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#Comédias#Literatura Brasileira

O Judas em sábado de aleluia

Por Martins Pena (1844)

Faustino — Sim, sim, por tua causa! O capitão da minha companhia, o mais feroz capitão que tem aparecido na mundo, depois que se inventou a Guarda Nacional, persegue-me, acabrunha-me e assassina-me! Como sabe que eu te amo e que tu me correspondes, não há pirraças e afrontas que me não faça. Todas os meses são dous e três avisos para montar guarda; outros tantos para rondas, manejos, paradas... E desgraçado se lá não vou, ou não pago! Já o meu ordenado não chega. Roubam-me, roubam-me com as armas na mão! Eu te detesto, capitão infernal, és um tirano, um Gengis-Kan, um Tamerlan! Agora mesmo está um guarda à porta da repartição à minha espera para prender-me. Mas eu não vou lá, não quero. Tenho dito. Um cidadão é livre... enquanto não o prendem.

Maricota — Sr. Faustino, não grite, tranqüilize-se!

Faustino — Tranqüilizar-me! Quando vejo um homem que abusa da autoridade que lhe confiaram para afastar-me de ti! Sim, sim, é para afastar-me de ti que ele mandame sempre prender. Patife! Porém o que mais me mortifica e até faz-me chorar, é ver teu pai, o mais honrado cabo-de-esquadra, prestar o seu apoio a essas tiranias constitucionais.

Maricota — Está bom, deixe-se disso, já é maçada. Não tem que se queixar de meu pai: ele é cabo e faz a sua obrigação.

Faustino — Sua obrigação? E julgas que um homem faz a sua obrigação quando anda atrás de um cidadão brasileiro com uma ordem de prisão metida na patrona, na patrona? A liberdade, a honra, a vida de um homem, feita à imagem de Deus, metida na patrona! Sacrilégio!

Maricota (rindo-se) — Com efeito, é uma ação digna...

Faustino (interrompendo-a) —... somente de um capitão da Guarda Nacional! Felizes dos turcos, dos chinas e dos negros de Guiné, parque não são guardas nacionais! Oh!

Porque lá nos desertos africanos Faustino não nasceu desconhecido!

Maricota — Gentes!

Faustino — Mas apesar de todas essas perseguições, eu lhe hei-de mostrar para que presto. Tão depressa se reforme a minha repartição, casar-me-ei contigo, ainda que eu veja adiante de mim todas os chefes de legião, coronéis, majores, capitães, cornetas, sim, cornetas, e etc.

Maricota — Meu Deus, endoudeceu!

Faustino — Então podem chover sobre mim os avisos, como chovia o maná no deserto! Não te deixarei um só instante. Quando for ás paradas, irás comigo para me veres manobrar.

Maricota — Oh!

Faustino — Quando montar guarda, acompanhar-me-ás...

Maricota — Quê! Eu também hei-de montar guarda?

Faustino — E o que tem isso? Mas não, não, correria seu risco...

Maricota — Que extravagâncias!

Faustino — Quando rondar, rondarei a nossa parta, e quando houver rusgas, fechar-me-ei em casa contigo, e dê no que der, que... estou deitado. Mas ah, infeliz!...

Maricota — Acabou-se-lhe a furor?

Faustino — De que me servem todas esses tormentos, se me não amas?

Maricota — Não o amo?!

Faustino — Desgraçadamente, não! Eu tenho cá para mim que a tanto se não atreveria a capitão, se lhe desses esperanças.

Maricota — Ingrato!

Faustino — Maricota, minha vida, ouve a confissão das tormentas que por ti sofro. (Declamando) Uma idéia esmagadora, idéia abortada do negro abismo, como o riso da desesperação, segue-me por toda a parte! Na rua, na cama, na repartição, nos bailes e mesmo no teatro não me deixa um só instante! Agarrada às minhas orelhas, como o náufrago à tábua de salvação, ouço-a sempre dizer: — Maricota não te ama! Sacudo a cabeça, arranco as cabelos (faz o que diz) e só consigo desarranjar os cabelos e amarrotar a gravata. (Isto dizendo, tira da bolso um pente, com o qual penteia-se enquanto fala) Isto é o tormento da minha vida, companheiro da minha morte! Cosido na mortalha, pregado no caixão, enterrado na catacumba, fechado na caixinha dos ossos no dia de finados ouvirei ainda essa voz, mas então será furibunda, pavorosa e cadavérica, repetir: — Maricota não te ama! (Engrossa a voz para dizer estas palavras) E serei o defunto o mais desgraçado! Não te comovem estas pinturas? Não se te arrepiam as carnes?

Maricota — Escute...

Faustino — Oh, que não tenha eu eloqüência e poder para te arrepiar as carnes!...

Maricota — Já lhe disse que escute. Ora diga-me: não lhe tenho eu dado todas as provas que lhe poderia dar para convencê-lo do meu amor? Não tenho respondido a todas suas cartas? Não estou à janela sempre que passa de manhã para a repartição, e às duas horas quando volta, apesar do sol? Quando tenho alguma flor ao peito, que ma pede, não lha dou? Que mais quer? São poucas essas provas de verdadeiro amor? Assim é que paga-me tantas finezas? Eu é que me deveria queixar...

Faustino — Tu?

Maricota — Eu, sim! Responda-me, por onde andou, que não passou por aqui ontem, e fez-me esperar toda tarde à janela? Que fez do cravo que lhe dei o mês passado? Por que não foi ao teatro quando eu lá estive com D. Mariana? Desculpese, se pode. Assim é que corresponde a tanto amor? Já não há paixões verdadeiras. Estou desenganada. (Finge que chora)

Faustino — Maricota...

(continua...)

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