Por Bernardo Guimarães (1883)
A casa do major Damazio, que durante muito tempo se tinha tornado uma especie de cremiterio, foi gradualmente se fazendo mais accessivel á sociedade e mais animada. A lembrança dos remoques e epigrammas dos estudantes e das pretenções do capataz ia pouco a pouco se apagando. O major, que nunca perdia a esperança de achar para sua filha um noivo de alta jerarchia, começava a attrahir de novo e convidar a jantar alguns amigos, não excluindo mesmo, mas com algum escrupulo na escolha, alguns jovens da classe academica. Adelaide nada havia perdido dc sua formosura e attractivos apezar dos transes dolorosos, por que havia passado , sua robusta organisação havia zombado dos trabalhos e contratempos, e a flor de sua belleza alardeava-se ainda tão esplendida e viçosa como d'antes. Sómente os soffrimentos lhe havião estampado na physionomia e nas maneiras um ar mais grave e melancolico, que ainda mais realçava seus encantos.
Entre os moços que frequentavão a casa do major, havia um, que sinceramente apaixonado da belleza de Adelaide se fez notar por seus obsequios e homenagem e por sua assiduidade. Era um terceiro-annista de bella e agradavel presença, de maneiras sympathicas, e posto que não fossc rico, tinha a fortuna dc assignar-se com o appelido de Bueno de Moracs, um dos nomes heraldicos de mais distincção na provincia de S. Paulo. Alem disso, sendo aspirante ao pergaminho de bacharel cm direito, tinha aberta diante de si a carreira das honras e grandezas, c o bom major podia bem nutrir a esperança de ter um dia um genro deputado, presidente, ministro, senador e por fim até mesmo visconde e marquez.
Damazio, que tambem assignava-se Bueno, descobrio logo entre elle e o futuro genro corto gráo dc parentesco, e o doce nome de primo e prima substituirão dahi em diante os nomes proprios entre os dous namorados. Adelaide não se desagradou do moço, a qual na verdade, além dc sua bonita figura e maneiras agradaveis, e insinuantes parecia ser dotado de boas e solidas qualidades. É verdade que não concebeo por elle uma dessas paixões profundas e vehementes, como a que Conrado lhe havia inspirado, mas votava-lhe essa estima calma, porém terna e affectuosa, que é a meu lhor garantia da paz e felicidade da vida conjugal.
Havendo pois commum accordo entre todas as partes interessadas, contractou-se e cclebousc dentro de poucos dias o casamento da senhora Dona Adelaide Florisbclla Bueno dc Aguiar com o senhor Francisco Ribeiro Bueno de Moraes.
É quasi escusado dizer que houve banqueto profuso e baile esplendido, aos quaes forào convidados o compadre Tobias, o presidente da provincia, os lentes da Academia, as familias mais gradas da cidade, e a nata da classe academica.
Bueno de Moraes era de intelligencia um pouco menos que mcdiocre tanto assim, que apezar de contar já os seus vinte e sete annos, apenas á custa de muito patronato e de muito alisar os bancos da Academia tinha podido içar—se até o terceiro anno. Si já era por natureza algum tanto avesso ás lettras, a vida matrimonial, e a tal ou qual opulencia, que entrou a fruir, acabárão de lhe tirar completamente o gosto pelo estudo. Perdeo o anno, e não poude fazer acto. Declarou a seu sogro que não podia mais continuar no curso academico ; que já possuia instrucção bastante para seguir a carreira que melhor lhe conviesse, e, conhecendo o fraco de seu sogro, apontou— lhe diversos exemplos de homens que sem possuirem pergaminho algum tinhão attingido ás mais altas posições sociacs. O sogro, posto que bastante contrariado, não desesperava, c perguntou-lhe em que desejava empregar se Moraes respondeo-lhe que precisava adquirir por seus proprios esforços alguma fortuna, que é a primeira base de uma boa posição social, e que sentia-se com decidida vocação para a carreira commercial, para a qual desde o berço propendião todas as suas inclinações. O major, accedento a seus desejos, aconselhou-lhe que começasse pelo negocio de muladeiro que no seu entender era o que mais depressa podia enriquecer, e para prova dava o seu proprio exemplo. Moraes acceitou o conselho, e aproveitou-se da bolsa e dos largos abonos que o sogro lhe facilitava; mas como homem, que tinha ainda menos pratica de negocios do que dos livros, em menos de dous annos deo litteralmente com todos os burros n'agua, e o sogro teve de sangrar sua burra em quantia consideravel a fim de desempenhar o genro para com seus freguezes de Sorocaba e Curitiba.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.