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#Romances#Literatura Brasileira

O Cortiço

Por Aluísio Azevedo (1890)

Os circunstantes acompanharam-na ruidosamente e de carreira.

A taverna, como a casa de pasto, fervia de concorrência.

Ao balcão daquela, o Domingos e o Manuel aviavam os fregueses, numa roda-viva. Havia muitos negros e negras. O baralho era enorme. A Leonor lá estava, sempre aos pulos, mexendo com um, mexendo com outro, mostrando a dupla fila de dentes brancos e grandes, e levando apalpões rudes de mãos de couro nas suas magras e escorridas nádegas de negrinha virgem Três marujos ingleses bebiam gengibirra, cantando, ébrios, na sua língua e mascando tabaco.

Marciana na frente do grande grupo e sem largar o braço da filha, que a seguia como um animal puxado pela coleira, ao chegar à porta lateral da venda, berrou:

— Ó seu João Romão!

— Que temos lá? perguntou de dentro o vendeiro, atrapalhado de serviço.

Bertoleza, com uma grande colher de zinco gotejante de gordura, apareceu à porta, muito ensebada e suja de tisna; e, ao ver tanta gente reunida, gritou para seu homem:

— Corre aqui, seu João, que não sei o que houve!

Ele veio afinal.

Que diabo era aquilo?

— Venho entregar-lhe esta perdida! Seu caixeiro a cobriu, deve tomar conta dela!

João Romão ficou perplexo.

— Hein! Que é lá isso?!

— Foi o Domingos! disseram muitas vozes.

— O seu Domingos!

O caixeiro respondeu: “Senhor...” com uma voz de delinqüente.

— Chegue cá!

E o criminoso apresentou-se, lívido de morte.

— Que fez você com esta pequena?

— Não fiz nada, não senhor!...

— Foi ele, sim! desmentiu-o a Florinda. — O caixeiro desviou os olhos, para a não encarar. — Um dia de manhãzinha, às quatro horas, no capinzal, debaixo das mangueiras...

O mulherio em massa recebeu estas palavras com um coro de gargalhadas.

— Então o senhor anda-me aqui a fazer conquistas, hein?!... disse o patrão, meneando a cabeça. Muito bem! Pois agora é tomar conta da fazenda e, como não gosto de caixeiros amigados, pode procurar arranjo noutra parte!...

Domingos não respondeu patavina; abaixou o rosto e retirou-se lentamente.

O grupo das lavadeiras e dos curiosos derramou-se então pela venda, pelo portão da esta agem, pelo frege, por todos os lados, repartindo-se em pequenos magotes que discutiam o fato. Principiaram os comentários, os juízos pró e contra o caixeiro; fizeram-se profecias.

Entretanto, Marciana, sem largar a filha, invadira a casa de João Romão e perseguia o Domingos que preparava já a sua trouxa.

— Então? perguntou-lhe. Que tenciona fazer?

Ele não deu resposta.

— Vamos! vamos! fale! desembuche!

— Ora lixe-se! resmungou o caixeiro, agora muito vermelho de cólera. — Lixe-se, não!... Mais devagar com o andor! Você há de casar: ela é menor!

Domingos soltou uma palavrada, que enfureceu a velha.

— Ah, sim?! bradou esta. Pois veremos!

E despejou da venda, gritando para todos:

— Sabe? O cara de nabo diz que não casa!

Esta frase produziu o efeito de um grito de guerra entre as lavadeiras, que se reuniram de novo, agitadas por uma grande indignação.

— Como, não casa?!...

— Era só o que faltava!

— Tinha graça!

— Então mais ninguém pode contar com a honra de sua filha?

— Se não queria casar pra que fez mal?

— Quem não pode com o tempo não inventa modas!

— Ou ele casa ou sai daqui com os ossos em sopa! — Quem não quer ser loto não lhe vista a pele!

A mais empenhada naquela reparação era a Machona, e a mais indignada com o fato era a Dona Isabel. A primeira correra à frente da venda, disposta a segurar o culpado, se este tentasse fugir. Com o seu exemplo não tardou que em cada porta, onde era possível uma escapula, se postassem as outras de sentinela, formando grupos de três e quatro. E, no meio de crescente algazarra, ouviam-se pragas ferozes e ameaças:

— Das Dores! toma cuidado, que o patife não espirre por ai!

— Ó seu João Romão, se o homem não casa, mande-no-lo pra cá! Temos ainda algumas pequenas que lhe convêm!

— Mas onde está esse ordinário?!

— Saia o canalha!

— Está fazendo a trouxa!

— Quer escapar!

— Não deixe sair!

— Chame a polícia!

— Onde está o Alexandre?

E ninguém mais se entendia. À vista daquela agitação, o vendeiro foi ter com o Domingos.

— Não saia agora, ordenou-lhe. Deixe-se ficar por enquanto. Logo mais lhe direi o que deve fazer.

E chegando a uma das portas que davam para a estalagem, gritou:

— Vá de rumor! Não quero isto aqui! É safar!

— Pois então o homem que case! responderam.

— Ou dê-nos pra cá o patife!

— Fugir é que não!

— Não foge! não deixa fugir! — Ninguém se arrede!

E, como a Marciana lhe lançasse uma injúria mais forte, ameaçando-o com o punho fechado, o taverneiro jurou que, se ela insistisse com desaforos, a mandaria jogar lá fora, junto com a filha, por um urbano.

— Vamos! Vamos! Volte cada uma para a sua obrigação, que eu não posso perder tempo!

— Ponha-nos então pra cá o homem! exigiu a mulata velha.

— Venha o homem! acompanhou o coro.

— É preciso dar-lhe uma lição!

— O rapaz casa! disse o vendeiro com ar sisudo. Já lhe falei... Está perfeitamente disposto! E, se não casar, a pequena terá o seu dote! Vão descansados; respondo por ele ou pelo dinheiro!

(continua...)

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