Por Martins Pena (1845)
MANUEL – Paizinhos, vão acabar de fazer a fogueira. Levem primeiro vocês a cana e os carás à Senhora. (Manuel fala como os ilhéus, isto é, cantando. Os negros da lenha vão acabar de fazer a fogueira; os outros dois saem pelo fundo. Manuel, só:) Cá no Brasil é como na minha terra; também se festeja a noite de S. João. Quem me dera no Tojal! Há dois anos que aqui estou trabalhando para ganhar dinheiro e para lá voltar. Oh, quem pudera viver sem trabalhar! Cresce-me água à boca, quando vejo um rico. São os felizes, que cá o homem anda de canga ao pescoço.
CENA VI
Entra Maria com uma cesta à cabeça.
MANUEL – O que levas aí, Maria?
MARIA – A roupa que estava no campo a secar.
MANUEL – Pois ainda agora? Vem cá. (Maria deixa a cesta à porta da casinha e caminha para Manuel.)
MARIA – A senhora tomou-me o tempo e não deixou-me recolhê-la com dia. Andamos a arranjar a casa para a companhia.
MANUEL – E ela é que diverte com os seus, e nós trabalhamos.
MARIA – O que queres, Manuel? Somos pobres, que Deus assim nos fez.
MANUEL – E é do que me queixo. Todo o dia com a enxada na mão, e ainda em cima ter olhos nos paizinhos, que são peores que o diabo.
MARIA – Anda lá, não te queixes tanto, que lá no Tojal éramos mais desgraçados. Não sei como não morríamos de fome. Ganhavas seis vinténs por dia ao rabo da enxada, e cá o senhor te estima; pagou a nossa passagem.
MANUEL – Quisesse Deus que eu tivesse algum dinheirinho junto! Pagaria ao senhor o resto que lhe devo e ia comprar um burro e uma carroça para vender a iágua. O Zé voltou para S. Miguel com cinco mil cruzados que assim ganhou.
MARIA – Se puderas fazer isso, eu ficava com a senhora. Este vestido deu-me ela, e este xale também, e outros me dará ainda.
MANUEL – Pois se eu sair, sairás também, senão te desanco.
MARIA – Ai!
MANUEL – Pensas que eu não sei porque queres ficar?
MARIA – Ai, que me impacientas!
MANUEL – Bem vejo o senhor a te fazer roda como um peru.
MARIA – Esta besta! O senhor a fazer-me roda, tão velho como é? Ai, que me rio desta!
MANUEL – Vai-te rindo, bestinha, até que chores.
CLARA, da porta da casa – Maria?
MARIA – Adeus, que a senhora chama-me. Esta besta!
MANUEL – Anda com cuidado, que te tenho o olho em riba.
MARIA – Olha que cansarás a vista, animal.
CENA VII
MANUEL, só – Assim vive um homem de Deus a lavrar a terra e a vigiar a mulher. Forte ocupação, que o diabo leve! (Para os negros:) Anda paizinhos, acabem essa fogueira e vão arrumar o capim na carroça para ir para cidade. (Os dois negros saem.) Se o senhor continua a fazer festas a Maria, hei-de dizer à senhora, que não é para brincos. (Sai. Logo que Manuel sai, chega do fundo João.)
CENA VIII
JOÃO, só – Agora que lá dentro estão todos entretidos, é boa ocasião de cercar minha bela ilhoazinha para dar-lhe um abraçozinho. Aonde estará ela? (Chamando com cautela:) Maria, Maria? Tenho medo que minha mulher veja-me aqui. É velha, mais tem ciúmes como um mouro. Quem manda ser velha? Estará no quarto? (Vai espiar na casinha.) Maria? Nada. Lá dentro ainda dançam; estão devertidos e não darão por minha falta. Vou esconder-me no seu quarto e lá esperarei para surpreendê-la. Oh, que surpresa! Só assim, porque ela é arisca como o diabo. Dou-lhe um abraçozinho e depois safo-me na pontinha dos pés. Oh, que surpresa! Que contentamento! (Esfrega as mãos. Júlio, que a este tempo entra vindo do fundo, chama por ele; João, que está quase junto à porta, volta-se zangado.)
CENA IX
Júlio e João.
JÚLIO – Sr. João Félix?
JOÃO, voltando-se – Quem é?
JÚLIO – Se quisesse ter a bondade de ouvir-me por alguns instantes com atenção...
JOÃO, impaciente – O que tens agora a dizer-me, homem? Vá dançar.
JÚLIO – Pensamentos muito sérios ocupam-se neste momento para eu poder dançar.
JOÃO – Então o que é?
JÚLIO – Desculpe a minha franqueza...
JOÃO – Avie-se, que tenho pressa.
JÚLIO – Eu amo sua filha.
JOÃO – E que tenho eu com isso?
JÚLIO – Mas é que eu a amo com adoração, como nunca se amou, e pretendia...
JOÃO – Vá dizer a ela que eu lhe ordeno que dance com o senhor uma contradança; ande, vá, vá! (Empurrando-o)
JÚLIO – Não é por tão pequeno favor que eu ouso encomodá-lo.
JOÃO , à parte – Que impertinência! E eu a perder tempo e ocasião.
JÚLIO – Terei ânimo em falar, visto que o senhor não reprovou o meu amor.
JOÃO – Bem vejo que tens ânimo, mas pressa decerto que não tens. Pois é o que eu tenho.
JÚLIO – Serei breve. Concede-me a mão de sua filha?
JOÃO – Se é para dançar, já lhe dei.
JÚLIO – Não senhor, é para casar.
JOÃO – Para casar? Sempre pensei que o senhor tivesse mais juízo. Pois de noute, no meio do campo e a estas horas é que o senhor vem pedir minha filha, obrigando-me a estar aqui a cabeça ao sereno? Já eu estou constipado. (Amarra um lenço na cabeça.)
JÚLIO – Só motivos imperiosos me obrigariam a dar este passo tão precipitado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)PENA, Martins. O Namorador ou a Noite de São João. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1992 . Acesso em: 29 jan. 2026.