Por Bernardo Guimarães (1872)
Nas vésperas da festa, a que nos reportamos(há de haver mais de vinte anos), a alegre e faceira vila estava mesmo louçã e garrida, como menina da roça, que se enfeita com alegre sofreguidão para ir à festa na povoação vizinha. As fazendas e arraialetes, num raio de dez léguas em redor, tinham ficado despovoados. As casas da pequena vila já não eram suficientes para acomodar tanta gente; os ranchos improvisados e cobertos de capim; as barracas e os carros de bois, outras barracas ambulantes, com seu toldo de couro, agrupados em desordem pelas Campinas e vargedos vizinhos, abrigavam uma multidão de famílias sertanejas, que ao sol sempre brilhante daquelas paragens, onde se desconhecem as neblinas e aguaceiros, alardeavam seus vestidos de cores vivas e variegadas, seus grossos rosários e trancelins de ouro com pesados relicários e medalhas pendentes do pescoço, derramando-se pelo seio com incrível profusão. Os rapazes montados em lindos poldros ou em possantes mulas ajaezadas de prataria, as esporeavam pelas ruas, procurando fazer admirar as excelentes qualidade de suas cavalgaduras, e o seu desempenho e galhardia em dirigi-las. As violas, violões e guitarras ressoavam por todos os cantos daquela vila que sempre foi notável por seu gosto pelas sinfonias e serenatas.
A arena ou circo, em que se deviam correr as cavalhadas, era no meio do largo da Matriz, em uma esplanada que fica na parte mais eminente do outeiro em que está situada a vila. Era um arco circular de cento e vinte passos, mais ou menos, de diâmetro, em torno do qual os particulares iam construindo em desordem e sem simetria alguma seus palanques toldados e guarnecidos em roda de colchas de damasco, de seda e de chita de variadas e brilhantes cores.
Dois dias antes da festa, à tarde, fazia sua entrada na vila pela estrada do sertão uma família, que, entre outras muitas que am chegando, atraiu particularmente a atenção do povo que vagava pelas ruas, e que se apinhava pelas portas e janelas. Era um homem idoso, tendo a seu lado uma jovem e gentil cavaleira, que cavalgava com suma graça um lindo ginete branco, uma menina de nove a dez anos, e alguns pajens e mucamas a cavalo.
- Que moça tão bonita é aquela? - perguntavam dali.
- É a Lúcia! Pois não conhecem a Lúcia? Ah! Cada vez mais bela!
- É a Lúcia! Aí vem a Lúcia! - sussurrava-se em outro grupo; e moços, velhos e meninos a correrem às janelas para verem aquela peregrina formosura, cuja fama há muito já se tinha espalhado por toda aquela redondeza.
- É um sol de formosura! exclamavam simpaticamente os velhos. É o retrato de sua mãe, que eu conheci muito no meu tempo, mas retrato favorecido. . .
- É na verdade bonita – diziam as moças; mas, coitada, por viver sempre na roça, está com um ar tão acanhado.
- Ora, prima, se a senhora não fosse tão bonita, eu diria que isso é inveja. Veja com que graça e desembaraço ela governa o cavalo. . . queria que ela estivesse a olhar sempre para todos os lados?
Quando uma moça é bonita, airosa e bem feita, se cavalga um lindo ginete e sabe bem dirigi-lo, seus encantos ganham novo realce. Com o movimento as faces se incendem de cores mais vivas, os olhos despedem mais fulgor, e o porte como que se torna mais garboso e senhoril. Lúcia, que reunia todas aquelas condições em grau eminente, estava fascinadora. Sua entrada na vila produziu uma verdadeira expectação.
- Que bonita moça! E como governa bem o seu lindo cavalinho! - dizia-se ainda em um grupo de moços, que se afastara a um canto para vê-la. Eu prefiro este espetáculo a quanta cavalhada há neste mundo.
-tens razão. Entre as coisas lindas é ver uma linda moça montada em um lindo cavalo.
- Oh! Se as mulheres também corressem cavalhadas, e pilhássemos um terno de cavaleiras como aquela! . . . que dizes, Elias?
- Isso é impossível- respondeu este- como aquela não pode haver outra no mundo. Mas nesse caso eu quisera correr cavalhadas toda a minha vida!
- Ah! Meu Deus! A primeira argolinha, que eu correr, e que hei de tirar por força, há de ser oferecida àquela incomparável formosura.
- Alto lá, eu corro primeiro que tu, e serei eu que primeiro terei a honra de ofertar-lhe o anel. . . que ventura, já estou sonhando com o gracioso sorriso com que ela tem de agradecer-me.
- Que esperança! Na primeira corrida vocês todos hão de errar, eu aposto; e eu, que serei um dos últimos a correr serei o primeiro a levar a argolinha à gentil dama, e o que vocês ainda não sabem, o pai dela com quem muito me dou, me há de convidar a jantar em sua casa. Olhem, não vão morrer de inveja.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.