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#Comédias#Literatura Brasileira

Hoje avental, amanhã luva

Por Machado de Assis (1858)

(passeando com agitação) 

Cabeleira! E depois fazer-me seu urso como um marido na chácara do Souto. 

ROSINHA 

(às gargalhadas) 

Ah! ah! ah! (vai-se pelo fundo) 

Cena VII 

DURVAL 

(passeando) 

É demais! E então quem fala! uma mulher que tem umas faces... Oh! é o cúmulo da impudência! É aquela mulher furta-cor, aquele arco-íris que tem a liberdade de zombar de mim!... (procurando) Rosinha! Ah! foi-se embora... (sentando-se) Oh! Se eu me tivesse conservado na roça, ao menos lá não teria destas apoquentações!... Aqui na cidade, o prazer é misturado com zangas de acabrunhar o espírito mais superior! Nada! (levanta se) Decididamente volto para lá... Entretanto, cheguei há pouco... Não sei se deva ir; seria dar cavaco com aquela mulher; e eu... Que fazer? Não sei, deveras! 

Cena VIII 

DURVAL e BENTO (de paletó, chapéu de palha, sem botas) 

BENTO 

(mudando a voz) 

Para a Sra. Rosinha. (põe o ramalhete sobre a mesa) 

DURVAL 

Está entregue. 

BENTO 

(à parte) 

Não me conhece! Ainda bem. 

DURVAL 

Está entregue. 

BENTO 

Sim, senhor! (sai pelo fundo) 

Cena IX 

DURVAL 

(só, indo buscar o ramalhete) 

Ah! ah! flores! A Sra. Rosinha tem quem lhe mande flores! Algum boleeiro estúpido. Estas mulheres são de Um gosto esquisito às vezes! - Mas como isto cheira! Dir-se-ia um presente de fidalgo! (vendo a cartinha) Oh! que é isto? Um bilhete de amores! E como cheira! Não conheço esta letra; o talho é rasgado e firme, como de quem desdenha. (levando a cartinha ao nariz) Essência de violeta, creio eu. É uma planta obscura, que também tem os seus satélites. Todos os têm. Esta cartinha é um belo assunto para uma dissertação filosófica e social. Com efeito: quem diria que esta moça, colocada tão baixo, teria bilhetes perfumados!... (leva ao nariz) Decididamente é essência de magnólias! 

Cena X

ROSINHA (no fundo) DURVAL (no proscênio) 

ROSINHA 

(consigo) 

Muito bem! Lá foi ela visitar a sua amiga no Botafogo. Estou completamente livre. (desce) 

DURVAL 

(escondendo a carta) 

Ah! és tu? Quem te manda destes presentes? 

ROSINHA 

Mais um. Dê-me a carta.

DURVAL 

A carta? É boa! é coisa que não vi. 

ROSINHA 

Ora não brinque! Devia trazer uma carta. Não vê que um ramalhete de flores é um estafeta mais seguro do que o correio da corte! 

DURVAL 

(dando-lhe a carta) 

Aqui a tens; não é possível mentir. 

ROSINHA 

Então! (lê o bilhete) 

DURVAL 

Quem é o feliz mortal? 

ROSINHA 

Curioso! 

DURVAL 

É moço ainda? 

ROSINHA 

Diga-me: é muito longe daqui a sua roça? 

DURVAL 

É rico, é bonito? 

ROSINHA 

Dista muito da última estação? 

DURVAL 

Não me ouves, Rosinha? 

ROSINHA 

Se o ouço! É curioso, e vou satisfazer-lhe a curiosidade. É rico, é moço e é bonito. Está satisfeito? 

DURVAL 

Deveras! E chama-se?... 

ROSINHA 

Chama-se... Ora eu não me estou confessando! 

DURVAL 

És encantadora! 

ROSINHA 

Isso é velho. É o que me dizem os homens e os espelhos. Nem uns nem outros mentem. 

DURVAL 

Sempre graciosa!

ROSINHA 

Se eu o acreditar, arrisca-se a perder a liberdade... tomando uma capa... 

DURVAL 

De marido, queres dizer (à parte) ou de um urso! (alto) Não tenho medo disso. Bem vês a alta posição... e depois eu prefiro apreciar-te as qualidades de fora. Talvez leve a minha amabilidade a fazer-te uma madrigal. 

ROSINHA 

Ora essa! 

DURVAL 

Mas, fora com tanto tagarelar! Olha cá! Eu estou disposto a perdoar aquela carta; Sofia vem sempre ao baile? 

ROSINHA 

Tanto como o imperador dos turcos... Recusa. 

DURVAL 

Recusa! É o cúmulo da... E por que recusa? 

ROSINHA 

Eu sei lá! Talvez um nervoso; não sei! 

DURVAL 

Recusa! Não faz mal... Não quer vir, tanto melhor! Tudo está acabado, Sra. Sofia de Melo! Nem uma atenção ao menos comigo, que vim da roça por sua causa unicamente! Recebe-me com agrado, e depois faz-me destas! 

ROSINHA 

Boa noite, Sr. Durval. 

DURVAL 

Não te vás assim; conversemos ainda um pedaço. 

ROSINHA 

Às onze horas e meia... interessante conversa! 

DURVAL 

(sentando-se) 

Ora que tem isso? Não são as horas que fazem a conversa interessante, mas os interlocutores. 

ROSINHA 

Ora tenha a bondade de não dirigir cumprimentos. 

DURVAL 

(pegando-lhe na mão) 

Mal sabes que tens as mãos, como as de uma patrícia romana; parecem calçadas de luva, se é que uma luva pode ter estas veias azuis como rajadas de mármore. 

ROSINHA (à parte) 

Ah! hein!

DURVAL 

E esses olhos de Helena! 

ROSINHA 

Ora! 

DURVAL 

E estes braços de Cleópatra! 

ROSINHA (à parte) 

Bonito! 

DURVAL 

Apre! Queres que esgote a história? 

ROSINHA 

Oh! não! 

DURVAL 

Então por que se recolhe tão cedo a estrela d'alva? 

ROSINHA 

Não tenho outra coisa a fazer diante do sol. 

DURVAL 

Ainda um cumprimento! (vai à caixa de papelão) Olha cá. Sabes o que há aqui? um dominó. 

ROSINHA 

(aproximando-se) 

Cor-de-rosa! Ora vista, há de ficar-lhe bem. 

DURVAL 

Dizia um célebre grego: dê-me pancadas, mas ouça-me! - Parodio aquele dito: - Ri, graceja, como quiseres, mas hás de escutar-me: (desdobrando o dominó) não achas bonito? 

ROSINHA 

(aproximando-se) 

Oh! decerto! 

DURVAL 

Parece que foi feito para ti!... É da mesma altura. E como te há de ficar! Ora, experimenta! 

ROSINHA 

Obrigado. 

DURVAL 

Ora vamos! experimenta; não custa. 

ROSINHA 

(continua...)

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