Por Machado de Assis (1893)
— Com quem casa? perguntou.
— Com um moço da Estrada de Ferro.
Ricardo consentiu em ir com a mãe, à noite, visitar a prima. Lá achou o noivo, ao pé dela, no canapé, conversando baixinho. Depois das apresentações, Ricardo encostou-se ao canto de uma janela, e o noivo foi tercom ele, passados alguns minutos, para dizer-lhe que estimava muito conhecê-lo, tinha uma casa às suas ordens e um criado para o servir. Já o tratava por primo.
— Sei que meu primo é poeta.
Ricardo, com fastio, deu de ombros.
— Ouvi dizer que é um grande poeta.
— Quem lhe disse isso?
— Pessoas que sabem. Sua prima também me disse que fazia bonitos versos. Ricardo, após alguns segundos:
— Fiz versos; provavelmente não os farei mais.
Daí a pouco estavam os noivos outra vez juntos, falando baixinho. Ricardo teve-lhe inveja. Eram felizes, uma vez que gostavam um do outro. Pareceu-lhe até que ela gostava ainda mais, porque sorria sempre; e daí talvez fosse para mostrar os lindos dentes que Deus lhe dera. O andar da moça também era mais gracioso. O amor transforma as mulheres, pensava ele; a prima está melhor do que era. O noivo é que lhe pareceu um tanto impertinente, só a tratá-lo por primo... Disse isto à mãe, na volta para casa.
— Mas que tem isso?
Sonhou nessa noite que assistia ao casamento de Felismina, muitos carros, muitas flores, ela toda de branco, o noivo de gravata branca e casaca preta, ceia lauta, brindes, recitando ele Ricardo uns versos...
— Se outro não recitar, se não eu... disse ele de manhã, ao sair da cama. E a figura de Felismina entrou a persegui-lo. Dias depois, indo à casa dela, viu-a conversar com o noivo, e teve um pequeno desejo de atirá-lo à rua. Soube que ele ia na manhã seguinte para a Barra do Piraí, a serviço.
— Demora-se muito?
— Oito dias.
Ricardo visitou a prima todas essas noites. Ela, aterrada com o sentimento que via nascer no primo, não sabia que fizesse. A princípio resolveu não aparecer-lhe; mas aparecia-lhe, e ouvia tudo o que ele contava com os olhos postos nos dele. A mãe dela tinha a vista curta. Na véspera da volta do noivo, Ricardo apertou-lhe a mão com força, com violência, e disse-lhe adeus "até nunca mais". Felismina não ousou pedir-lhe que viesse; mas passou a noite mal. O noivo regressou por dous dias.
— Dous dias? perguntou-lhe Ricardo na rua onde ele lhe deu a notícia.
— Sim, primo, tenho muito que fazer, explicou o outro.
Partiu, as visitas continuaram; os olhos falavam, os braços, as mãos, um diálogo perpétuo, não espiritual, não filosófico, um diálogo fisiológico e familiar. Uma noite, Ricardo sonhou que pegava da prima e subia com ela ao alto de um penedo, no meio do oceano. Viu-a sem braços. Acordando de manhã, olhou para a Vênus de Milo.
— Vênus! Vênus! divina Vênus!
Atirou-se à mesa, ao papel, meteu mãos à obra, para compor alguma cousa, um soneto, um soneto que fosse. E olhava para Vênus — a imagem da prima —, e escrevia, riscava, tornava a escrever e a riscar, e novamente escrevia até que lhe saíram os dous primeiros versos do soneto. Os outros vieram vindo, cai aqui, cai acolá.
— Felismina! exclamava ele. O nome dela há de ser a chave de ouro. Rima com divina e cristalina. E concluía assim o soneto.
E tu, criança amada, tão divina
Não és cópia da Vênus celebrada,
És antes seu modelo, Felismina.
Deu-lho nessa noite. Ela chorou depois que os leu. Tinha de pertencer a outro homem. Ricardo ouviu essa palavra e disse-lhe ao ouvido:
— Nunca!
Indo a acabar os quinze dias, o noivo escreveu dizendo que precisava ficar ainda na Barra umas duas ou três semanas. Os dous, que iam dando pressa a tudo, trataram da conclusão. Quando Maria dos Anjos ouviu ao filho que ia desposar a prima, ficou espantada, e pediu que se explicasse.
— Isto não se explica, mamãe...
— E o outro?
— Está na Barra. Ela já lhe escreveu pedindo desculpa e contando a verdade. Maria dos Anjos abanou a cabeça, com ar de reprovação.
— Não é bonito, Ricardo...
— Mas se nós gostamos um do outro? Felismina confessou que ia casar com ele, à toa, sem vontade; que sempre gostara de mim; casava por não ter com quem.
— Sim, mas palavra dada...
— Que palavra, mamãe? Mas se eu a adoro; digo-lhe que a adoro. Queria que eu ficasse a olhar ao sinal, e ela também, só porque houve um equívoco, uma palavra dada sem reflexão? Felismina é um anjo. Não foi à toa que lhe deram um nome, que é a rima de divina. Um anjo, mamãe!
— Oxalá sejam felizes.
— Com certeza; mamãe verá.
Casaram-se. Ricardo era todo para a realidade do amor. Conservou a Vênus de Milo, a divina Vênus, posta na parede, apesar dos protestos de modéstia da mulher. Convém saber que o noivo casou mais tarde na Barra, Marcela e Virgínia estavam casadas. As outras moças que Ricardo amou e cantou tinham já maridos. O poeta deixou de poetar, com grande mágoa dos seus admiradores. Um deles perguntou-lhe um dia, ansioso:
— Então você não faz mais versos?
— Não se pode fazer tudo, respondeu Ricardo, acariciando os seus cinco filhos.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Vênus! Divina Vênus!. Almanaque da Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 1893.