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#Contos#Literatura Brasileira

O pai

Por Machado de Assis (1886)

— O que é? perguntou o namorado.

— O mar...

— Ora, o mar.

— E o esquecimento...

— O esquecimento!

— Jura?

— Pela mão de seu pai...

E Valentim beijou respeitosamente a mão de Vicente.

Depois, para expelir da cabeça de Emília as idéias que lhe haviam entrado, Valentim continuou a conversar com Vicente:

— Com que, então, disse ele, vamos ser colegas, empregados públicos...

— Ah! não... respondeu Vicente; este casamento dá-me duas aposentações: a de pai e a de empregado público.

— Ah! deixa a secretaria?

— Deixo; tenho já anos de serviços...

Separaram-se todos, e Valentim tratou de cuidar dos preparativos de viagem. As apreensões de Emília dissiparam-se às palavras brandas e persuasivas de Vicente, e no fim de oito dias a moça estava alegre e contente como dantes. Dai a três dias devia partir

Valentim.

A alegria que por momentos voltara a Emília desaparecia nas vésperas da partida do vapor. Era natural. Emília passava as noites em claro, chorava, rezava a Deus, à Virgem, aos santos, para que a viagem fosse rápida e feliz, e sobretudo para que, sob a ação do novo clima, Valentim não se esquecesse dela. Na véspera da partida Valentim tomou chá em casa de Vicente; foi um chá triste e desconsolado. Vicente procurava alegrar a conversação, mas via-se que ele próprio estava contrafeito.

Às dez horas despediu-se Valentim, prometendo-lhe Vicente que iria no dia seguinte ao bota-fora do vapor.

Valentim e Emília tinham a voz cortada pelas lágrimas. O moço mal pôde beijar a mão à rapariga e fugir para a porta.

A moça desatou a chorar.

Vicente consolou-a como pôde, dizendo-lhe palavras de animação e dando-lhe mil garantias da rapidez da viagem e do amor de Valentim.

Às onze horas Emília retirou-se para o seu quarto.

Aí pôde chorar mais à vontade. Enquanto as lágrimas lhe corriam ela fazia forças para resistir à ausência.

Quando as lágrimas cessaram de correr, a moça dirigiu-se para um oratório em que havia um crucifixo de marfim, e ajoelhada pediu a Deus que favorecesse a viagem de Valentim. Seus pensamentos elevaram-se puros a Deus como eram puras as palpitações do seu coração virgem e sinceramente apaixonado.

No meio das suas orações ouviu bater meia-noite.

Era tarde.

Levantou-se disposta a descansar e conciliar, se pudesse, o sono.

Mas um súbito rumor da parte da rua fê-la chegar à janela.

Não quis abrir e espiou pelas venezianas.

Recuou.

Tinha dado com os olhos no rosto de Valentim.

A janela abriu-se e Valentim apareceu aos olhos da moça...

A moça hesitou; recuou ainda, mas depois vencida por força interior, força inocente e amorosa, foi à janela e beijou a testa do amante.

— Obrigada, disse ela. Parece que te devia este beijo todo do coração... Seguiu-se um momento de silêncio. Um olhar profundo, intenso, e reflexão do coração, prendeu aquelas duas almas por longos minutos.

Depois Valentim começou a beijar os cabelos e as mãos de Emília. Emília tinha uns belos olhos pretos que se escondiam sob os cílios ante as caricias do amante apaixonado. Meia hora passou-se assim.

Só no fim desse tempo ocorreu a Emília perguntar onde estava apoiado Valentim. Valentim apoiava-se numa escada leve e construída de modo a poder dobrar-se. É preciso acrescentar que o que facilitava esta escalada de Romeu era a solidão do lugar, cujo morador mais próximo estava a cem passos dali.

Valentim só reparou que estava fatigado quando esta pergunta lhe foi dirigida por Emília. Então sentiu que tinha as pernas frouxas e ia sendo presa de uma vertigem. Para não cair agarrou-se à janela.

— Ah! exclamou Emília.

E Valentim, não podendo segurar-se, julgou dever saltar para dentro. E saltou.

A escada ficou pendente e oscilou um pouco pela impressão do movimento de Valentim. A janela conservou-se aberta.

Estava uma noite linda, linda como aquelas em que os anjos parece que celebram no céu as festas do Senhor.

Valentim e Emília encostaram-se à janela.

— Amar-me-ás sempre? perguntou Emília fitando namorados e ciosos olhos no seu amante.

— Oh! sempre! disse Valentim.

— Não sei por quê, diz-me o coração que, uma vez passado o mar, hás de esquecer-me.

— Não digas isso, Emília, Emília, nunca te esquecerei, nem fora possível depois que jurei entre mim aceitar-te por mulher diante de Deus e dos homens. Mas se ainda uma vez queres que to jure...

— Por esta noite, por Deus que nos ouve?

— Sim.

Os dois olharam-se de novo com aquele olhar supremo em que os corações apaixonados sabem traduzir os seus sentimentos nas horas de maior exaltação.

Encostados à janela os dois amantes viram correr os meteoros do alto do céu até o horizonte, deixando após si um sulco luminoso que se apagava logo. A noite era das mais belas noites de verão.

O espírito suspeitoso de Emília achava, apesar dos juramentos reiterados de Valentim, ocasião para revelar as suas dúvidas.

Olhando tristemente a estrela que corria.

...Cette étoile qui file, Qui file, file et disparait,

A moça dizia baixinho:

(continua...)

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