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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

Foi bastante a separação de um dia para que voltassem ao casal todos os arrulhos de antes do matrimônio. Meu genro tocava com os pés, por debaixo da mesa, os pés de Palmira, e segurava-lhe furtivamente a mão, e dizia-lhe em voz baixa sedutoras palavras de amor, requestando-a de novo para um novo casamento.

Eram felizes. E eu me sentia também feliz, ao reflexo da ventura dos dois; e sorria para César, que esse bem compreendia o alcance da minha felicidade e orgulhava-se de ter contribuído para ela.

À meia-noite dissolveu-se a roda. Leandro retirou-se com o médico, ficando ajustado que voltariam ambos no dia seguinte às mesmas horas. O meu velho e querido amigo disse-me, ao sair, por ocasião de dar-me a mão:

Vai muito bem! Vai muito bem!... Continue, Olímpia!

Creio que consigo fazer o milagre... segredei-lhe, abraçando-o.

Consegue, consegue tudo! Você é uma santa, minha amiga! Adeus.

CAPÍTULO XVII

Foi uma bela inspiração ter feito Leandro entrar para o comércio. Entrou com o pé direito. A casa a que ele se reuniu começou, com o novo capital, a prosperar de um modo admirável. Tornou-se rapidamente conhecido na Praça e conquistou logo bonito crédito. A sua atividade e a sua inteligência, aliás comuns, encontraram bom campo para exercitar-se, sem o menor prejuízo do seu sistema nervoso.

Agora, já não lamentava eu que ele não fosse oficial de marinha. Reformara todo o meu julgamento a esse respeito, por deduções que exporei mais adiante.

Ao contrário do que sucederia se Leandro fosse meu filho e não meu genro, alegrava-me com ser ele simples negociante e não notável artista, ou afamado escritor, ou vulto ilustre na ciência. No exclusivismo do meu amor de mãe, teria até um grande desgosto se o marido de minha filha se revelasse, de um dia para outro, homem de talento singular e começasse a ser aclamado pelo público. Deus me livre! — seria uma desgraça!

Nem falar nisso é bom! o homem de talento não pertence à família, pertence à multidão, pertence à sua pátria, pertence ao mundo pertence ao século; que sei eu? pertence ao diabo, pertence a tudo, a tudo, menos à pobre mulher com quem caiu na perniciosa asneira de casar. Além do que, o constante esforço encefálico, para conceber e produzir grandes obras de arte, traz fatalmente consigo o precoce esgotamento nervoso; o que, suponho, não preciso dizer que é de suma importância na felicidade conjugal.

Se eu fosse homem, sacrificaria de bom grado boa parte da minha força nervosa pela glória de ser um grande escritor, ou um grande artista, ou um grande sábio; se eu tivesse um filho daria prontamente, nem só minha saúde, mas a vida, se em troca de tal sacrifício alcançasse ele aquela glória; mas o que eu tinha não era um filho, era uma filha; logo precisava de um “bom genro”, de um bom marido para ela; e queria pois que esse meu genro fosse talhado pelas conveniências particulares de sua mulher e não pelas conveniências gerais de qualquer homem.

Parece absurdo, mas não é. Absurdo é o protesto que alguns artistas fazem contra as competentes sogras, porque estas, na vigilância do seu amor materno, se revoltam em guerra aberta contra o absorvente egoísmo do talento deles e contra a absorvedoura preocupação das suas glórias individuais, cônscias de que nisso reside o terrível inimigo da felicidade doméstica da filha.

Não é raro ouvirem-se deles exclamações desta ordem:

“Vejam o que é ser sogra! A minha já me declarou, face a face, que preferia fosse eu um homem vulgar, mas — bom marido — a ser quem sou, causando à filha, apesar do meu nome e do meu talento, as contrariedades de que ela se queixa! Já particularizou até com toda a franqueza que preferia para genro um taverneiro estúpido, porém exemplar como esposo, a mim ou ao mais ilustre artista do universo!”

Decerto! Elas têm toda a razão. Não compreendem esses senhores sonhadores de glória que a sogra, assim praticando, está perfeitamente dentro do seu programa de mãe amorosa, ao passo que eles, contraindo casamento, traíram o programa do seu ideal artístico, aceitando um novo ideal incompatível com o primeiro. É impossível viver de corpo e alma para a arte e para a glória e viver ao mesmo tempo para a família! Desses dois ideais um triunfará em sacrifício do outro. Há uma coisa pior do que ficar eternamente solteiro — é casar, sem sentir aptidão para ser um bom chefe de família.

“Quem não pode com o tempo não inventa modas” diz a sabedoria do povo.

A boa sogra, ou, por outra, a boa mãe, quer que seu genro seja um bom marido de sua filha e nada mais. Não é o talento, nem são as glórias dele que a interessam, mas é só a felicidade dela. Para isso a boa mãe ou boa sogra procura agradar o genro, fazer-lhe as vontades, não contrariá-lo, adulá-lo até, levar-lhe a papinha à cama; mas não por ele próprio, e sim porque tudo isso se traduz em benefício da filha.

(continua...)

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