Raimundo a pedira em casamento.
— Ora com quem havia de ser, minha disfarçada?
E desta vez foi Manuel que riu, iludido pelo bom acolhimento que a filha dera à noticia.
— Não sei, não senhor... respondeu ela, com ar de quem sabe perfeitamente.
Com quem é?...
— Anda lá, sonsinha? Não sabes outra coisa!...
E, enquanto Ana Rosa parecia muito ocupada em raspar com a unha uns pingos de cera velha, espalhados pela madeira da cômoda, continuou o negociante:
— Mas por que não me falaste com franqueza há mais tempo, sua caprichosa, fazendo o pobre rapaz supor que o não querias?...
Ana Rosa ficou seria. O pai acrescentou:
— A fazê-lo, coitado! andar por ai tão derreado, que até metia dó!...
— Como?!
— Pois então não sabes como andava o nosso Dias?... — O Dias?! interrogou Ana Rosa empalidecendo.
E fez-se muda, a cismar; só despertou, com estas palavras:
— Ora senhores!... Tem graça!
—Tem graça, não senhora! vossemecê disse que o aceitava para marido!
Que diabo quer dizer agora esta mudança?... Ah, que temos mouros na costa! .. Bem me dizia o compadre!...
— Não sei o que lhe disse o padrinho, mas o que eu lhe digo, papai, é que definitivamente não me casarei com o Dias. Nunca, percebe?
— Mas, tu, se já não o queres, e porque tens outro de olho!...
— Não sei não senhor...
E abaixou os olhos.
— Bem! vê lá! Isto já me vai cheirando mal!... Ora dizes uma coisa; ora dizes outra!.. O mês passado respondeste-me na varanda: “Pode ser” e agora, às duas por três, dizes que não! Sabes que só quero a tua felicidade... não te contrario.. mas tu também não deves abusar!...
— Mas, gentes, o que foi que eu fiz?...
— Não estou dizendo que fizesses alguma coisa!... Só te aviso que prestes toda a atenção na tua escolha de noivo!.. Nem quero imaginar que seda capaz de escolher uma pessoa indigna de ti!...
— Mas, como, papai?... Fale claro!
— Isto vai a quem toca! Não sei se me entendes!...
— Ora, seu Manuel! exclamou Maria Bárbara, levantando-se e pousando no chão o enorme cachimbo de taquari do Pará Você às vezes tem lembranças que parecem esquecimento! Pois então, uma menina, que eu eduquei, ia olhar...— E gritou com mais forca — para quem, seu Manuel!?
— Bem, bem...
— Vejam se não é mesmo vontade de provocar uma criatura!...
— Bem, bem! Eu não digo isto para ofender!... desculpou-se o negociante.
Mas é que temos cá um rapaz bem-aparecido, que...
— Um cabra! berrou a sogra. E era muito bem feito que acontecesse qualquer coisa, para você ter mais cuidado no futuro com as suas hospedagens! Também só nessa cabeça entrava a maluqueira de andar metendo em casa crioulos cheios de fumaças! Hoje todos eles são assim! Súcia de apistolados! Dá-se-lhes o pé e tomam a mão! Corja! Julgue-se mas é muito feliz em não lhe ter recebido o coice! porém fique você sabendo que só a mim o deve! — sei a educação que dei a minha neta!... por esta respondo eu!.. E, quanto ao cabra... é tratar de despachá-lo já, e já, se não quiser ao depois ter de pegar-se com trapos quentes!...
— Pois bem, pois bem, senhora! Amanhã mesmo tratarei disso! Oh!
E Manuel pensou logo em aconselhar-se com o cônego. Ana Rosa continha o choro.
— Vou para meu quarto! disse ela, com mau modo.
— Ouça!... opôs-lhe o pai, detendo-a. A senhora...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.